Andrés Torres Queiruga: a fé que ousa amar sem medo. Artigo de José C. E. Díaz

Andrés Torres Queiruga | Foto: Sandra Alonso/La Voz de Galicia

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13 Mai 2026

A voz de Andrés Torres Queiruga reconduz o cristianismo ao seu centro: um Deus que é amor e uma fé que se mede na entrega de si ao outro. Diante do medo e da culpa, sua mensagem é clara: somente aqueles que amam — e agem — vivem de verdade.

O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, publicado por Religión Digital, 10-05-2026.

Eis o artigo.

Em tempos de incerteza espiritual e ruído ideológico, a voz de Andrés Torres Queiruga ressoa com uma clareza incomum. Sua recente entrevista ao Faro de Vigo, sob o título luminoso "Deus é Amor", não é simplesmente uma declaração teológica: é a síntese de uma vida dedicada a libertar a fé de suas sombras e restaurar sua essência mais genuína. Com mais de oitenta anos, o pensador galego continua a oferecer algo raro hoje em dia: uma fé intelectualmente honesta, espiritualmente profunda e radicalmente humana.

 A grande sacada de Queiruga, aquela que permeia toda a sua obra, é tão simples quanto revolucionária: Deus não compete com o mundo, mas o sustenta. Em contraste com a imagem tradicional de um Deus intervencionista — caprichoso, que corrige erros, que monitora o comportamento — ele propõe uma presença constante, discreta e amorosa. Deus não "aparece" de tempos em tempos para alterar a realidade: Ele já está sempre dentro dela, tornando-a possível a partir de dentro. Essa visão não enfraquece a fé; ela a purifica. Liberta-a da superstição e a reconcilia com a razão.

Graças a essa abordagem, a crença deixa de ser um ato de ruptura com o conhecimento moderno. Ciência e fé não se confrontam mais, pois não falam a mesma língua nem ocupam a mesma esfera. O mundo é autônomo, e essa autonomia não representa uma ameaça a Deus, mas sim à Sua criação. Nessa perspectiva, a maturidade do pensamento humano não nos distancia do divino: ela o torna mais compreensível.

Mas é em sua reflexão sobre o mal que o pensamento de Queiruga atinge um de seus pontos mais elevados. Durante séculos, a teologia tentou justificar Deus diante do sofrimento humano, formulando perguntas como "Por que Deus permite o mal?". Queiruga desmantela essa lógica em sua raiz: o mal não precisa de permissão divina porque não é um ato intencional, mas uma consequência inevitável da finitude. Um mundo criado é, por definição, limitado. E dentro desse limite aparecem a dor, a perda e a morte.

A verdadeira fé não consiste em se abster do mal, mas em ousar fazer o bem até o fim. Consiste em alimentar os outros, acolhê-los, acompanhá-los, compartilhar tempo, recursos e a própria vida. Não por obrigação, mas por um amor transbordante.

A resposta, portanto, não é procurar culpados no céu, mas descobrir uma presença diferente: Deus não é quem permite o mal, mas quem o combate internamente como "Antimal". Ele não é um juiz distante, mas um companheiro compassivo. Deus sofre com a humanidade. Essa ideia transforma profundamente a experiência religiosa. A oração deixa de ser uma tentativa de convencer Deus a agir e se torna um ato de abertura a uma força que já está em ação e que precisa da nossa liberdade para desvendar a história.

Dessa perspectiva, a deixa de ser um refúgio e se torna um compromisso. E é aqui que o pensamento de Queiruga se conecta com uma das ideias mais radicais do Evangelho, tantas vezes esquecida: a centralidade do amor como critério último da verdade e da vida. Não é por acaso que a tradição joanina expressa isso com uma força que transcende os séculos: quem não ama já está morto. Isso não é uma ameaça, mas uma constatação. Viver sem amor é viver sem plenitude, sem sentido, sem Deus.

Essa mesma lógica se desdobra com toda a força na parábola do Juízo Final. Nela, ninguém é condenado pelo mal cometido, nem salvo pelo mal evitado. O critério é diferente, mais exigente e mais esclarecedor: a omissão do bem. Não se diz: “Afasta-te de mim porque roubaste”, mas “porque não deste”. A correção moral não é recompensada, mas a generosidade radical. O julgamento não gira em torno da justiça entendida como equilíbrio, mas em torno do amor entendido como doação de si.

Esta mensagem alinha-se naturalmente com a teologia de Queiruga. Se Deus é amor, Ele não pode se contentar com uma ética mínima ou uma religiosidade defensiva. A verdadeira fé não consiste em se abster de fazer o mal, mas em ousar fazer o bem em sua plenitude. Alimentar, acolher, acompanhar, compartilhar tempo, recursos e vida. Não por obrigação, mas pela transbordante abundância do amor.

Neste ponto, sua perspectiva sobre a Igreja é particularmente desafiadora. Por muito tempo, a instituição foi marcada pelo medo, pelo controle e por uma linguagem incompreensível. Queiruga propõe algo diferente: uma Igreja que seja um espaço de liberdade, acolhimento e significado. Não uma fortaleza a ser defendida, mas uma casa que se abre. Não um sistema de dogmas fechados, mas um caminho de experiência compartilhada.

Sua crítica não é destrutiva, mas profundamente evangélica. O que afasta muitas pessoas da religião hoje não é a falta de anseio espiritual, mas a incapacidade da linguagem religiosa de dialogar com o mundo moderno. É por isso que ele insiste na necessidade de uma renovação profunda: uma teologia que escute a cultura contemporânea, que dialogue com o feminismo, que se comprometa com a justiça ecológica e que abrace os valores democráticos.

Em última análise, tudo converge para essa afirmação simples e definitiva: “Deus é amor”. Não como um lema piedoso, mas como o cerne de uma visão de mundo. Se Deus é amor, então tudo muda. A maneira como entendemos o sofrimento, a oração, a moralidade, a Igreja e nossas próprias vidas se transforma. O medo desaparece e a responsabilidade surge. A culpa se dissipa e a alegria floresce.

A teologia de Andrés Torres Queiruga não é um exercício acadêmico isolado. É um convite a viver de forma diferente. A crer sem deixar de pensar, a amar sem medida, a agir sem esperar recompensa. É, em última análise, um chamado para resgatar o melhor do cristianismo: sua capacidade de humanizar.

Num mundo fragmentado e cansado de retórica vazia, a voz dela permanece essencial. Porque nos lembra de algo fundamental: a verdade não é imposta, é buscada; e nessa busca, o amor não é uma opção, é o único caminho.

Como nos lembrou São João da Cruz com sua provocativa humildade — "Eu não pastoreio gado" —, ninguém na Igreja deve se colocar acima de ninguém, como senhor das consciências ou pastor dos subjugados. À luz do pensamento de Andrés Torres Queiruga, essa intuição ganha nova força: crer não é dominar, mas acompanhar; não impor, mas amar. Porque, em última análise, somente uma fé que se coloca no nível do outro — e se doa — pode ser crível no mundo de hoje. 

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