07 Mai 2026
Em 7 de maio de 2025, as portas da Capela Sistina se fecharam para o conclave que elegeria o Papa Prevost no dia seguinte. Um ano é pouco tempo para historicizar um pontificado, mas tempo suficiente para formular algumas hipóteses interpretativas que pedimos ao historiador Daniele Menozzi, professor emérito da Scuola Normale Superiore de Pisa e especialista na Igreja e no papado na era moderna e contemporânea.
A entrevista é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 06-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Como Prevost se posiciona em relação às trajetórias assumidas pela Igreja pós-Concílio?
Durante e após o Vaticano II, desenvolveram-se duas linhas de pensamento, ambas inovadoras em relação ao magistério anterior, mas distintas entre si: uma ligada à construção de uma sociedade cristã baseada numa reinterpretação modernizada da lei natural, a outra voltada para a proposição de uma mensagem evangélica reinterpretada à luz dos sinais dos tempos. Os pontífices do pós-Concílio (Montini, Wojtyla, Ratzinger) aderiram à primeira linha, ainda que com ênfases diferentes. Bergoglio, ao contrário, aderiu à segunda. Prevost parece retornar à lei natural, embora estendendo ainda mais a sua atualização: o direito à vida expande-se da condenação do aborto e da eutanásia para a denúncia da guerra como instrumento de morte.
Uma comparação com Francisco é inevitável. Como Leão XIV se posiciona em relação ao seu predecessor?
De Bergoglio, retomou a centralidade das referências aos pobres, à paz e à ecologia. Mais matizado, porém, parece o chamado a uma hierarquia da verdade católica, cujo ápice é o Evangelho da misericórdia. Ainda resta verificar a posição de Prevost sobre a liturgia pré-conciliar, a Missa em latim, que para Francisco era admissível desde que não fosse utilizada instrumentalmente para se contrapor à atualização conciliar, como fazem os tradicionalistas.
Após um ano, a eleição de Prevost satisfaz mais os conservadores ou os progressistas?
O modelo dos conservadores, convencidos de serem detentores de uma verdade católica imutável, é Bento XVI, que colocava a Igreja fora e acima da história. O agostiniano Prevost sabe bem que a apresentação aos homens da Cidade de Deus, inextricavelmente ligada na história à Cidade dos Homens, se transforma ao longo do tempo. Consequentemente, promove atualizações eclesiais que os conservadores não conseguem lhe perdoar.
Existem fortes tensões entre os Estados Unidos e o Vaticano: ontem, Trump atacou novamente o pontífice e, de sua parte, o papa estadunidense criticou o governo dos EUA em relação aos migrantes e à política externa.
É uma distância destinada a diminuir ou a aumentar?
A Santa Sé não muda de posição sobre as questões em discussão com o governo dos EUA, porque elas tocam em pontos cruciais da presença católica no mundo contemporâneo: a paz e a dignidade dos seres humanos. Se o governo dos EUA deseja diminuir o distanciamento, precisa reconsiderar suas atitudes. Também faz parte da postura romana a disposição para o diálogo e a negociação, apesar de ataques claramente infundados, como o de ontem.
Trump disse que, sem ele, Prevost não teria sido eleito papa. Ele está certo?
É um dos muitos absurdos de um discurso público baseado numa retórica do excesso, que visa obter cobertura midiática para compensar a ausência de pensamento político. Seus conteúdos sequer seriam levados em consideração, ou poderiam ser motivo de divertimento, se não fossem proferidos por alguém que possui armas nucleares.
A guerra é a questão do nosso tempo. Após uma cautela inicial, Prevost parece ter ganhado mais coragem em sua denúncia, embora com tons mais moderados do que Bergoglio. É isso mesmo?
Para Leão, enquanto se aguarda que as comunidades eclesiais amadureçam a capacidade de responder com técnicas não violentas à injustiça sustentada pela força das armas, a diplomacia desempenha um papel indispensável. Trata-se de atenuar os sofrimentos dos conflitos, defender o direito humanitário e restaurar as regras do direito internacional. A linguagem papal se adapta aos espaços que ele acredita se possam abrir para o diálogo e a negociação. No entanto, isso não obscurece a denúncia da violência bélica como a loucura do nosso tempo.
Quais são as reformas que Francisco deixou inacabadas e que Leão deveria retomar?
Em uma Igreja que, após Bergoglio, se apresenta em todos os aspectos "semper reformanda”, eu me limitaria ao plano institucional, ao qual Leão parece estar atento. Gostaria de acrescentar que permanecem abertos o problema da Cúria, da crise do sacerdócio, a começar pela sua formação, e da articulação dos ministérios a serviço da comunidade eclesial, especialmente aqueles femininos.
Que rumo tomará a Igreja?
Depois de Francisco, o rumo da Igreja está nas mãos dos fiéis, que agora dispõem também do instrumento sinodal para orientá-la.
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