21 Mai 2026
Deputados, prefeitas, cientistas, indígenas e pescadores se enfrentam em debate sobre impactos do maior empreendimento privado do RS; empresa nega geração de dioxinas.
A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 20-05-2026.
A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul foi palco de um debate quente nesta quarta-feira, 20, sobre os impactos socioambientais e o licenciamento do Projeto Natureza, a nova planta de celulose que a CMPC pretende instalar em Barra do Ribeiro. Com investimentos entre R$ 25 bilhões e R$ 27 bilhões, o projeto é o maior empreendimento privado da história do estado.
O tema reuniu três comissões em audiência pública (Saúde e Meio Ambiente; Economia, Trabalho, Desenvolvimento Sustentável e Turismo, e de Segurança, Serviços Públicos), que lotou a sala Maurício Cardoso e outra sala próxima.
O que se viu ao longo das cerca de três horas do encontro foi um profundo desencontro de versões. De um lado, a empresa apresentou números e garantias técnicas de que sua tecnologia é limpa e segura. De outro, cientistas, ambientalistas, indígenas e pescadores levantaram alertas sobre contaminação do Guaíba, riscos à saúde, falta de consulta prévia e pressão sobre o processo de licenciamento.
Entre um polo e outro, prefeitas da Região Sul do estado defenderam o projeto como tábua de salvação para economias locais empobrecidas, enquanto representantes do setor produtivo criticaram o que chamaram de “grenalização” do debate e de “discurso retrógrado”.
A audiência, que iniciou por volta das 11 horas, foi encerrada às 14h pelo presidente da mesa, deputado Leonel Rade (PT). Foi questão regimental, pois neste horário começaria a sessão diária do parlamento. Tanto Rade quanto o deputado Miguel Rosseto (PT) garantiram, no entanto, que novas audiências públicas serão realizadas para dar continuidade à discussão.
As cifras da CMPC
O diretor de Infraestrutura do Projeto Natureza, Otemar Alencastro dos Santos, abriu a apresentação da CMPC com uma série de cifras. A nova fábrica, segundo o dados da empresa, produzirá 3 milhões de toneladas de celulose por ano, gerará 12 mil empregos no pico da obra e 1.400 diretos na operação, além de outros 3.200 indiretos. Para Barra do Ribeiro, a estimativa é de R$ 611 milhões em impostos em dez anos — um acréscimo de 300% na arrecadação municipal.
“Operamos com 54 plantas na América Latina e recebemos o selo Dow Jones de sustentabilidade em 2023, 2024 e 2025. Somos a primeira empresa, que não pertence à Escandinávia, a receber esse destaque”, afirmou Alencastro, que também rebateu críticas sobre o impacto no Bioma Pampa: “Com as duas fábricas, não iremos ocupar 2% do bioma.”
Sobre a água do Guaíba, garantiu: o efluente lançado representa 0,15% do volume do lago, que se renova 40 vezes ao ano. “Não há impacto para o Guaíba pelos nossos efluentes. O efluente não alcança nenhuma captação de água para consumo humano.”
Mas foi sua afirmação sobre a tecnologia de branqueamento — o processo ECF (livre de cloro elementar) — que se tornaria o centro do maior embate técnico do dia.
O nó da dioxina: ciência contra ciência
A afirmação da empresa foi imediatamente contestada pela engenheira química Alda Maria de Oliveira Correia, ex-técnica da Fundação de Proteção ao Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), com mais de 30 anos de experiência.
Ela apontou que a própria documentação do projeto reporta emissão de 3 mg/l de compostos halogenados — organoclorados persistentes, incluindo dioxinas e furanos —, o que representa uma carga de 720 kg por dia “só desses poluentes”.
“ECF não é totalmente livre de cloro. Onde tem cloro, forma-se dioxina. Isso tem em toda a bibliografia”, afirmou Alda, em um dos momentos de maior tensão da audiência.
Ela alertou ainda para a ausência de análise dos sedimentos do Guaíba. “Nós estamos cegos sobre essa rota. Esses compostos se acumulam no fundo do lago e sobem pela cadeia trófica até os peixes e os humanos, causando carcinogenicidade e desregulação endócrina”, disse.
O consultor sênior de meio ambiente da CMPC, Clóvis Zimmer, rebateu ponto por ponto. Citou a Convenção de Estocolmo, tratado internacional que regula poluentes orgânicos persistentes.
“O não uso de cloro elementar eliminou a geração de dioxinas e furanos. Isso é a prova científica, que não fui eu que gerei. É um documento internacional disponível na internet”, sublinhou.
Ao ser questionado diretamente por Alda sobre a existência de análises de sedimento, Zimmer respondeu: “Tu partes de uma premissa de que nós vamos lançar dioxinas e furanos baseado numa tecnologia que não gera. Aí é a tua ideia contra a minha ideia. A minha leitura técnica é essa.” E concluiu: a discussão sobre dioxinas é “um fantasma que está querendo se criar em função de um assunto que não é real”.
O desencontro entre os dois técnicos — ambos com décadas de experiência na área — resumiu a atmosfera do evento: de um lado, a empresa se ancorando em protocolos internacionais; de outro, a desconfiança de especialistas que apontam lacunas nos estudos e pedem aprofundamento antes de qualquer licenciamento.
Guaíba: patrimônio ameaçado?
O professor Rualdo Menegat, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), trouxe uma perspectiva geológica e hidrodinâmica ao debate.
Alertou que o Guaíba não é um rio em calha, mas um lago raso com circulações complexas de ventos e correntes.
“O setor sul do lago, onde serão lançados os efluentes, é onde temos o último estoque ecológico da região metropolitana. A água do Guaíba é o nosso destino. O que acontecer com ela, acontecerá conosco. A água do Guaíba é inegociável.”
O professor Paulo Brack, também da Ufrgs, corrigiu a terminologia usada pela empresa. Para ele, não se pode chamar de floresta um plantio de eucalipto. Brack questionou o consumo de água da nova planta — 288 milhões de litros por dia, “muito mais que toda a população de Porto Alegre consome” — e alertou que os efluentes diários superam todo o esgoto gerado pela capital.
“Dioxinas e furanos são poluentes persistentes. Não existe forma de autodepuração para organoclorados”, pontuou.
Brack também criticou o fato de o estado apoiar o empreendimento antes da licença prévia. “Isso é um precedente muito grave. Nós não podemos apoiar um empreendimento que não tem licença”, observou.
A pediatra Suzane, representante do movimento Medicina em Alerta, trouxe um olhar geracional.
“Eu queria poder tomar banho no Guaíba, como eu tomava quando eu era criança. A gente precisa esclarecer muitas coisas sobre esse projeto antes de ele ser licenciado. A gente precisa ver se pode mudar coisas para que a gente possa mitigar.”
Pescadores e indígenas: “Não fomos consultados”
Airton Corrêa, representante dos pescadores da Lagoa dos Patos e do Guaíba, afirmou que a empresa jamais seguiu o protocolo de consulta prévia, livre e informada às comunidades tradicionais pesqueiras.
“Ela (a empresa) pode ter feito algumas consultas com minoria de alguns pescadores da região onde vai se instalar, mas não para as comunidades”, afirmou.
Ele discordou da afirmação da empresa de que o efluente não afetará captações de água e alertou para os impactos da dragagem. Como pescador, deu seu testemunho: “Eu largava as minhas redes onde antes não encostava no fundo, hoje encosta no fundo. Minha rede tem três metros. Hoje minha rede fica boiando.” Airton disse não ser contra o empreendimento, “mas que seja alguma coisa sustentável”.
A questão indígena foi outro ponto de forte tensão. Arnildo Werá, coordenador da Comissão Guarani para o Sul e Sudeste do Brasil, afirmou que a empresa não respeitou a Convenção 169 da OIT.
“A empresa simplesmente foi numa aldeia, já com um pacote cheio de grana, oferecendo, aproveitando-se da vulnerabilidade das comunidades.”
Arnildo disse que os Guarani não são contra o desenvolvimento, “mas sim de uma forma sustentável”. E criticou o nome do projeto: “Projeto Natureza plantando eucalipto. Isso não é projeto, isso não é árvore, isso não dá sustentabilidade para a vida. Isso é um estrago.”
Roberto Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), detalhou o protocolo de consulta dos Guaranis — construído com a participação de lideranças, como o cacique Santiago — que exige a consulta a todos os caciques da região antes de qualquer tratativa com comunidades diretamente impactadas.
“A empresa saltou essa primeira etapa. Cinquenta lideranças indígenas foram à Procuradoria pedir que o protocolo fosse respeitado”, destacou Roberto. Ele também questionou a empresa sobre gastos com publicidade: “Quanto vocês estão gastando em publicidade para vender ilusão?”
Alencastro respondeu que a empresa segue rigorosamente as diretrizes da Funai e que os encontros com as comunidades ocorrem sob supervisão do órgão. “Nós só vamos nos dirigir às comunidades indígenas com supervisão da Funai e com acompanhamento da Funai.”
Prefeitas: desenvolvimento ou morte
Três prefeitas da região sul subiram à tribuna para defender o projeto. Darlene Pereira (PT), prefeita de Rio Grande, destacou a parceria de longa data da cidade com a CMPC, especialmente na área de educação ambiental.
“A experiência de Rio Grande com a CMPC tem se mostrado sim uma empresa com responsabilidade socioambiental, com diálogo com a comunidade.”
Sobre o terminal portuário previsto, avaliou que “para nós o risco é bem menor”, por se tratar de uma área já impactada.
A vice-prefeita de Barra do Ribeiro, Kátia Olizsewski Feijó (PP), disse se sentir preterida. “Em nenhum momento eu ouvi citar Barra do Ribeiro. Rebateu críticas de que a audiência pública do município ocorreu em fevereiro, período de férias. “A gente quando prioriza assuntos não tira férias, trabalha”. Kátia pediu: “encarecidamente: o diálogo é fortalecedor e importante. Agora, não me entrave licença atrelado a egos.”
Claudia Jardim (PL), prefeita de Guaíba — onde a CMPC já opera —, disse que a empresa demonstrou capacidade de aprimoramento ambiental ao longo dos anos.
“Isso mostra que todas as considerações quando trazidas com argumentação também são levadas em consideração pela equipe técnica.” Ela alertou, no entanto, para o impacto da reforma tributária: Guaíba perderá o ICMS da empresa, hoje o maior fornecedor de impostos do município. “Vai cair o nosso ICMS.”
Os vereadores de Rio Grande também se manifestaram em bloco em defesa do investimento. Juquinha (PSB) criticou quem fala da região metropolitana: “É muito fácil criticar de uma região totalmente desenvolvida. O extremo sul é uma região totalmente empobrecida. Se não fosse o único porto marítimo do estado, nós seríamos uma região totalmente miserável.”
O embate político: pressão, grenalização e “fast track“
A audiência também expôs as linhas políticas que dividem o parlamento gaúcho sobre o tema. Felipe Camozato (Novo) afirmou que o projeto deve cumprir “nada aquém da lei e nada além da lei”.
Já Matheus Gomes (PSol) — única bancada a não assinar o documento de apoio ao empreendimento — criticou a “pressão política” sobre o licenciamento. Citou uma propaganda do governo estadual em que o chefe da empresa aparece falando. “O governo está licenciando, trabalhando em prol do interesse público, e ao mesmo tempo colocando o representante da empresa para falar na propaganda. Eu não acho que a Fepam está livre de pressão. Pelo contrário, os técnicos da Fepam estão totalmente pressionados.”
Sophia Cavedon (PT) rebateu as acusações de “grenalização”. “Quem acha que isso aqui é uma grenalização só porque os ambientalistas advertem sobre problemas graves. Ou a gente responde à emergência climática ou a vida na Terra acaba”. Ela alertou que a captação de água do Dmae em Belém Novo fica a apenas seis quilômetros do ponto de lançamento dos efluentes, afetando 1,4 milhão de pessoas.
Diogo Bier, da Fiergs, pediu desculpas à CMPC em nome dos gaúchos e defendeu um “fast track” para o licenciamento. “Se nós tivéssemos na Assembleia da Bahia, com uma legislação muito mais rápida, os deputados de direita e esquerda estariam se unindo”. Classificou como “discurso retrógrado, estúpido” aquele que divide e impede o desenvolvimento. E comparou: o projeto trata 100% dos efluentes, “a prefeitura de Porto Alegre só trata 50% — eu não vejo ninguém falando nisso”.
O secretário adjunto da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Roger Pozzi, fez uma defesa enfática da Fepam. “A Fepam toda vez que emite um parecer favorável ao que os ambientalistas pensam, eles aplaudem. Se não é, a Fepam está sendo incompetente. A Fepam é um órgão respeitado no Brasil inteiro.” E completou: “Ninguém aqui está querendo trabalhar pelo desenvolvimento a qualquer custo. Isso vocês podem ter certeza.”
A audiência terminou sem respostas definitivas — e com a promessa de novas rodadas de debate.
A fala da jovem Sophia Maia Holz, de 18 anos, do movimento Ser-Ação, talvez tenha resumido o que está em jogo: “Quando a gente fala de emergência climática, a gente está falando de quem vai viver e quem vai morrer. É isso que a gente está decidindo no licenciamento de um empreendimento dessa amplitude.”
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