27 Abril 2026
"O conflito desencadeado por Trump contra o Irã não atende, nesse sentido, a nenhuma dessas condições: a guerra contra Teerã é, de fato, uma guerra de agressão e, além disso, com seu unilateralismo, o chefe da Casa Branca decidiu ignorar a ONU e a comunidade internacional."
Daniele Menozzi é um dos maiores historiadores da Igreja e professor emérito de história contemporânea da Universidade Normal de Pisa.
A entrevista é de Francesco Peloso, publicada por Domani, 23-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
Em sua opinião, o que levou o governo republicano a atacar o Papa com tamanha veemência em um momento já em si complicado para Donald Trump?
Provavelmente há pelo menos dois fatores em jogo: por um lado, os traços de caráter inegavelmente subjetivos de Trump. Ele não tolera nenhum tipo de oposição ou divergência em relação à sua própria linha, e isso pode ter desempenhado um papel. O outro aspecto relevante é certamente o fato de que, de uma perspectiva política geral, Trump, como demonstra a criação de um Departamento da Fé no governo, tem contado muito com a convergência das religiões positivas na religião política estadunidense da qual se proclamou sumo sacerdote. Ora, o próprio fato de o Papa, ou seja, o chefe de uma comunidade bastante consistente dentro dos Estados Unidos, divergir explicitamente de suas posições, invalida um dos elementos de sua política, isto é, o de fundir todos os elementos religiosos em um nacionalismo estadunidense. Uma religião política desse tipo prevê que todas as religiões positivas que existem nos Estados Unidos se reconheçam na "religião política estadunidense" da qual se proclamou intérprete e líder. Mas eis que essa diferenciação posta pelo papa evidentemente coloca em discussão essa orientação e torna mais frágil sua pretensão, enfraquecendo, assim, sua linha política geral.
De fato, o embate com Trump permitiu ao papa recondensar a Igreja nos EUA, que até ontem estava profundamente dividida internamente entre conservadores e reformistas. Leão XIV conseguiu condensar a Igreja estadunidense já antes do início da guerra com o Irã. Era uma Igreja politicamente muito fragmentada, dividida entre republicanos e democratas, com uma maioria de voto a favor de Trump. Ele obteve sucesso nessa operação e, quando se apresentou o embate entre a Santa Sé e a presidência dos EUA, os resultados do trabalho tornaram-se visíveis, pois os católicos estadunidenses, tanto conservadores quanto progressistas, alinharam-se à posição do papa. Até agora, durante o conflito com o Irã, houve, por exemplo, as repetidas posições tomadas pelo bispo do ordinariado militar, Monsenhor Timothy Broglio, que, até poucos meses atrás, era o presidente da Conferência Episcopal Estadunidense e a liderava com uma orientação muito conservadora, tendencialmente a favor de Trump. Quando a guerra começou, no entanto, Broglio alinhou-se completamente com as posições do Papa contra o belicismo da Casa Branca.
Quando o Papa fala de corrupção das classes dirigentes africanas, de neocolonialismo, quando intervém sobre a questão do Irã ou de Gaza, pode-se dizer que está se envolvendo em política, ou isso é errado?
Precisamos entender o que significa a palavra "política". O catolicismo é certamente uma religião que influencia os comportamentos individuais e coletivos e, portanto, impacta a vida pública. Indicar como os católicos devem se comportar na vida pública tem uma implicação política, e isso obviamente não significa que o Papa esteja se envolvendo em política direta, ou seja, indicando pertenças de tipo partidário ou interesses particulares a defender. Na realidade, indica quais são os comportamentos que os católicos devem adotar, também no cenário público. Tudo isso tem inevitáveis implicações e repercussões políticas, mas estas dizem respeito ao bem coletivo, àquilo que a Igreja acredita ser o bem coletivo da comunidade. Cabe então a cada fiel traduzir essas indicações em escolhas concretas, em opções para homens, para movimentos, para partidos e assim por diante.
Estamos falando do conceito de guerra justa, também levantado pelo vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, para criticar o Papa. Vance referiu-se à intervenção estadunidense contra os nazistas na Europa durante a Segunda Guerra Mundial para dizer que, naquele caso, Deus estava do lado daqueles que lutavam do lado certo.
Do ponto de vista histórico, a "guerra justa" tem uma tradição de quase dois mil anos na história da Igreja, portanto, tem conteúdos que obviamente mudaram ao longo dessa trajetória, conforme foram se diferenciando as formas de travar a guerra e as condições históricas.
É preciso dizer, contudo, que hoje há um ponto fixo que é o Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1997, que dedica um capítulo à guerra justa. Vance, que se declara católico, deveria ao menos conhecê-lo. E ele prevê apenas um caso de guerra justa: a guerra em legítima defesa. Além disso, o Catecismo indica uma série de condições que permitem o uso de armas para exercer esse direito. Ora, entre essas condições, há uma bastante evidente: um Estado que acredita estar sendo agredido injustamente só pode iniciar as hostilidades para defender seus direitos após ter tentado resolver a questão que o levam a pegar em armas por meios pacíficos, que são aqueles da comunidade internacional. Isto é, uma guerra de legítima defesa pode ser empreendida quando a comunidade internacional reconhece que não há outros meios para defender seus direitos.
O Catecismo da Igreja Católica também prevê a tipologia da "guerra humanitária", ou seja, da guerra travada para proteger os direitos humanos de grupos sociais, de etnias e de pessoas cujos direitos fundamentais não são garantidos. Mesmo nesse caso, porém, a posição da Igreja é muito clara: ninguém pode decidir se um ataque está realmente em curso contra os direitos fundamentais de grupos sociais, de grupos étnicos, de nações, de minorias religiosas, etc., exceto a comunidade internacional, ou seja, a guerra humanitária deve ser conduzida sob a direção das Nações Unidas, porque somente as Nações Unidas possuem os instrumentos para poder entender se uma violação dos direitos humanos está de fato ocorrendo. O conflito desencadeado por Trump contra o Irã não atende, nesse sentido, a nenhuma dessas condições: a guerra contra Teerã é, de fato, uma guerra de agressão e, além disso, com seu unilateralismo, o chefe da Casa Branca decidiu ignorar a ONU e a comunidade internacional.
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