Sínodo: os testemunhos de dois católicos gays em um dos relatórios finais irritam os conservadores

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14 Mai 2026

Foram publicadas as conclusões de um dos 14 grupos de estudo formados por Francisco para retirar temas polêmicos da assembleia. O jesuíta James Martin declarou: "Um passo histórico adiante".

A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 13-05-2026.

Os testemunhos de dois homens católicos assumidamente gays, casados ​​com seus parceiros, contidos em um dos relatórios finais do Sínodo sobre a Sinodalidade, provocaram reações de indignação por parte dos católicos conservadores.

Os grupos de estudo

O Sínodo sobre a Sinodalidade ocorreu no Vaticano de 2021 a 2024. Mesmo antes da última assembleia, realizada em outubro de 2024, o Papa Francisco decidiu deixar de lado os temas mais polêmicos (como diaconisas, homossexualidade, formação sacerdotal e poligamia) e confiá-los ao estudo aprofundado de diversos grupos de estudo compostos por teólogos e canonistas. Esses grupos vêm concluindo seus trabalhos nos últimos meses, publicando gradualmente seus relatórios finais. Recentemente, em 5 de maio, as conclusões do Grupo 9 foram publicadas no site do Sínodo. Por trás do título um tanto vago, "Critérios Teológicos e Metodológicos Sinodais para o Discernimento Compartilhado de Questões Doutrinárias, Pastorais e Éticas Emergentes", encontra-se, entre outras coisas, a questão da homossexualidade, que tradicionalmente evidencia divisões dentro da Igreja entre progressistas e conservadores.

Novo método e linguagem

O grupo de estudo aborda o tema com método e linguagem inovadores. Em primeiro lugar, evita classificar a homossexualidade entre as questões "controversas", listando-a, em vez disso, entre as questões "emergentes", pois, segundo afirma, não se trata de encontrar uma "solução para um problema", mas sim de focar numa "conversão relacional" que diz respeito a toda a Igreja. O documento, que tem caráter consultivo e foi entregue ao Papa Leão XIV, não marca uma virada doutrinal, nem entra no debate sobre a bênção de casais homossexuais, mas apresenta os testemunhos de dois homens assumidamente gays, que utilizam, entre outras coisas, a sigla — rara em um documento da Igreja — LGBTQ.

Os dois depoimentos

Os dois homens, um português e um americano, relatam a descoberta de sua homossexualidade, os sentimentos iniciais de solidão, as dificuldades que encontraram em alguns círculos eclesiais, mas também a descoberta de outros ambientes católicos — paróquias, universidades, associações — onde encontraram aceitação. O português, casado com outro homem (obviamente fora da Igreja), conta que guias espirituais sugeriram tanto as chamadas "terapias de conversão", que tratam a homossexualidade como uma doença a ser curada, quanto o casamento com uma mulher para esconder sua orientação sexual. "Minha sexualidade não define minha vida, mas é parte intrínseca de mim", afirma o jovem: "Sem reconhecê-la, não posso ser completo". O americano, também casado com outro homem (obviamente fora da Igreja), é professor em uma universidade católica e confessa que veio de uma família católica conservadora que o obrigou a reprimir e negar sua homossexualidade: "Foram necessários anos de oração, terapia e uma comunidade acolhedora para chegar a este ponto, mas agradeço a Deus pela minha sexualidade e pela minha posição na vida". Ele denuncia, em particular, as tentativas da organização Courage International, da qual fez parte por um tempo, que pede aos católicos gays que vivam em abstinência: "As pessoas que conheci lá eram solitárias, desesperadas e frequentemente deprimidas."

Estigma e aceitação

O grupo de estudo sinodal não chega a conclusões definitivas, mas levanta questões. Observa que existe "solidão, angústia e estigma que acompanham as pessoas homossexuais e suas famílias", o que "muitas vezes está ligado à tentação de se esconder em uma vida dupla". Enfatiza também que novas perspectivas estão surgindo dentro da Igreja em relação ao cuidado pastoral, à teologia e à exegese bíblica. Não se trata, escrevem os estudiosos, "de elaborar uma estratégia para esconder dificuldades reais ou forçar a afirmação de uma nova doutrina: trata-se de começar por ouvir as experiências e incentivar práticas pastorais e eclesiais de compreensão mútua, colaboração, inclusão e diálogo entre os fiéis". O grupo de estudo é composto pelo cardeal peruano Carlos Gustavo Castillo, D. Filippo Iannone e D. Piero Coda, Padre Maurizio Chiodi, Jesuíta Carlo Casalone, Irmã Josée Ngalula e Stella Morra.

Conservadores irritados

Os conservadores reagiram com irritação ao novo relatório que, segundo o Cardeal Gerhard Ludwig Mueller, destaca como "a relativização herética do casamento natural e sacramental é abertamente acolhida". Os teólogos e canonistas do Grupo 9, de acordo com o prefeito emérito da Doutrina da Fé, "não negam abertamente as verdades reveladas. Mas as ignoram e, ao lado delas, constroem sua própria casa de um cristianismo confortável e mundano". O testemunho do homem gay americano, disse o Padre Gerald Murray, sacerdote da Arquidiocese de Nova York, entrevistado por Raymond Arroyo na EWTN, é "ultrajante" e o relatório como um todo é "horrível" porque é uma "tentativa subversiva de derrubar a moral católica sobre a questão da homossexualidade". A associação Courage, segundo o National Catholic Register, denunciou o relatório, afirmando que ele constitui "calúnia e difamação contra a organização e seus membros". Para Athanasius Schneider, bispo auxiliar do Cazaquistão e referência nos círculos tradicionalistas, o relatório, conforme noticiado pela jornalista Diane Montagna, propõe uma “exegese da dúvida”, que é “exatamente o que a serpente fez no Jardim do Éden”.

Os aplausos dos progressistas

Por sua vez, o jesuíta americano James Martin, que sempre esteve envolvido no trabalho pastoral com pessoas LGBTQ+, afirmou que o Grupo de Estudos 9 "publicou os testemunhos de dois homens gays, como parte do que é chamado de 'casos de escuta'. Que eu saiba, esta é a primeira vez que um relatório do Vaticano inclui relatos tão detalhados de católicos LGBTQ+. Portanto, representa um avanço significativo na relação da Igreja com a comunidade LGBTQ+". Ouvir os católicos LGBTQ+ dessa maneira "representa, no entanto, uma mudança de época, até mesmo histórica, para a Igreja". Alguns, diz o Padre Martin, "ainda podem considerar o relatório final do Grupo de Estudos 9 'insuficiente'. Mas se a Igreja Católica começou a ouvir os católicos LGBTQ+ como parte integrante de sua metodologia, já deu um passo significativo".

Copo meio cheio ou meio vazio

Na Itália, Massimo Battaglio questionou, no site da Tenda di Gionata, um grupo guarda-chuva católico LGBTQ histórico, se o relatório sinodal representa o proverbial "copo meio cheio ou meio vazio". Está meio cheio, escreve o ativista, precisamente porque "o trabalho do grupo de estudo sinodal começou com a escuta de alguns testemunhos ao vivo de pessoas homossexuais, ou melhor, casais, e casais que falam não apenas de dor e angústia, mas também, e sobretudo, da beleza de seus relacionamentos amorosos". Também é positivo o reconhecimento da homofobia objetivamente presente dentro da Igreja e a crítica às "terapias reparadoras". O copo está meio vazio, segundo Battaglio, devido à insistência no conceito clássico de "acolhimento": "A Igreja deve acolher, abrir suas portas, escutar, etc. Esses parecem conceitos ternos, cheios de amor. Na realidade, como sempre repetimos, são palavras insuficientes e até enganosas." Porque "nós, pessoas LGBTQ, já fomos acolhidos no povo de Deus de uma vez por todas no momento do nosso batismo" e "isso ainda é amplamente ignorado por aqueles que, mesmo de boa fé, mesmo nos amando, continuam a colocar o 'bem comum' da Igreja acima dos nossos direitos como cristãos, ou seja, como membros plenos da própria Igreja".

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