19 Mai 2026
As novas sanções publicadas pela OFAC (Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros) ocorrem em meio a rumores sobre uma iminente ordem dos EUA contra o ex-presidente cubano Raúl Castro.
A informação é de Andrés Gil publicada por elDiario.es, 18-05-2026.
Praticamente não entrou uma gota de petróleo em Cuba no que vai do ano. A ilha encontra-se submetida a uma asfixia energética que se traduz em uma crise humana denunciada pelas Nações Unidas, entre outros organismos internacionais. Além disso, o presidente dos EUA, Donald Trump, de tempos em tempos ameaça com um ataque à ilha; inclusive circulam rumores de uma iminente ordem de prisão contra o ex-presidente cubano Raúl Castro, disparando as especulações sobre um ataque como o realizado contra a Venezuela no passado dia 3 de janeiro para sequestrar o presidente do país, Nicolás Maduro.
Neste contexto de asfixia, nesta segunda-feira a Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) publicou uma longa lista de sanções contra parte da cúpula do Governo cubano.
De acordo com uma declaração divulgada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, de origem cubana, “a Administração Trump continua tomando medidas decisivas para proteger a segurança nacional dos Estados Unidos e privar o regime comunista e o exército de Cuba do acesso a ativos ilícitos”.
Assim, Rubio designa “11 membros da elite do regime cubano e três organizações governamentais, entre os quais se incluem funcionários do Governo e figuras militares vinculadas ao aparato de segurança de Cuba, muitos dos quais são responsáveis ou participaram na repressão do povo cubano”.
Segundo Rubio, “estas sanções impulsionam a campanha da Administração Trump para fazer frente às prementes ameaças à segurança nacional colocadas pelo regime comunista de Cuba e para exigir responsabilidades tanto ao regime quanto àqueles que lhe prestam apoio material. Os atores alinhados com o regime, como os designados hoje, são responsáveis pelo sofrimento do povo cubano, pelo colapso da economia cubana e pela exploração de Cuba para operações de inteligência estrangeira, militares e terroristas. As designações de hoje restringem ainda mais a capacidade do regime cubano de reprimir a vontade do povo cubano. Deve-se esperar novas medidas de sanção nos próximos dias e semanas”.
Entre os sancionados figuram governantes como a ministra das Comunicações, Mayra Arevich Marín; o de Energia e Minas, Vicente de la O Levy; a ministra da Justiça, Rosabel Gamon Verde; o presidente da Assembleia Nacional de Cuba, Juan Esteban Lazo; o secretário de Organização do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e membro do Buró Político, Roberto Morales Ojeda, entre outros.
Além disso, os EUA sancionam o general de Corpo de Exército e vice-ministro das Forças Armadas Revolucionárias, Joaquín Quintas, e os generais de divisão José Miguel Gómez del Vallín, chefe da Chefia de Contrainteligência Militar do MINFAR; Eugenio Armando Rabilero, chefe do Exército Oriental, e Raúl Villar, chefe do Exército Central e membro do Comitê Central do PCC.
Da mesma forma, os EUA sancionam a Direção de Inteligência de Cuba, fundada em 6 de junho de 1961 e principal serviço de inteligência externa do Estado cubano; o Ministério do Interior de Cuba, “agência do Governo de Cuba responsável pela segurança interna do país, incluindo o controle da polícia, das forças de segurança interna, das agências de inteligência e do sistema penitenciário”; e a Polícia Nacional Revolucionária (PNR), “uma força policial dependente do ministério acusada de operar prisões móveis e de reprimir violentamente os protestos”.
As sanções emanam da Ordem Executiva 14404, assinada por Trump no passado dia 1 de maio de 2026, chamada Imposing Sanctions on Those Responsible for Repression in Cuba and for Threats to United States National Security and Foreign Policy (Imposição de sanções aos responsáveis pela repressão em Cuba e por ameaças à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos).
Essa Ordem Executiva “autoriza sanções de amplo alcance contra Cuba, incluindo as pessoas que apoiam o aparato de segurança del regime cubano e os responsáveis pela repressão em Cuba e pelas ameaças à segurança nacional dos Estados Unidos”, afirma Rubio: “Esta medida também reforça tanto a Ordem Executiva 14380, chamada 'Abordar as ameaças aos Estados Unidos por parte do Governo de Cuba', quanto o Memorando Presidencial de Segurança Nacional 5 (NSPM-5), que ordena ao poder Executivo melhorar os direitos humanos, fomentar o Estado de direito, promover o livre mercado e a livre empresa, e promover a democracia em Cuba”.
Implicação das sanções
Como resultado das medidas relacionadas com as sanções adotadas pelos EUA, todos os bens e interesses patrimoniais das pessoas designadas que se encontrem nos Estados Unidos ou em posse ou sob o controle de cidadãos estadunidenses ficam bloqueados e devem ser comunicados à Oficina de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Departamento do Tesouro. Da mesma forma, todas as entidades cuja propriedade, individual ou conjunta, seja de 50% ou mais de uma ou mais pessoas sancionadas, também ficam bloqueadas.
Além disso, proíbem-se todas as transações e operações realizadas por pessoas estadunidenses ou pessoas que se encontrem dentro (out transitem) pelos Estados Unidos que envolvam bens ou interesses em bens de pessoas designadas ou bloqueadas, a menos que estejam autorizadas por uma licença geral ou específica emitida pela OFAC ou estejam isentas.
Estas proibições incluem a realização de qualquer contribuição ou fornecimento de fundos, bens ou serviços por, para, ou em benefício de qualquer pessoa bloqueada, bem como o recebimento de qualquer contribuição ou fornecimento de fundos, bens ou serviços de tal pessoa.
As pessoas estrangeiras que realizem transações com pessoas designadas conforme a Ordem Executiva 14404, ou que operem nos setores de energia, defesa e materiais relacionados, metais e mineração, serviços financeiros ou segurança da economia cubana, conforme identificado na Ordem Executiva 14404, estão expostas a sanções.
Díaz-Canel alerta para um possível “banho de sangue”
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, sublinhou nesta segunda-feira que seu país tem “o direito absoluto e legítimo de se defender” após informações que apontam que Havana adquiriu 300 drones militares da Rússia e do Irã, informa a Efe.
“Cuba, que já sofre uma agressão multidimensional dos EUA, sim, tem o direito absoluto e legítimo de se defender de uma investida bélica, o que não pode ser esgrimido lógica nem honestamente como desculpa para impor uma guerra contra o nobre povo cubano”, argumentou.
Díaz-Canel reiterou que Cuba “não representa uma ameaça nem tem planos ou intenções agressivas contra nenhum país”. “Não os tem contra os EUA, nem nunca os teve, o que o Governo dessa nação conhece bem, em especial suas agências de defesa e segurança nacional”, acrescentou.
O presidente cubano assinalou que quem está verdadeiramente ameaçando com uma “agressão militar” a outro país é Washington e que isso, em si, constitui já “um crime internacional”.
No entanto, Díaz-Canel advertiu que um ataque militar estadunidense ao seu país teria devastadoras consequências para ambas as partes e para a região: “Caso se materialize, provocará um banho de sangue de consequências incalculáveis, além do impacto destrutivo para a paz e a estabilidade regional”.
Díaz-Canel soma-se assim às vozes do Governo cubano que nas últimas horas reagiram à informação deste domingo do portal estadunidense Axios de que a Administração Trump está se preparando diante de um hipotético ataque com drones a partir da ilha, algo negado por Díaz-Canel.
A CIA em Havana
O diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Ratcliffe, reuniu-se na última quinta-feira em Havana com altos funcionários do Governo de Cuba, em um encontro incomum de alto nível entre ambos os países, segundo confirmou a agência.
De acordo com um comunicado da CIA, Ratcliffe viajou à capital cubana para manter conversas diretas com autoridades do Ministério do Interior e responsáveis pelos serviços de inteligência da ilha.
Durante a reunião foram abordados assuntos relacionados à cooperação em matéria de inteligência, segurança regional e a situação econômica de Cuba, em um contexto de persistentes tensões entre Washington e Havana, segundo a nota.
A visita incluiu reuniões com Raúl Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro e assessor de segurança, bem como com o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas.
A versão estadunidense indica que o diretor da CIA transmitiu a mensagem de que os Estados Unidos estão dispostos a explorar um diálogo mais amplo sobre temas econômicos e de segurança, embora condicionado a “mudanças fundamentais” por parte do Governo cubano.
Por sua vez, o Governo cubano informa em um comunicado que o encontro ocorreu “em um contexto caracterizado pela complexidade das relações bilaterais, a fim de contribuir para o diálogo político entre ambas as nações, como parte dos esforços para enfrentar o cenário atual”.
A nota de Havana explica que a “direção da revolução”, uma denominação que inclui o ex-presidente Raúl Castro e outros líderes que não necessariamente ocupam cargos no governo, “aprovou a realização desta visita”, que apontam ter sido solicitada por representantes da administração estadunidense. As autoridades cubanas indicaram que seus representantes no encontro trouxeram elementos que “permitiram demonstrar categoricamente” que a ilha “não constitui uma ameaça para a segurança nacional dos EUA nem existem razões legítimas para incluí-la na lista de países que, supostamente, patrocinam o terrorismo”.
Mais informações
Díaz-Canel adverte que um ataque dos EUA a Cuba provocaria “um banho de sangue”.
“Mais uma vez ficou evidenciado que a ilha não abriga, não apoia, não financia nem permite organizações terroristas ou extremistas; nem existem bases militares ou de inteligência estrangeira em seu território, e nunca apoiou nenhuma atividade hostil contra os EUA nem permitirá que a partir de Cuba se atue contra outra nação”, sublinha o texto. O comunicado conclui dizendo que no encontro ambas as partes mostraram interesse “em desenvolver a cooperação bilateral entre os órgãos de aplicação e cumprimento da lei, em função da segurança de ambas as nações, regional e internacional”.
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