14 Mai 2026
Apesar de chegar embalada em marketing verde, a nova planta da CMPC prevista para a Barra do Ribeiro, com capacidade de 3 milhões de toneladas/ano, afetará 7 mil pescadores, indígenas e população em geral.
A reportagem é de Marcelo Menna Barreto, publicada por Extraclasse, 12-05-2026.
Há uma sensação incômoda no ar. Não aquela das enchentes que viraram o Rio Grande do Sul – e Porto Alegre – do avesso em 2024. É outra, mais silenciosa, gestada em planilhas corporativas e propagandas de tom verde: a ampliação das operações da CMPC no estado.
Fundada em 1920, a multinacional chilena já produz em Guaíba desde 2009. Agora quer mais. Uma nova planta é planejada para Barra do Ribeiro, com capacidade de 3 milhões de toneladas por ano. Ao todo, o investimento total previsto está entre R$ 25 bilhões e 27 bilhões, o maior da iniciativa privada na história do Rio Grande do Sul.
Só que não serão só 5 milhões de toneladas/ano de derivados de celulose previstos, a maior parte destinada à exportação. A alegada produção de riqueza carregará um passivo ambiental que não só preocupa, mas também assusta.
O assunto foi pauta em Audiência Pública Popular na Câmara Municipal da capital gaúcha em 7 de abril deste ano. A iniciativa foi do vereador Alexandre Bublitz (PT) e do suplente de vereador Paulo Brack (PSol), a pedido de ambientalistas, representantes comunitários e indígenas. As lideranças registram riscos à água, à saúde, aos territórios e denunciam que um debate público ampliado já chega com atraso.
“É oportunismo puro”, disparou Heverton Lacerda, da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), lembrando que a empresa já trocou de nome outras vezes para soar mais local. “Só tiraram ‘Rio-Grandense’ quando houve crítica ao oportunismo.”
O que está em jogo, porém, é muito maior. É a água que abastece Porto Alegre. É o modo de vida de mais de sete mil pescadores. É a saúde de gerações. É a permanência de territórios indígenas em um estado que já barrou megaprojetos, como a Mina Guaíba.
O tema provocou ampliação do debate na Assembleia Legislativa do RS, em audiência pública convocada para o dia 20 de maio pelas comissões de Saúde, Serviços Públicos e Economia.
A pesca – lembra Alana Carreño, do coletivo Ser Ação – não é apenas economia. É modo de vida transmitido por gerações. E tudo está ameaçado pela contaminação. "Quem vai querer comer esse peixe?" (Foto: Igor Sperotto)
Água não se negocia
O geólogo, professor e pesquisador Rualdo Menegat é direto: “O Guaíba é a nossa ontologia. É a nossa origem. Se o Guaíba acabar, nós não existimos aqui”.
Os números que ele trouxe são impressionantes. A planta consumirá 276 mil m³ de água por dia. Em dez anos, um Guaíba inteiro. Para abastecê-la, uma frota diária de 23 rodotrens e 155 carretas com produtos químicos altamente tóxicos. “Mil quilômetros de caminhões por ano, daqui a São Paulo”, calculou.
E tudo isso para jogar efluentes – incluindo dioxinas e furanos – no mesmo Guaíba que abastece a capital. “É a única fonte de água de Porto Alegre. Inegociável.” O problema – acrescentou – é que o Guaíba não é um rio de fluxo simples, mas um lago complexo, com ventos que invertem correntes e oito metros de lama no fundo. “Os modelos do EIA-Rima (estudos exigidos no licenciamento ambiental de obras ou atividades com potencial de grande impacto) não preveem essa complexidade.”
A nova planta consumirá 275 mil m³ de água por dia. Em dez anos, um Guaíba inteiro. Para abastecê-la, uma frota diária de 23 rodotrens e 155 carretas com produtos químicos altamente tóxicos. "Mil quilômetros de caminhões por ano, daqui a São Paulo, conforme estimativas do professor e pesquisador Rualdo Menegat. (Foto: Fabiano Panizzi/CMPC)
Empregos que vêm e vão
Alana Carreño, do coletivo Ser Ação, pesquisou os números da empresa e encontrou contradições. Segundo novas informações, seriam 700 empregos diretos e 700 indiretos na operação – 1.400 no total. Nada dos 2.300 que apareciam antes. E muito distante dos 12 mil temporários nas obras, com duração de três meses.
“Empregos para profissionais altamente especializados, não para a população geral”, afirmou. E comparou: “1.400 empregos contra mais de 7.300 pescadores artesanais da bacia do Guaíba”. Essa preocupação grita, pois os dejetos jogados na água podem riscar do mapa a atividade mais do que centenária.
A pesca – lembrou ela – não é apenas economia. É modo de vida transmitido por gerações. E tudo está ameaçado pela contaminação. “Quem vai querer comer esse peixe?”
A engenheira química Alda Correa aprofundou: fábricas de celulose estão entre as principais fontes de dioxinas em águas superficiais – substâncias tão tóxicas que a Convenção de Estocolmo determina sua eliminação. O projeto prevê 720 kg por dia de AOX, compostos organoclorados persistentes. “Eles se acumulam nos sedimentos e na gordura dos peixes. Causam desregulação endócrina, malformações, câncer.”
Existem tecnologias livres de cloro, porém não são adotadas por questões de custo. “É inadmissível receber aqui duas fábricas gerando os compostos mais tóxicos do mundo.”
A saúde ausente dos estudos e a consulta que já não é prévia
Arnildo Werá, liderança guarani: "O eucalipto não sustenta água, retira. Não tenho estudo, mas meu avô me contou. Isso não é para nós, é para as crianças que estão vindo. Trocar a vida por um emprego?", questiona. (Foto: Marcelo M. Barreto)
Roselaine Murlik, médica do coletivo Medicina em Alerta, denunciou: o EIA-Rima descreve o sistema de saúde local, mas não analisa como ele será afetado. Ela listou os riscos: material particulado que penetra nos pulmões, inflamação crônica, asma, câncer. Gás sulfídrico que causa náuseas e efeitos neurológicos. Metais pesados neurotóxicos.
E as dioxinas: “A meia-vida no corpo humano é de 7 a 11 anos. Efeitos que atravessam gerações”. As medidas propostas – hospitais de campanha, unidades móveis – são “completamente insuficientes” para tratar câncer e doenças crônicas. O coletivo defende uma Avaliação de Impacto à Saúde (AIS). “O EIA-Rima foca no que sai da chaminé. A AIS foca em quem respira a fumaça.”
Da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap), Alice Resadori foi direta: a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) garante a povos tradicionais o direito à consulta prévia, livre e informada. No caso da CMPC, nenhuma das três condições está sendo respeitada.
“‘Prévia significa antes de qualquer ato do licenciamento. O processo já está andando. ‘Livre’ significa sem pressão – e há relatos de oferta de benefícios financeiros aos guarani. E ‘informada’ significa informações completas e adequadas culturalmente. Portanto, o EIA-Rima está incompleto.”
O Ministério Público Federal (MPF) já recomendou a paralisação do licenciamento. “Se as comunidades disserem não, isso deve ser respeitado como vinculante.”
Roberto Liebgott, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), foi mais enfático, ao descrever o que chamou de compra do estado, governos, e a mídia por parte da CMPC.
“Financiam futebol, fazem propaganda. E, agora, tentaram comprar os indígenas.”
A empresa já tem 280 mil hectares de eucalipto plantados desde 2023. “O projeto já começou. Nós é que estávamos dormindo.”
Arnildo Werá, liderança guarani, faz uma pergunta que ecoou: “A partir de agora, o que que a gente vai fazer? Parece que a gente tá sonhando acordado”, disse. “Achávamos que eram só os indígenas contra, enquanto Porto Alegre não se movimentava.”
Ele trouxe um saber tradicional: “O eucalipto não sustenta a água, retira. Não tenho estudo, mas meu avô me contou”. E concluiu: “Isso não é para nós, é para as crianças que estão vindo. Trocar a vida por um emprego?”, indagou Werá.
Lacunas técnicas
O biólogo Paulo Brack alerta que captação de água prevista em 288 milhões de litros por dia superam o consumo da capital gaúcha. Além disso, destaca que o emissário de efluentes está a apenas 4 km da margem, próximo à captação do DMAE/POA. "Ventos sul podem inverter o fluxo do Guaíba. Os modelos da empresa não contemplam isso." (Foto: Google Earth)
A bióloga Catia Machado, mestre em Ecologia pela Ufrgs, criticou as respostas da Fundação Estadual de Proteção ao Meio Ambiente (Fepam) até agora. A empresa baseia suas conclusões em modelos matemáticos que ignoram sinergias entre contaminantes. “Por que não foram feitos testes com organismos vivos?” Também questionou o argumento de que o Guaíba já é poluído: “Não se usa degradação existente para justificar seu agravamento”.
Lisiane Becker, da ONG Mira-Serra, alertou para o risco de retirada parcial de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) – a primeira do estado a perder seu status para viabilizar a fábrica. “A área deixou de ser considerada tanto para conservação quanto para terra indígena.” E apontou que o índice de impacto calculado ultrapassa o limite legal.
O biólogo Paulo Brack, professor da Ufrgs, pesquisador e ativista ambiental com ênfase no bioma Pampa e Botânica, registrou que a captação de água prevista em 288 milhões de litros por dia supera o consumo da capital gaúcha, por exemplo.
Além disso, relatou que o emissário de efluentes está a apenas 4 km da margem, próximo à captação do Departamento Municipal de Água e Esgoto de Porto Alegre (DMAE). “Ventos sul podem inverter o fluxo do Guaíba. Os modelos da empresa não contemplam isso.”
O que fazer?
A pergunta de Arnildo Werá repercutiu. Heverton Lacerda, presidente da Agapan, propôs um comitê de combate, como na luta exitosa contra a instalação da Mina Guaíba. Alice Resadori lembrou que o MPF já deu recomendações. Caso não sejam cumpridas, resta ação civil pública. “Na Mina Guaíba, a Justiça barrou o projeto.”
Roberto Liebgott foi direto: “Talvez a gente precise recorrer à Justiça. A maior mina de carvão da América Latina foi paralisada por uma ação civil pública”.
No entanto, todos concordaram em um ponto: o problema é político e social.
“Precisamos nos movimentar”, propôs Werá. “Não adianta só os indígenas lutarem enquanto os brancos assistem.”
A reportagem do Extra Classe enviou questionamentos à CMPC, à Fepam e à Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (Sema).
A empresa chilena solicitou um prazo maior para responder às 16 perguntas da redação. Já a Fepam e a Sema se manifestaram por nota conjunta: “A Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) e a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) informam que vêm conduzindo, com cautela e responsabilidade técnica, a análise do processo de licenciamento ambiental do empreendimento da CMPC”.
Comunidade Mbya guarani de Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre. (Foto: Cimi-Sul/Divulgação
Perguntas sem respostas e nota evasiva
Conforme a Sema e a Fepam – “no âmbito dessa avaliação” –, os órgãos estaduais têm mantido diálogo permanente com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), assim como com outros órgãos intervenientes no processo, “respeitando as atribuições e competências de cada instituição no âmbito do processo licenciatório, de forma a assegurar uma análise integrada e em conformidade com a legislação vigente”.
Em relação à recomendação do Ministério Público Federal (MPF), a Sema e a Fepam se esconderam atrás do fato de que o prazo para manifestação do estado se estenderia até o dia 20 abril – após o prazo vencido, os órgãos pediram postergação de mais 15 dias – , e que a resposta estaria sendo construída com base em critérios técnicos e jurídicos.
“O Governo do Estado reconhece a relevância do empreendimento para o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, reforça que os órgãos ambientais atuam para assegurar que o projeto atenda plenamente às exigências legais e apresente viabilidade ambiental, garantindo segurança jurídica e respeito às normas ambientais aplicáveis”, conclui o documento.
Contudo, questionamentos como: por que o processo de licenciamento avançou sem a realização comprovada de consulta prévia, livre e informada às comunidades indígenas; e como a Fepam pretende acatar a recomendação do Ministério Público Federal de suspender o licenciamento até o cumprimento da Convenção 169 da OIT e outras também permanecem sem respostas objetivas.
Até o fechamento desta matéria, a CMPC ainda não havia respondido, por exemplo, à reportagem sobre as críticas que a empresa vem sofrendo de que o volume de captação de água do Guaíba comprometeria a segurança hídrica da região metropolitana de Porto Alegre.
Também não apresentou quais garantias técnicas existem de que o lançamento de efluentes não afetará a qualidade da água, especialmente em áreas classificadas como Classe 1.
Outras tantas indagações de interesse da sociedade também permanecem sem resposta. Por que não foram adotadas tecnologias de branqueamento livres de cloro, já disponíveis, e que reduziriam a formação de dioxinas e outros compostos organoclorados?
A empresa pode detalhar a carga total de poluentes (como AOX e dioxinas) prevista, considerando não apenas a concentração, mas o volume total diário lançado? Quais medidas serão adotadas para evitar bioacumulação de contaminantes na cadeia alimentar, especialmente em peixes consumidos pela população?
Como a empresa responde às críticas de que o EIA-Rima não contempla adequadamente a dinâmica complexa das águas e sedimentos do Guaíba?
Essas e outas perguntas ainda aguardam por respostas.
Pescadores artesanais da Colônia Z-5 em Belém Novo alertam que os rejeitos da nova fábrica de CMPC serão despejados em uma das principais áreas de reprodução de peixes da região. (Foto: Igor Sperotto)
Risco real
A questão que envolve o AOX, sigla técnica para ‘halogênios orgânicos adsorvíveis (em inglês)’ possui bastante relevância, pois trata-se de um parâmetro da soma de compostos orgânicos contendo halogênios (cloro, bromo ou iodo) que podem ser adsorvidos. No que refere à toxidade, esses compostos são subprodutos indesejados de processos industriais, como o branqueamento de papel, tratamento de água com cloro, e fabricação de defensivos agrícolas. Eles são considerados extremamente agressivos, com grande potencial cancerígeno e mutagênico ao ambiente e à saúde humana.
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