16 Abril 2026
Poucas horas depois de o Papa prestar homenagem pública a Santo Agostinho — um dos principais arquitetos da teoria da guerra justa —, o vice-presidente JD Vance questionou a compreensão do pontífice sobre a doutrina católica para determinar se uma guerra é moralmente justificável.
A reportagem é de Justin McLellan, publicada por National Catholic Reporter, 15-04-2026.
"Quando o Papa diz que Deus nunca está do lado de quem empunha a espada, há uma tradição de mais de mil anos de teoria da guerra justa", disse Vance em um evento do Turning Point USA realizado na Universidade da Geórgia, em 14 de abril. "Podemos, naturalmente, discordar sobre se este ou aquele conflito é justo."
"Como se pode dizer que Deus nunca está do lado de quem empunha a espada?", perguntou ele, citando o exemplo das tropas americanas que libertaram a França dos nazistas e liberaram prisioneiros dos campos do Holocausto.
"Acho muito, muito importante que o Papa seja cuidadoso quando fala de questões teológicas", disse Vance. "Se vai opinar sobre questões de teologia, é preciso ser cuidadoso. É preciso garantir que esteja ancorado na verdade, e isso é algo que tento fazer e certamente esperaria do clero."
O vice-presidente — que se encontrou com Leão no Vaticano em maio e tem um livro sobre sua conversão ao catolicismo previsto para o verão — respondeu a uma publicação na conta do Papa na plataforma X, na qual este escrevia que Deus "nunca está do lado de quem outrora empunhou a espada e hoje lança bombas".
Leão reconheceu que muitos chamaram de injusta a guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, incluindo o Cardeal Robert McElroy, de Washington, que afirmou que a guerra não satisfaz os critérios da guerra justa. "Não se pode satisfazer o critério de intenção correta da tradição da guerra justa se não se tem uma intenção clara", disse o cardeal em uma entrevista sobre a guerra no Irã.
Vance, que havia escolhido Santo Agostinho como seu santo padroeiro, fez seus comentários poucas horas depois de o Papa ter viajado a Annaba, na Argélia, para prestar homenagem ao seu pai espiritual — o santo norte-africano que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da teoria da guerra justa.
Agostinho, doutor da Igreja e uma das maiores influências intelectuais do pensamento ocidental, argumentou que a guerra é moralmente justificada quando orientada para a restauração da paz. Pensadores posteriores, em especial São Tomás de Aquino, desenvolveram ainda mais o pensamento de Agostinho e estabeleceram os critérios para determinar se uma guerra é justa.
O Catecismo ensina que o uso da força militar deve considerar se o dano infligido por um agressor é "duradouro, grave e certo", e estabelece que "o uso das armas não deve produzir males e desordens mais graves do que o mal a eliminar".
Leão havia abordado o tema em um discurso de 7 de março aos ordinários militares: "É neste contexto que se situa a missão do soldado cristão. Defender os fracos, proteger a convivência pacífica, intervir em catástrofes, atuar em missões internacionais para preservar a paz e restaurar a ordem. Tudo isso não pode reduzir-se a uma mera profissão: é uma vocação, uma resposta a um chamado que desafia a consciência."
Leão XIV, o primeiro papa a ser membro da ordem religiosa agostiniana inspirada pelo santo, viajou à Argélia para visitar o sítio da antiga Hipona — a cidade romana onde Agostinho foi bispo durante 34 anos. Celebrando missa na Basílica de Santo Agostinho em Annaba, que se ergue sobre o sítio antigo, o Papa afirmou que "o princípio orientador acima de tudo para os cristãos é a caridade".
Antes de se tornar bispo, Leão foi superior-geral da ordem religiosa agostiniana mundial, inspirada na vida e nos ensinamentos do santo; escreveu sua tese de doutorado sobre a compreensão da autoridade em Santo Agostinho. O Papa mantém uma relação de longa data com Agostinho: seus irmãos frequentaram um colégio agostiniano nos arredores de Chicago, onde sua mãe trabalhava como bibliotecária, e o próprio Leão cursou um seminário menor agostiniano em Holland, Michigan.
A caminho da Argélia, o Papa afirmou não ter "nenhum medo do governo Trump", após o ataque desferido contra ele pelo presidente Donald Trump na plataforma Truth Social, na qual escreveu que o Papa é "fraco no combate ao crime e péssimo em política externa". Em 14 de abril, o presidente voltou a publicar sobre o Papa, pedindo que "alguém, por favor, diga ao Papa Leão que o Irã matou 42 mil manifestantes inocentes e completamente desarmados nos últimos dois meses, e que o Irã ter uma bomba nuclear é absolutamente inaceitável". O número real de vítimas da repressão iraniana aos manifestantes é amplamente desconhecido, mas estima-se que supere 30 mil.
Leia mais
- O novo papa, a paz e a guerra sob a insígnia de Agostinho. Artigo de Francesco Strazzari
- O que é a "ordo amoris", o conceito sobre o qual JD Vance e o Papa Francisco discordam?
- Ataque sem precedentes de Trump contra Leão: "Ele não seria Papa sem mim." Bispos dos EUA: "Doloroso"
- Encontro histórico no Vaticano rejeita doutrina da guerra justa e pede encíclica sobre a não violência
- 'Ordo amoris': Vance e Francisco. Artigo de Marcello Tarì
- Tradicionalistas, conservadores, globalizados: os "católicos Maga" de JD Vance à conquista dos EUA. Artigo de Mario Giro
- Leão XIV queria ser chamado... Agostinho
- “Sou um filho de Santo Agostinho”: a chave para compreender a novidade de Leão XIV. Artigo de Carlos Eduardo Sell
- A equipe de Leão XIV
- As primeiras palavras de Leão XIV, o novo Papa. Numa dupla entrevista, as primeiras avaliações de duas teólogas, Paola Cavallari e Letizia Tomassone
- O Papa Leão XIV fará o apelo por mulheres diáconas? Artigo de Phyllis Zagano
- Maior representatividade feminina na Igreja Católica será desafio para novo papa Leão XIV. Entrevista com Maria Clara Bingemer
- O problema das mulheres católicas: o que esperar de Leão XIV. Artigo de Paola Lazzarini
- Discurso do Papa. "Paz desarmada e que desarma, construamos pontes"
- Leão XIV inicia um papado repleto de desafios que ele promete enfrentar com uma perspectiva social e "realista"
- Papa Leão XIV. Desafios e expectativas. Algumas análises
- Papa Leão XIV: primeiras impressões de um novo pontificado. Massimo Faggioli, Brenda Carranza e Luís Corrêa Lima
- Leão XIV aos jornalistas: "Desarmemos a comunicação de todo preconceito, ressentimento, fanatismo e ódio, purifiquemo-la"
- Trump cumprimenta, mas o Papa progressista faz o mundo Maga tremer
- Dos Bispos à Economia: Aqui estão as Caixas-Chave do Pontificado do Papa Leão XIV
- “Como matemático, Prevost colocará os princípios éticos no centro da tecnologia”. Entrevista com Paolo Benanti
- “Para a Igreja, a nova questão social é a inteligência artificial”, segundo Leão XIV
- O que aconteceu dentro do conclave? Na hora do almoço, a opção italiana cai e surge o grande candidato a papa na sombra
- Um novo papa para ser farol das noites sombrias. Destaques da Semana no IHU Cast
- A brilhante jogada do Conclave: o Papa Leão XIV é uma escolha à altura da tarefa da situação geopolítica. Artigo de Marco Politi
- Vozes de Emaús: Leão XIV: a abertura do pontificado. Artigo de Pedro A. Ribeiro de Oliveira
- O primeiro jantar do Papa com os cardeais: "Foi assim que ele escolheu o nome Leão XIV"
- A eleição. Acordo no segundo dia. Prevost é Leão XIV