Anunciar a Boa Nova vai muito além de celebrar sacramentos. Comentário de Ana Casarotti

15 Mai 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus 28,16-20 que corresponde a Solenidade da Ascensão do Senhor, ciclo A do Ano Litúrgico. O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo, os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. Então Jesus aproximou-se e falou: "Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo".

Celebramos este domingo a festa da Ascensão do Senhor. Para melhor compreender esta festa lembramos que na cultura greco-romana há muito relatos de pessoas que são levadas para o céu, como por exemplo Hércules, Augusto, Alexandre, o Grande, Cláudio. Eles foram glorificados após sua morte, ascendendo ao céu. Na narrativa desde domingo não se diz que Jesus ascende, mas se acentua o fato que Jesus aproxima-se deles e lhes entrega uma missão. Lembremos as palavras do Papa Francisco na celebração da Ascensão no 2024: "A Ascensão do Senhor não é um distanciamento, uma separação, um distanciamento de nós, mas é o cumprimento da sua missão: Jesus desceu até nós para nos fazer subir ao Pai; baixou Ele mesmo para nos exaltar; Ele desceu às profundezas da terra para que o céu se abrisse sobre nós”. 

Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele.

Durante quarenta dias, Jesus ressuscitado esteve com eles, aparecendo e desaparecendo, fortalecendo sua e esperança. Mateus sublinha que eram onze discípulos, não doze. Esse detalhe revela que a missão da Igreja nasce marcada pela fragilidade humana. A comunidade carrega dúvidas e debilidades, mas é chamada a confiar. A fé não elimina a fraqueza, mas a transforma em espaço de encontro com o Ressuscitado.

“Então Jesus aproximou-se...”

Jesus se aproxima deles na realidade concreta em que vivem: estão na Galileia, o lugar onde haviam deixado tudo para segui-lo, talvez com a memória ainda ferida pela ausência de Judas e com sentimentos contraditórios. Quando o veem, prostram-se e alguns duvidam. Mas Jesus não se afasta: aproxima-se, deixa-se sentir, torna-se presente em meio às fragilidades deles. Nessa experiência de proximidade, a comunidade descobre que o Ressuscitado não abandona, mas acompanha e fala em meio às suas dúvidas.

“...e falou-lhes: "Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra”.

Jesus possui uma nova autoridade recebida de Deus. Não se trata do exercício de um poder abusivo e muito menos de autoritarismo. Sua autoridade é dada pelo Pai e foi-se fortalecendo em sua pessoa ao longo de toda a sua vida; durante os anos que chamamos de “vida oculta de Jesus” e, posteriormente, por meio do anúncio e da proclamação do Reino que o Pai lhe havia entregado. Uma autoridade que brota de sua Páscoa, de sua morte e Ressurreição, e que Ele transmite hoje à comunidade reunida no monte e representada pelos onze discípulos que acolhem suas palavras. Ele conhece profundamente as profundezas da humanidade, com sua generosidade simples — como a viúva que entrega suas duas moedas —, até a tristeza do abandono de seus amigos e a trevas da morte na cruz, mas também experimentou que a morte não tem a última palavra. A partir deste espaço, Jesus lhes confia uma nova missão.

"Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Notícia para toda a humanidade”.

Jesus confia a eles uma missão que não se restringirá apenas aos judeus, mas que é uma mensagem universal. Ele nos exorta a comunicar a Boa Nova a toda a humanidade; não somos chamados a pregar doutrinas religiosas, mas a transmitir a Vida que se propaga a partir de sua ressurreição e que basta nos abrir para acolhê-la, a fim de que ela possa transformar nossa própria vida, tornando-nos seus discípulos. Proclamar a sua ressurreição é proclamar que os novos tempos já começaram, que o Reino já está entre nós, pois em Jesus, morto e ressuscitado, manifesta-se o poder do Pai que dá Vida e vida em abundância.

Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo".

Jesus promete-nos a sua presença constante entre nós. Sabemos disso, mas talvez possamos nos perguntar: será que vivemos essa presença? Somos conscientes de que Ele está entre nós, ou procuramos a Ele pensando que devemos lembrar-Lhe das nossas carências? Ele nos prometeu uma presença permanente, para sempre… e assim vivemos, na medida em que transmitimos a sua vida e somos testemunhas das maravilhas da sua ação entre nós.

Retomamos as palavras do Papa Leão, que nos convidam a olhar para cada um de nossos irmãos, a quem queremos comunicar a Boa Nova a partir do coração de Jesus.

“Encorajo-vos a não distinguir entre aqueles que ajudam e aqueles que são ajudados, entre aqueles que parecem dar e aqueles que parecem receber, entre aqueles que parecem pobres e aqueles que sentem que estão a oferecer o seu tempo, as suas competências e a sua ajuda. Somos a Igreja do Senhor, uma Igreja dos pobres, todos preciosos, todos súbditos, cada um portador de uma Palavra singular de Deus. Cada um é um dom para os outros.”

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