19 Mai 2026
UHE secou igapós, destruiu áreas de reprodução de peixes e paralisou atividades de ribeirinhos e indígenas que dependem do rio para sobreviver.
A informação é publicada por ClimaInfo, 18-05-2026.
Belo Monte, operada pela Norte Energia, completou 10 anos de operação no início deste mês. Desde 2011, ainda durante a construção da usina, um processo com um conjunto consistente de evidências sobre violações de Direitos Humanos associadas à instalação da planta tramita na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ainda sem data de julgamento. Isso motivou a Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente (AIDA), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e outras organizações da sociedade civil a lançarem uma carta cobrando Justiça para as vítimas da usina.
Belo Monte transformou drasticamente a região da Volta Grande do Xingu, no Pará. Em um trecho de mais de 100 quilômetros na Amazônia, o desvio da água para o canal que alimenta as turbinas da usina reduziu em 80% o fluxo natural do Xingu. Essa alteração secou igapós, destruiu áreas de reprodução de peixes e paralisou as atividades de comunidades ribeirinhas e indígenas que dependem do Xingu para sobreviver, destacam Sônia Bridi e Paulo Zero no Fantástico.
Um monitoramento independente conduzido por cientistas, ribeirinhos e indígenas documentou as profundas transformações ambientais na região. Em anos anteriores, o nível do Xingu subia o suficiente para inundar as florestas de igapó, que serviam como área de alimentação e engorda para os peixes antes do período de seca. Com a retenção da água pela barragem, o ciclo praticamente desapareceu.
A falta de cheias regulares fez com que os frutos das árvores passassem a cair no solo seco, provocando uma multiplicação desenfreada de formigas cortadeiras, que antes tinham as colônias controladas pelas inundações anuais. Além disso, das sete piracemas (zonas de reprodução de peixes) acompanhadas de perto pelos pesquisadores na Volta Grande, seis não registraram desovas porque a água não subiu. Na única vez em que houve reprodução, a vazão artificial recuou rápido demais, deixando milhares de ovas secando ao sol por três anos seguidos.
O isolamento hídrico também comprometeu o abastecimento básico de água. O ribeirinho Paulo Sérgio relata que os poços em sua propriedade secaram após a construção da usina. Ele precisou mudar sua residência para a margem do rio, mas a qualidade da água inviabiliza o consumo diário.
O debate atual gira em torno do hidrograma de Belo Monte – o plano que define o volume de água que pode ser retirado do leito original do rio. A licença de operação da usina está vencida, e o IBAMA cobrou um novo cronograma de vazão da Norte Energia. Segundo o órgão ambiental, os prazos para a entrega da proposta venceram entre janeiro e abril sem que a concessionária apresentasse o documento. O IBAMA avalia a renovação da licença e estuda exigir novas medidas de mitigação.
Especialistas contestam o atual modelo de operação da hidrelétrica. “Você pode interferir num rio da Amazônia com essa ousadia de desviar o seu curso, mas você vai garantir um mínimo de água suficiente para que a vida permaneça nesse rio. Essa é a condição de Belo Monte. Belo Monte ainda não fez prova da sua própria viabilidade”, afirma a procuradora da República Thaís Santi.
Já para o geógrafo Wagner Ribeiro, professor da USP, Belo Monte deveria parar de operar e ser desmobilizada, com o reaproveitamento de materiais da planta. Mesmo reconhecendo que é uma proposta radical, ele acredita que é a única forma de devolver a água à Volta Grande do Xingu – e a vida a ribeirinhos e indígenas que dependem do rio, bem como a fauna e a flora amazônicas.
“Belo Monte foi um erro, um erro grave, e isso tem que ser reconhecido. Ela não tem capacidade operacional na sua plenitude o ano todo. No fim, você tem uma usina que não é a melhor alternativa de aproveitamento hidrelétrico na área, com implicações sociais e ambientais bastante ruins”, reforça no Brasil de Fato.
Belo Monte é a maior hidrelétrica 100% nacional, mas gera, em média, pouco mais de um terço de sua capacidade instalada [11.200 megawatts], devido às oscilações sazonais do rio Xingu. Em períodos de seca severa, a usina operou apenas uma de suas 18 turbinas – e mesmo assim, com potência menor do que a capacidade do equipamento.
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