Vizinhos da CMPC em Guaíba vivem momento de pânico e apreensão

Foto: Images cedidas pelos moradores | Extra Classe

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15 Mai 2026

Comunidade relata ruído ensurdecedor, odor forte e medo de explosão. Episódio acrescenta mais um capítulo à polêmica da nova planta prevista para Barra do Ribeiro, tema de audiência na ALRS, em 20 de maio.

A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extra Classe, 14-05-2026.

O barulho intenso, semelhante ao de um avião supersônico, e um “chuvisqueiro” sobre as casas marcaram o início da tarde do dia 5 de maio no Bairro Alegria, em Guaíba. Moradores da área vizinha à planta industrial da CMPC Celulose Riograndense Ltda, na região metropolitana de Porto Alegre, foram surpreendidos e assustados por um processo de despressurização da caldeira de recuperação da fábrica de celulose.

Enquanto a empresa afirma que se tratou de uma “medida preventiva, sem riscos”, relatos colhidos pelo Extra Classe apontam pânico, mal-estar físico e desconfiança. A Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam) informou que foi comunicada pela própria CMPC, que foi acionada por moradores e que autuará a companhia por descumprimento de regra de ruído. Há contradições: a empresa nega caráter emergencial, enquanto a Fepam e o próprio conteúdo de seu comunicado à vizinhança indicam o contrário.

A vizinhança da CMPC descreve uma cena de apreensão generalizada que se iniciou por volta das 13h40 e perdurou por quase uma hora. A reportagem teve acesso a mensagens trocadas no grupo de WhatsApp da comunidade. São trocas de experiências que dão dimensão ao ocorrido: “Que susto, tô sem ar até agora”; “Dói os ouvidos, estou em frente”; “Pensei que fosse um avião caindo”.

Uma moradora registrou o medo dos animais domésticos. Foi a foto de seu gato escondido debaixo da cama e apreensivo. “Cheiro muito forte de gás”, acrescentou outra. O mal-estar não foi apenas emocional: há relatos de pessoas com dor de ouvido, dor de cabeça e sensação de sufocamento.

A causa do pânico foi uma despressurização da caldeira de recuperação da fábrica da CMPC. Em nota enviada à comunidade ainda durante o evento, a empresa afirmou que a atividade foi realizada “por medidas preventivas”, que não oferecia riscos e que a normalização ocorreria em cerca de 20 minutos. Moradores, no entanto, registram que o barulho e a emissão de vapor se estenderam.

Versões divergentes

Há divergências entre as informações prestadas pela CMPC, os relatos recebidos pela Fepam e a comunicação encaminhada à comunidade sobre o procedimento realizado na unidade.

Em resposta ao Extra Classe, a empresa afirmou que a operação “não foi emergencial” e que, “no mesmo dia, identificou-se a necessidade de realizar o ajuste”. Já a Fepam informou, em nota oficial, que foi comunicada pela empresa sobre a “identificação de comportamento atípico” na caldeira e que o procedimento realizado consistiu em uma “drenagem da caldeira 2”.

Moradores que acionaram o canal de emergência ambiental da Fepam durante o episódio relataram ainda ter recebido a informação de que a empresa teria realizado o procedimento “de forma emergencial”, diante de uma “suspeita de vazamento da caldeira”.

Além disso, um comunicado encaminhado pela própria CMPC e que circulou entre a população da região, mencionava a necessidade de acionar um “protocolo de drenagem rápida” em razão de um “comportamento atípico na Caldeira de Recuperação”.

As diferentes descrições utilizadas — “ajuste”, “drenagem da caldeira”, “procedimento emergencial” e “drenagem rápida” — indicam versões distintas sobre o caráter e a natureza da operação realizada no dia do episódio.

“Estamos abandonados”, dizem moradores

Nádia Dallagnol mora no Bairro Alegria desde 1994 e sua família possui terras na localidade desde 1964. Ela descreve um sentimento generalizado de abandono e desgaste. “Essa caldeira é nova. Já é a terceira vez que dá problema. A caldeira velha nunca deu”, afirma.

Nádia conta que há um “buchicho” (rumor) entre a comunidade de que o procedimento teria sido motivado pela identificação de uma rachadura na estrutura da caldeira.

A informação é reproduzida também pelo engenheiro ambiental Eduardo Raguse. “Rapidamente circulou um áudio de um funcionário dizendo para a mãe que identificaram uma rachadura numa parte da estrutura e, para evitar rompimento, resolveram acionar a despressurização de emergência’”, relata ele, que integra a organização Amigas da Terra Brasil..

A CMPC não respondeu diretamente ao Extra Classe sobre a existência ou não da rachadura. Limitou-se a repetir que o procedimento foi preventivo e sem riscos.

A Fepam informou que sua equipe técnica acompanhou a situação e que “não houve registro de risco à saúde da população ou de dano ambiental decorrente do evento”. No entanto, o órgão registrou que a CMPC será autuada pelo descumprimento de condicionante da Licença de Operação relacionada aos níveis de ruído previstos na legislação ambiental vigente. A comunicação imediata do ocorrido à Fepam pela empresa será considerada como atenuante no processo administrativo, concluiu o órgão.

Já comunidade do Bairro Alegria, por sua vez, segue apreensiva. “Um dia irá explodir e vamos todos morrer”, disse uma moradora no grupo de WhatsApp, ecoando um medo que, para muitos, já é rotina.

Histórico de acidentes da CMPC em Guaíba

O episódio do dia 5 em Guaíba reacende o alerta de moradores e especialistas sobre a segurança da operação de uma fábrica de celulose — que acumula um histórico de acidentes graves, vazamentos e mortes de trabalhadores. Ressalta ainda críticas ao processo de licenciamento para uma nova planta da empresa, agora projetada para Barra do Ribeiro, com potencial de ampliar significativamente os impactos ambientais e sociais na região à beira do Guaíba.

Desde a ampliação da capacidade produtiva da CMPC em Guaíba, em 2015, a unidade acumula um histórico preocupante:

Maio de 2015: cinco trabalhadores hospitalizados após vazamento de dióxido de cloro; fábrica fechada pela Fepam.

Maio de 2016: dez funcionários atendidos após novo vazamento do mesmo gás.

Fevereiro de 2017: acidente grave na caldeira nova, inaugurada há menos de dois anos, paralisando a fábrica até novembro. Seguradora Mapfre pagou R$ 1,1 bilhão em indenização após disputa judicial.

Fevereiro de 2019: um trabalhador morreu após ser prensado por equipamento.

Setembro de 2022: incêndio na caldeira da fábrica antiga.

Fevereiro de 2025: grave vazamento de cloro que ultrapassou os limites do pátio, causando pânico entre moradores, com relatos de sufocamento, ardência nos olhos, náusea e desmaios. Parte da fábrica foi evacuada e a operação paralisada.

Abril de 2025: despressurização emergencial noturna – a empresa inicialmente disse ser rotina, mas admitiu aos moradores tratar-se de ação emergencial.

Junho de 2025: morte de um trabalhador terceirizado, sem detalhes públicos.

Para o engenheiro ambiental Eduardo Raguse, “estes episódios recorrentes acendem um alerta quanto à qualidade e aos níveis de controle da operação e de segurança do trabalho desta indústria de alto risco, que está instalada há poucos metros de centenas de residências”. Ele aponta ainda a ausência de um plano de emergência para a população: “Os moradores literalmente não sabem para onde correr”.

Sobre a CMPC

A fábrica de celulose de Guaíba iniciou suas atividades em 1972. Desde 2009, quando foi adquirida do grupo Aracruz, ela faz parte do grupo chileno CMPCCompañía Manufacturera de Papeles y Cartones – e é uma das maiores unidades de celulose e papel da América Latina. Já passou por diversos donos e nomes, incluindo Borregaard, Riocell, Klabin, Aracruz e Fibria.

Audiência pública na ALRS

A CMPC está envolvida em outra polêmica: a implantação de um novo megaprojeto de celulose, o Projeto Natureza, em Barra do Ribeiro. A nova fábrica duplicará as operações na região. Diante deste cenário, foi convocada uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul (ALRS), no dia 20 de maio (quarta-feira), às 10h30, para discutir os impactos socioambientais e o licenciamento do megaprojeto.

O encontro acontecerá na Sala Maurício Cardoso (4º andar) da ALRS (na Praça Marechal Deodoro, 101, em Porto Alegre). A reunião foi convocada por deputados em conjunto com o Comitê Técnico de Análise e Questionamento do Eia-Rima. Os painelistas abordarão o processo de licenciamento e os potenciais riscos ecológicos e hídricos para o sistema do Guaíba. Os investimentos estimados em cerca de 27 bilhões. O evento terá transmissão ao vivo e poderá ser acompanhado remotamente. Confirmação de presença e informações pelo e-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ou pelo telefone (51) 3210-2647.

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