14 Mai 2026
"Para uma parte significativa da população brasileira, os conceitos e argumentos econômicos ou filosóficos do neoliberalismo, do pensamento pós-moderno e dos autoritários são muito complicados e difíceis de acompanhar. Aqui entra a importância dos líderes religiosos (especialmente os padres e pastores), como os 'intelectuais orgânicos' das comunidades que simplificam e, o mais importante, usam a linguagem religiosa, que é, ao mesmo tempo, afetiva, explicativa e geradora de esperança", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
Todas pesquisas sobre a eleição presidencial mostram que o país está bem dividido, 50% versus 50%, e que o futuro dos próximos 4 anos será definido por um pequeno grupo de ainda indecisos e/ou dos que podem mudar de opinião.
E quais são as questões fundamentais que dividem esses dois lados? A grosso modo podemos dizer que a grande divisão se dá em torno da noção moderna da igualdade fundamental de todas pessoas e, com isso, a dos direitos humanos. Noções essas que foram proclamadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da ONU, e justificadas pela razão (incluindo a importância da ciência) moderna e, antes disso, pela interpretação de apóstolo Paulo (cf. Gal 3, 26-29) dos ensinamentos de Jesus.
Com a hegemonia do neoliberalismo e do pensamento pós-moderno, e posteriormente aliança com a “nova direita” (extremista, neofascista e/ou autoritarismo) e o conservadorismo religioso (cristão no Ocidente, mas também no hinduísmo e budismo no Oriente), esses dois valores da igualdade fundamental e dos direitos humanos foram questionados e negados. Contra esse humanismo moderno e a razão filosófica e científica vemos a força da “vontade” e a desigualdade fundamental entre seres humanos.
Por ex., a campanha atual contra a decisão da Anvisa sobre o detergente Ypê, que foi politizada pela direita, faz sentido para muitos exatamente porque essa direita luta contra:
a) a intervenção do Estado no campo do mercado, que iria contra a liberdade individual dos consumidores;
b) a ciência que nega ou mostra os limites da “vontade” do forte (ou dos que estão com o poder de Deus, que faz milagres) frente à natureza (por ex., os limites ecológicos).
Para uma parte significativa da população brasileira, os conceitos e argumentos econômicos ou filosóficos do neoliberalismo, do pensamento pós-moderno e dos autoritários são muito complicados e difíceis de acompanhar. Aqui entra a importância dos líderes religiosos (especialmente os padres e pastores), como os “intelectuais orgânicos” das comunidades que simplificam e, o mais importante, usam a linguagem religiosa, que é, ao mesmo tempo, afetiva, explicativa e geradora de esperança.
Nesse sentido, essas lideranças padres e pastores/as têm um papel fundamental nessa luta político-antropológica, e também eleitoral, sobre a igualdade ou desigualdade fundamental entre todos seres humanos. E quanto mais for “religiosa” a comunidade, a tendência é a de aliar – consciente ou inconscientemente – com a direita. Isso porque as comunidades religiosas se reúnem em torno e são dirigidas pelas pessoas “ungidas” ou “escolhidas” por Deus. Isto é, em torno de pessoas “sagradas”, que são diferenciadas e compreendidas como desiguais, como separadas. Essa noção de desigualdade pressupõe uma classificação, que tende a justificar a hierarquização entre os superiores e inferiores.
Tanto a polêmica do detergente quanto da submissão da mulher ao marido (gerada por uma pregação do frei Gilson) são expressões dessa visão das relações humanas e com a natureza. Em particular, essa visão teológica e da estrutura organizativa das comunidades religiosas têm uma afinidade, isto é, tendem a se aproximar da visão da direita, seja moderada ou extremada. Enquanto que a esquerda, com a visão de que todos seres humanos têm a mesma dignidade e direitos fundamentais, tendem – por sua formação da razão ilustrada – a diminuir ou negar a importância da fé e da linguagem religiosa na vida e nas opções político-eleitorais das pessoas e das comunidades.
Precisamos superar os erros da ilustração e das diversas teorias sobre a secularização (a separação do Estado e Igreja) do mundo moderno para rompermos a aliança, consciente ou inconsciente, entre setores do cristianismo e a direita autoritária e neoliberal. Para isso, entre muitas tarefas, temos que retomar a discussão sobre o papel e a vocação dos padres/pastores na sociedade hoje.
A resposta simples de que o padre ou pastor é chamado por Deus para “servir” ao povo ou para “dar glória a Deus” não são suficientes. (a continuar no próximo artigo)
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