22 Mai 2026
Com o aumento das tensões entre os Estados Unidos e Cuba, o Vaticano está acompanhando a situação de perto, e um alto funcionário condenou o uso da ajuda humanitária como arma política.
A reportagem é de Elise Ann Allen, publicada por Crux, 21-05-2026.
Em um discurso proferido durante uma missa em homenagem a Cuba, no dia 15 de maio, o cardeal canadense Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, afirmou: "Qualquer lógica de confronto permanente corre o risco de agravar o fardo que já recai sobre as pessoas comuns".
Isso é especialmente verdade para os mais vulneráveis, como os pobres, os idosos, os doentes e as crianças, disse ele, e apontou para a insistência repetida do Papa Leão XIV de que nenhuma ordem estável pode ser estabelecida com “a força das armas” ou “pressão que humilha os povos”.
“O desenvolvimento humano cresce, ao contrário, por meio do diálogo, do direito internacional, da cooperação entre as nações e da proteção da dignidade de cada ser humano”, afirmou.
Nesse espírito, Czerny afirmou que a ajuda humanitária “deve chegar em quantidades suficientes e sem obstáculos, sem jamais ser instrumentalizada para fins políticos ou geopolíticos”.
Ele lembrou a visita do Papa Francisco a Cuba em 2015 e a missa celebrada na Plaza de la Revolución, na qual convidou os líderes a colocarem a pessoa humana no centro da vida social e política, especialmente os mais frágeis e vulneráveis.
Francisco, naquela ocasião, disse ele, insistiu que o serviço “nunca é ideológico, porque nasce de uma atenção genuína ao outro: 'Não serve a ideias, mas a pessoas'. Essas palavras ainda são muito relevantes hoje em dia.”
Czerny discursou durante uma missa que celebrou por Cuba na Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Roma, organizada pela Embaixada de Cuba junto à Santa Sé, dias antes de o governo dos Estados Unidos anunciar a acusação de assassinato contra o ex-presidente cubano Raúl Castro.
Na mais recente escalada de tensões entre os EUA e Cuba, os EUA anunciaram na quarta-feira acusações contra Castro por seu suposto envolvimento no abate de dois aviões civis pertencentes à organização de voluntários chamada Irmãos ao Resgate, em 1996.
O incidente, que matou três americanos, levou à criação e aprovação da Lei Helms-Burton, que fortaleceu o embargo de longa data dos EUA contra Cuba e permanece em vigor até hoje.
A intervenção militar dos EUA na Venezuela em janeiro, que resultou na detenção do presidente Nicolás Maduro e seu extradição para os EUA para responder por acusações de tráfico de drogas, teve sérias repercussões para Cuba e sua já frágil infraestrutura energética.
A Venezuela fornecia petróleo para Cuba; no entanto, após intervir na Venezuela, o governo Trump cortou os embarques de petróleo para Cuba e impôs um bloqueio à maioria dos outros carregamentos de petróleo estrangeiros que chegavam à ilha.
Em declarações recentes à organização católica Ajuda à Igreja que Sofre, o bispo Arturo González Amador, presidente da Conferência Episcopal Cubana, afirmou que a situação em Cuba está se tornando mais desesperadora a cada dia.
“Cuba está sofrendo”, disse ele, classificando a situação atual como “o momento mais triste e difícil que conheço na história do meu povo. Tudo é uma luta pela sobrevivência. O presente é inseguro e o futuro é completamente incerto”.
Os índices de pobreza estão disparando, faltam suprimentos médicos básicos e um número crescente de pessoas está passando fome, disse ele, acrescentando que algumas pessoas chegaram a desmaiar durante missas e outras liturgias por não terem o suficiente para comer.
“Em alguns hospitais importantes, as cirurgias foram suspensas por falta de água, quanto mais de equipamentos cirúrgicos”, disse ele, acrescentando que algumas famílias precisam ir para o exterior em busca de tratamentos médicos devido à falta de suprimentos.
González Amador afirmou que existe um ambiente crescente de ansiedade constante e que, “em conversas com as pessoas, percebe-se tristeza, desespero e incerteza”.
Atualmente, disse ele, existe um grande temor em relação a um possível conflito militar com os Estados Unidos.
“O cotidiano das pessoas é marcado por um grande medo. Elas falam disso constantemente, e isso é uma fonte particular de angústia para as crianças e os idosos. Nas ruas, ouvimos pessoas dizerem que não aguentam mais essa dor e que não há ninguém para ajudá-las”, disse ele.
Em meio a essa situação, a igreja está presente, fazendo o que pode para ajudar a aliviar o sofrimento do povo e “manter o espírito vivo e levar esperança onde não há, para ouvir e acompanhar”.
Em sua homilia, Czerny assegurou a proximidade de Deus com o povo em tempos de sofrimento, afirmando que a jornada rumo à paz exige “paciência, discernimento e coragem espiritual”.
Ele invocou a doutrina social da igreja, que, segundo ele, ensina que a paz autêntica está enraizada em pilares morais e espirituais.
Os valores da verdade, da justiça, da liberdade e do amor são “condições indispensáveis” para uma vida humana digna, afirmou, acrescentando que a justiça “exige atenção concreta para com aqueles que mais sofrem”.
“A liberdade recupera espaços reais para a participação, a escuta e a responsabilidade compartilhada. A verdade torna-se um estilo de diálogo sincero, capaz de superar a propaganda, as rigidezes e a desconfiança mútua. O amor abre o caminho para a solidariedade e para a partilha de bens materiais, culturais e espirituais entre os povos”, afirmou.
“Oremos para que a amada terra cubana experimente dias de maior serenidade, de autêntico desenvolvimento humano e social, de harmonia e de esperança. Oremos para que cada decisão política, econômica e internacional seja iluminada pela sabedoria, prudência e uma busca sincera pelo bem-estar do povo”, disse ele.
Fazendo um apelo por maior fraternidade, Czerny encerrou seu discurso pedindo à Virgem da Caridade de El Cobre, uma devoção popular em Cuba, que interceda pela paz na ilha.
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