“A libertação de Saif Abukeshek e Thiago Ávila demonstra um sinal de fraqueza de Israel”. Entrevista com Raji Sourani

Benjamin Netanyahu (Fonte: Reprodução | Youtube)

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13 Mai 2026

Raji Sourani (Gaza, 1953) é um dos advogados que mais conhece a situação na Faixa de Gaza. Ele é o fundador e diretor do Centro Palestino para os Direitos Humanos, com sede na capital da Faixa de Gaza. Sua organização é uma das poucas que tem olhos e testemunhos do genocídio, do seu início aos dias atuais, no local.

A entrevista é de Oriol Daviu, publicada por Público, 11-05-2026. A tradução é do Cepat.

Responde às perguntas do jornal Público em Barcelona, onde participou de atos em apoio a Saif Abukeshek, o ativista catalão-palestino da Flotilha Global Sumud, que foi capturado e preso por Israel, juntamente com Thiago Ávila. Ele fala logo após a libertação dos dois pelo Estado israelense, no sábado, se tornar pública. O advogado precisou fugir da Palestina e atualmente vive exilado.

As informações coletadas pela organização de Sourani foram vitais para a denúncia apresentada pela África do Sul contra Israel por genocídio perante a Corte Internacional de Justiça (CIJ), o órgão da ONU que julga as demandas entre os Estados. Sourani e seus colaboradores também ativaram a causa contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e contra o ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, no Tribunal Penal Internacional (TPI). O tribunal acabou emitindo um mandado de prisão internacional contra ambos por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, endereçado aos 124 Estados-membros que reconhecem a jurisdição do tribunal.

Eis a entrevista.

Como você recebeu a notícia da libertação de Saif Abukeshek e Thiago Ávila?

O povo catalão e o povo espanhol reagiram. As pessoas estavam furiosas, revoltadas, e os apoiadores do povo palestino e do movimento de solidariedade na Espanha e em outros lugares começaram a intensificar os protestos. E, mais importante, a posição do primeiro-ministro do Governo espanhol [Pedro Sánchez] foi crucial para acelerar a libertação de Saif e Thiago.

Acredito que Israel começou a fazer cálculos políticos e percebeu que isto se tornaria uma bola de neve. O movimento de solidariedade foi eficaz e Israel começou a pensar seriamente nas consequências. É um sinal de fraqueza do Estado de Israel.

Saif e Thiago eram alvos de Israel?

O que Israel fez é um crime. Deslocou-se 2.000 km para prender Thiago e Saif. Isto significa que, no mais alto escalão de Israel, devem ter planejado com antecedência prender, acusar e processar os dois, antes que chegassem. Tomou-se uma decisão política de primeira classe.

Em segundo lugar, isso aconteceu nas águas da Grécia, o que significa que o governo grego, que atua de forma muito estreita com Israel, sabia disso e concordou. Não foram cúmplices, mas, sim, parceiros, pela segurança e a legalidade etc.

Em terceiro lugar, e isso é óbvio e precisa estar claro, quando foram levados para Israel, não estavam diante de um tribunal militar, mas, sim, de um tribunal civil. Tudo estava preparado para que Saif e Thiago fossem julgados de forma eficaz, e as acusações eram terríveis.

Como está, agora, a população de Gaza? O que Israel está fazendo?

Desde o plano de Trump, em outubro passado, o genocídio institucionalizado, os crimes de guerra e a limpeza étnica dos palestinos continuam; o deslocamento de 2 milhões de pessoas continua; a fome continua; a matança e a destruição também. Não há liberdade de circulação de bens e indivíduos, e a ocupação israelense está fisicamente presente em 63% de Gaza, com ataques diários em todos os lugares.

Desde então, nem mesmo um único saco de cimento entrou para começar a reconstrução ou reparação parcial dos edifícios destruídos. Não há água potável, eletricidade, estradas, sistema de esgoto ou coleta de lixo. A polícia civil azul é assassinada todos os dias para manter a confusão e a segurança interna.

E as organizações de direitos humanos são punidas pelos Estados Unidos por nosso trabalho jurídico. É uma grande vergonha chamar isto de paz ou mesmo de cessar-fogo, que não existe. É uma grande vergonha o genocídio e a limpeza étnica que estão realizando em nome da paz.

O Centro Palestino para os Direitos Humanos, que você preside, teve um papel relevante na denúncia contra Israel por genocídio na Corte Internacional de Justiça. Em que pé está essa denúncia e o que você espera dela?

Israel está tentando ganhar tempo. Pedem dois prazos para responder ao relatório apresentado pela equipe jurídica da África do Sul, em outubro de 2025, acerca dos fatos em Gaza. Justamente no mês passado, Israel apresentou sua resposta, e não são 1.000 páginas, são quase 11.000 ou mais. Tinham um exército de juristas, o que quer dizer que estão extremamente preocupados. A maior parte do que disseram é irrelevante ou retórica jurídica. A África do Sul não responderá como Israel espera, com 11.000 ou 12.000 páginas na corte, caso contrário, seria interminável.

Nossa associação segue ainda hoje alimentando a corte com informações necessárias sobre o que está acontecendo no local. Nossa equipe em Gaza não interrompeu seu trabalho jurídico e o registro de todos os crimes de genocídio.

Quantas pessoas trabalham como observadores no local?

Temos uma equipe de 65 pessoas. Temos advogados e investigadores. Até agora, não paramos um minuto sequer, pois sabemos que nem o promotor e nem seus investigadores podem visitar o cenário do crime. Ninguém pode entrar. Os juízes não podem entrar. O relator especial [da ONU] não pode visitar o local. Portanto, não há acesso para coletar provas no cenário do crime. Se não fizéssemos isto, ninguém mais faria. E a corte ficaria cega e surda. Você sabe quantos jornalistas foram assassinados? Até o momento, 274 foram deliberadamente apagados e assassinados.

Quais são as condições de trabalho para vocês?

Nossos escritórios em Gaza foram destruídos e arrasados. Não temos escritórios, nem eletricidade regular. A equipe trabalha em um ambiente muito, muito duro. Um ambiente de genocídio, o que significa que seria necessário cuidar deles, de suas famílias, da alimentação, da segurança e do deslocamento. Perdemos três de nossos empregados fantásticos, que morreram. Foram atacados junto com suas famílias e não estão mais entre nós.

E mesmo assim, o restante da equipe é verdadeiramente comprometido. Por isso, conseguimos fornecer à equipe jurídica da corte internacional tudo o que é necessário. Posso garantir que vocês estão tendo um dos conflitos mais bem documentados da história.

Você mesmo teve que fugir e se exilar logo após Israel começar a bombardear Gaza, em outubro de 2023.

Para Israel, tratava-se de um alvo de ataque, e assim agiram. Eu tive sorte. Caso contrário, minha esposa, meu filho e eu estaríamos sob os escombros. Nós nos salvamos de um bombardeio que destruiu nossa casa.

A comunidade internacional está acompanhando adequadamente os processos legais em andamento nos tribunais internacionais?

Presenciamos mudanças de posição positivas em alguns países. A Alemanha, por exemplo, retirou seu apoio a Israel pela denúncia de genocídio na Corte Internacional de Justiça. Este é um fato estratégico importante. A Alemanha pode enfrentar problemas se apoiar Israel, pois recebeu a denúncia da Nicarágua de infringir a Convenção para a Prevenção e a Sanção do Crime de Genocídio. Não se juntarão à defesa que será feita pelos Estados Unidos.

Os Países Baixos também decidiram se juntar ao caso da África do Sul. Isto é politicamente importante, pois é onde ficam as sedes dos dois altos tribunais internacionais. A Espanha já havia se juntado ao caso, então, nesse sentido, as coisas estão indo na direção certa.

Por outro lado, Israel, como você sabe, juntamente com os Estados Unidos, tentam espalhar o medo por todas as partes, tanto no TPI quanto na CIJ. Fazem ameaças reais. Os Estados Unidos sancionaram juízes do Tribunal Penal Internacional, mas também há uma onda de ameaças contra a Corte Internacional de Justiça.

Você acredita que Netanyahu se sentará no banco dos réus?

Em teoria, já deveria estar no tribunal. Há um mandado de prisão internacional contra Netanyahu e Gallant. Restam poucos lugares para onde fugirem, na Hungria ou nos Estados Unidos. Penso que Israel está com problemas graves. No Tribunal Penal Internacional, Netanyahu e Gallant são acusados de crimes de guerra e perseguição. Trata-se de algo que está relacionado com a alimentação, basicamente, e com a negação de acesso a alimentos ou equipamentos médicos pela passagem de Rafah.

Contudo, os verdadeiros crimes ainda não foram abordados. E o tribunal tem tudo. Tem as provas do genocídio. Tem as provas da perseguição, do apartheid. Tem as provas dos crimes de guerra e dos crimes contra a humanidade. Tem as provas da fome. Tem as provas dos assentamentos. Tem casos de matanças em massa e destruição em massa. Tudo isso está lá. Penso que Israel acredita que o tribunal pode estar tomando muitas outras decisões contra os líderes israelenses, em nível político e de segurança.

Mesmo assim, Israel não para e, de fato, aprovou uma lei para punir palestinos condenados por terrorismo com a pena de morte, uma acusação que recaía, por certo, sobre os ombros de Saif.

Israel vem aplicando a pena de morte, de facto, há muito tempo. Na prisão, através de torturas, mataram dezenas e centenas de pessoas. Conheço dezenas de casos de pessoas que foram assassinadas extrajudicialmente. Uma unidade secreta entrava e disparava deliberadamente. Além de outros assassinatos seletivos, você já sabe, enviam um [helicóptero] Apache, um drone, um F-16...

Em segundo lugar, a lei em Israel permite a pena de morte. A lei civil israelense a permite, mas só havia sido adotada em um caso. Foi o caso de Eichmann, em 1962, quando foi levado da Argentina, sequestrado e conduzido a Israel, e o acusaram de ter perpetrado parte do Holocausto. Este é o único caso público.

Aplicar a pena de morte é o sonho de Ben-Gvir, o ministro da Segurança e seu advogado e terceira categoria. Ben-Gvir já mostrou o quão mau ele é. Foi pessoalmente espancar e insultar os prisioneiros. Você consegue imaginar? Estão sendo mortos de fome. Conheço pessoas na prisão que estão lá há seis meses e perderam 40, 50, 60 quilos. Não recebem comida. É exatamente isto que os nazistas faziam, contar quantas calorias essas pessoas comem.

O que você relata dá medo.

Isso é uma coisa. Mas eles também querem aplicar a lei retroativamente. Normalmente, em relação às leis, você cria a lei e a aplica a partir de então. Esta lei pode ser aplicada contra todos, tanto aos presos antes de 7 de outubro quanto aos presos depois.

Além disso, não sabemos o número de prisioneiros que entraram nos centros de detenção israelenses, do dia 7 de outubro até hoje. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha não sabe. Nós, como organizações de direitos humanos, não sabemos, e ninguém mais sabe, nem mesmo o serviço penitenciário israelense, pois estão em campos militares.

Sabemos que 2.000 membros do Hamas estão presos. Ben-Gvir quer aplicar essa lei não apenas contra eles, mas também contra outros.

Ainda existem países da União Europeia que comercializam com Israel. A iniciativa da Espanha, Irlanda e Eslovênia de pedir à União Europeia o cancelamento do acordo comercial com Israel foi contestada pela Alemanha e a Itália. Esta seria a forma de forçar Israel a parar o genocídio e suas violações dos direitos humanos ou existe algo mais eficaz?

Não queremos nada mais e nada menos do que o Estado de Direito. Não queremos nada mais do que dignidade. Não inventamos o direito internacional, nem o Estatuto de Roma, nem a Convenção de Genebra. Em 7 de outubro, a Europa disse que Israel tinha o direito à autodefesa. Contudo, a ocupação está definida pelo Estatuto de Roma como um crime de agressão, e a história não começou naquele dia; é uma vergonha.

A Europa se opôs à invasão e ocupação da Ucrânia pela Rússia. Disse especificamente que o país tem o direito de resistir à ocupação por todos os meios. Impôs sanções à Rússia e recorreu ao Tribunal Penal Internacional e à Corte Internacional de Justiça. Declarou seu apoio militar e econômico incondicional à Ucrânia. Tudo isto é legal e correto, mas negado ao povo palestino.

Enquanto comete todos esses crimes, Israel é recompensado. No mínimo, [a Europa] deve parar de lhe conceder privilégios. O acordo de associação dá a Israel uma isenção de impostos de 65% no seu comércio com a Europa. Também fazem parte do programa de intercâmbio juvenil, do Festival Eurovisão, do intercâmbio científico e dos esportes.

A Europa colonial racista envia uma mensagem muito feia ao apoiar a ocupação criminosa e bélica. Não só é cúmplice, mas também parceira da ocupação, defendendo politicamente Israel, acobertando-o legalmente, não punindo-o e abandonando o acordo de associação.

A Europa é parceira, mas deveria seguir o estado de direito, não a lei da selva. Sem ser seletiva, com politização. Espanha, Irlanda, Noruega, Bélgica e Eslováquia deram um bom exemplo a ser seguido. Não só apoiam os palestinos, como também o mundo que queremos: o Estado de Direito.

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