28 Abril 2026
Desde 10 de outubro, data do suposto cessar-fogo, a Faixa de Gaza vive dois processos paralelos. No plano diplomáticos, existe um plano de transição, aprovado pelo Conselho de Segurança e confiado ao Conselho de Paz, com um comitê técnico palestino responsável pela gestão da administração civil e uma força internacional de estabilização encarregada de supervisionar a próxima fase. No terreno, enquanto isso, a geografia da trégua tem se organizado em torno da presença militar israelense em mais da metade da Faixa, da permanência do Hamas em áreas não diretamente ocupadas pelo exército, da dependência quase total da população das ajudas externas e da reconstrução evocada como um objetivo de longo prazo, embora as condições mínimas para iniciá-la permaneçam frágeis.
A reportagem é de Francesca Mannocchi, publicada por La Stampa , 26-0-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
O símbolo material dessa fase é a linha amarela, que na formulação inicial do plano estadunidense indicava o limite da retirada inicial de Israel. Os mapas do cessar-fogo deixaram o exército no controle de aproximadamente 53% da Faixa, aguardando novas retiradas para 40%, depois 15%, até atingir uma zona de segurança mais estreita ao longo do perímetro. Nos últimos meses, essa demarcação assumiu uma função diferente: em vários pontos, deslocou-se para oeste, tomando forma por meio de blocos de concreto, terraplenagens, posições fortificadas, novas estradas militares e demolições ao longo das margens e as estimativas baseadas nas imagens de satélite indicavam, já em dezembro, o controle israelense sobre 58% do território.
A linha de cessar-fogo tornou-se, assim, uma infraestrutura de controle, mais concreta do que qualquer declaração diplomática, capaz de organizar a vida na Faixa por meio de distâncias permitidas, estradas fechadas, zonas agrícolas separadas dos proprietários e espaços civis transformados em zonas de risco. As partes leste e sul de Gaza permanecem sob presença militar israelense. A população palestina vive concentrada na faixa costeira e urbana, em espaços destruídos e superlotados, atravessados por deslocamentos repetidos, dependentes das ajudas humanitárias e da abertura das passagens. Nas áreas além da presença direta de Israel, o Hamas mantém redes armadas e controle local. Entre essas forças, o governo civil previsto pelo plano aparece como uma construção externa, existente nos organogramas e quase ausente da vida cotidiana da Faixa.
A segunda fase está paralisada devido à questão que o plano havia tentado tratar como um procedimento. Israel exige o desarmamento do Hamas como condição para prosseguir com a retirada. O Hamas condiciona a entrega das armas a garantias de retirada israelense, ao fim da pressão militar e a um horizonte político palestino. A Força Internacional de Estabilização tem um comandante designado, o general estadunidense Jasper Jeffers, e sua composição ainda não foi definida. Os governos convocados a participar estão avaliando os riscos de entrar em uma Faixa dividida, controlada por Israel em mais da metade do território, com o Hamas ainda entrincheirado, uma população exausta e uma frágil cadeia de comando internacional. A segurança, que no plano parecia ser o ponto em comum entre todas as partes, revelou-se o local onde cada lado mantém seu próprio veto.
O Conselho de Paz havia prometido ao mundo supervisão política, coordenação da reconstrução, mobilização de fundos internacionais, garantias para a governança civil palestina e coordenação entre segurança e ajudas. O Comitê Nacional para a Administração de Gaza, liderado por Ali Shaath, havia sido apresentado como o órgão técnico palestino destinado a assumir os serviços públicos, ministérios, polícia civil e instituições municipais. A Força Internacional de Estabilização deveria criar um espaço de segurança para reduzir a presença militar israelense e apoiar a desmilitarização do Hamas. Seis meses depois, o Conselho de Paz está comprovando exatamente o que as premissas sugeriam: uma farsa institucional com ambições de governar, que carrega no nome a paz e na estrutura a forma de um protetorado.
O comitê palestino vive à margem do território que deveria administrar. Seus membros ficaram fora da Faixa de Gaza, colocados em uma posição subordinada à cadeia decisória do Conselho, chamados para personificar uma competência técnica palestina enquanto as decisões políticas são tomadas em outro lugar. A própria fórmula do comitê técnico revela a limitação originária do plano: aos palestinos é confiada a administração da sobrevivência, enquanto acessos, segurança, fronteiras, fundos, cronogramas de retirada e estrutura para a reconstrução permaneceram nas mãos de um órgão externo, construído em torno do ego institucionalizado de Trump, da promessa de rapidez e da fantasia de substituir a política pelo management.
Dentro dessa estrutura, Gaza é tratada como um território a ser estabilizado por meio de especialistas, investimentos, procedimentos, contratos, corredores humanitários, forças de segurança e vigilância, enquanto a questão palestina é reduzida a uma soma de funções: água, saúde, escola, polícia civil, distribuição das ajudas e restauração dos serviços. Uma guerra colonial e nacional é traduzida em problema administrativo. O Conselho de Segurança oferece uma estrutura de legitimação, mas o centro operacional do plano está se deslocando para um órgão pessoal, seletivo e opaco, projetado para substituir a lentidão do multilateralismo por uma plataforma de comando mais compatível com a linguagem política de Trump.
A situação humanitária torna essa defasagem ainda mais evidente. Entre 14 e 20 de abril, houve um pequeno aumento na entrada de ajudas humanitárias, uma melhoria que atua em meio a uma devastação extrema. A maior parte da população ainda vive em deslocamento e os riscos sanitários estão aumentando nos ambientes superlotados, em meio a lixo, água contaminada, escassez de combustível e serviços intermitentes. Desde 10 de outubro, data do anúncio do cessar-fogo, o número de mortos registrado pelas autoridades de saúde de Gaza é de 786, com 2.217 feridos. A reconstrução está sendo apresentada tanto como uma prova da segunda fase quanto como sua futura recompensa. A avaliação conjunta da UE, da ONU e do Banco Mundial estima a necessidade de recuperação e reconstrução nos próximos dez anos em US$ 71,4 bilhões.
Os danos materiais somam mais de 35 bilhões e as perdas econômicas e sociais ultrapassam os 22 bilhões. Mais de 370.000 habitações foram destruídas ou danificadas, quase todas as escolas foram atingidas, mais da metade dos hospitais estão fora de funcionamento e a economia se contraiu em 84%. Uma transição pressupõe uma mudança de uma ordem para outra; em Gaza, essa mudança ocorre principalmente no plano diplomático e administrativo, enquanto o espaço físico se consolida de acordo com as relações de força já presentes. O Conselho de Paz deveria impedir que o espaço entre a guerra e o pós-guerra fosse ocupado por atores armados. Hoje, esse espaço já tomou forma: cada semana de atraso adiciona material ao controle: uma estrada fechada, um campo inacessível, uma passagem regulada, uma zona de risco incorporada à vida civil, uma população forçada a medir sua sobrevivência dentro das margens estabelecidas pelo exército. Assim, a segunda fase, em vez de inaugurar a fase de pós-guerra, está normalizando a ocupação de Gaza sob o nome de cessar-fogo.
Ontem, em Deir al-Balah, foram realizadas as primeiras eleições municipais na Faixa depois de em mais de vinte anos. A votação envolveu apenas uma cidade, com aproximadamente setenta mil eleitores aptos a votar e doze centros eleitorais instalados até em espaços improvisados, pois as escolas continuam a funcionar como abrigos para os deslocados. Seu alcance administrativo é limitado, sua importância política é mais ampla, porque Deir al-Balah introduz um elemento diferente: uma comunidade palestina tentando escolher quem será responsável pela água, pelo lixo, pelas estradas, pela moradia, pelos serviços essenciais, ou seja, as funções mais básicas e também mais políticas da vida coletiva.
A Autoridade Palestina interpreta essa votação como um primeiro passo rumo à reentrada administrativa em Gaza; o Hamas a vê como uma medida de seu consenso residual e de sua capacidade de permanecer dentro do tecido social; doadores e diplomacias a consideram um teste de governabilidade. Mas o sentido mais profundo reside no contraste entre a pequena escala da urna e a grande máquina do protetorado: enquanto o Conselho permanece suspenso em uma estrutura externa, uma cidade de Gaza reencena, da maneira mais concreta e frágil, a demanda por representação.
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