Não se enganem. Francisco está vivo. Artigo de Luca Casarin

Papa Francisco. (Foto: Vatican Media)

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24 Abril 2026

"Francisco é um evento impetuoso, tanto para a Igreja, assolada desde seus alicerces por um torpor anestésico caro ao poder do 'reino dos homens', quanto para o mundo, que mais uma vez se tornou algo a ser atravessado e transformado 'materialmente', e não simplesmente aceito passivamente, confiando em um reconfortante perdão final", escreve Luca Casarin, em artigo publicado por l'Unità, 22-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Um ano se passou desde que o Papa Francisco deixou este mundo. Já essa expressão revela toda a sua inadequação diante de Francisco, do que ele foi e do que ele é.

De fato, como se pode dizer que ele nos deixou? Sua presença é tão concreta que todos os dias, em todos os cantos do mundo, alguém se refere a ele: "O que Francisco teria dito sobre isso?"

E mais ainda: "escute o Papa Leão, está falando como Francisco." O padre Antonio Spadaro, um dos que lhe foram realmente próximos, define a passagem terrena desse papa "que veio do fim do mundo" como um "trauma". É a definição que mais se aproxima da sensação de uma perda irreparável. Um trauma, quando acontece, explode em toda a sua natureza disruptiva, irredutível. Ninguém pode saber como, ninguém pode explicar completamente o porquê. Mas certamente, um trauma não pede permissão para se manifestar. Simplesmente o faz e ponto. No grego antigo, o significado original de "trauma" indica não apenas a lesão em si, a "ferida", mas também "o evento impetuoso que a produz".

Francisco é um evento impetuoso, tanto para a Igreja, assolada desde seus alicerces por um torpor anestésico caro ao poder do "reino dos homens", quanto para o mundo, que mais uma vez se tornou algo a ser atravessado e transformado "materialmente", e não simplesmente aceito passivamente, confiando em um reconfortante perdão final.

O "trauma", portanto, não passa, assim como Francisco não passa. Em seu funeral, observei o grupo de figuras poderosas que estava ao lado do caixão, na praça em frente à Basílica de São Pedro. Imaginei, ao observar seus rostos e biografias, que muitos deviam estar pensando tê-lo "finalmente enterrado". Estavam todos lá. Aqueles que o definiram como "comunista imundo", aqueles que o pintaram como um "usurpador", um "anticristo", o "demônio". E até mesmo aqueles que "zombaram gentilmente dele", como convém a um personagem meio ridículo, que fala de coisas que não existem, ingênuo e exagerado.

Estavam aqueles segundo os quais os papas e todos os homens e mulheres da Igreja "falam de almas, não de política" — uma fórmula também usada recentemente para tentar neutralizar as tomadas de posição do Papa Leão contra a guerra e o punhado de tiranos que a usam para devastar o mundo.

Todos, eu pensei, de qualquer forma "traumatizados" com sua passagem. Mas o trauma não tem apenas as características do imprevisto incontrolável de um instante: o trauma se molda sobre aquilo que afeta, muda forma e natureza, torna-se presença dissolvida no ar e nas consciências, num tempo que já não se consegue mais nem mesmo medir. O trauma Francisco se coloca no tempo que não existe, como diz Santo Agostinho. Francisco é, e será. Tive o privilégio, realmente grande, de conhecê-lo. Ele me concedeu o dom de me permitir participar do Sínodo, e quando lhe perguntei se não era "demais", considerando minha biografia — pedi ao padre Mattia que lhe enviasse toda a coletânea de reportagens, desde antes do G8 até os dias atuais, que me dizia respeito —, ele respondeu com uma mensagem que ainda guardo, escrita à mão como sempre, não apenas confirmando a escolha, mas usando palavras incríveis para justificá-la.

Durante anos, com ele e com o padre Mattia, vivi um Evangelho em que "imanência e transcendência" não podiam ser separadas. Sempre oração e ação concreta. Uma para alimentar a outra.

Como buscamos dentro de nós mesmos as razões, o sentido da nossa existência no mundo? E como ajudar a escapar de um campo de concentração líbio aquele irmão, aquela irmã, torturados e estuprados com a cumplicidade do governo italiano? Como acostumar as nossas almas, as nossas consciências, a lidar com a fragilidade humana mesmo quando parece que podemos tocar o céu com um dedo? E como dar apoio aos navios de socorro civil no mar, contra toda tentativa de criminalização realizada por instituições que organizam a omissão de socorro como uma forma para barrar a entrada de mulheres, homens e crianças? Com Francisco, vivi a vida plenamente, entre inspiração e conspiração para o bem, entre fragilidade e desafio ao poder do "reino dos homens". Viver assim, graças a ele, me proporcionou a maior demonstração de como o espiritual e o material são inseparáveis e fazem parte de cada ser humano.

São força constituinte, oposta ao poder. Espiritual e material, encontram sua maior expressão na luta por um mundo mais justo para todos e todas, no caminho que nos faz atravessar este mundo não como turistas e nem mesmo como escravos, mas como buscadores e descobridores. A "paixão", seja ela caracterizada pela alegria, seja aquela que brota da dor profunda como a de Cristo a caminho da cruz, é o produto mais elevado da unidade de imanência e transcendência.

Francisco me ensinou isso e continua a fazê-lo. Que alegria maior pode haver do que a de ajudar um prisioneiro a escapar de um campo de concentração? Que alegria maior pode nos acontecer do que a de abraçar um irmão ou irmã perseguidos, condenados à morte por "um punhado de tiranos"? Que alegria maior há em reconhecer a própria infinita fragilidade, fraqueza, inferioridade em comparação aos poderosos e, precisamente por isso, desafiar as suas injustiças e maldades? "O mal", dizia Madeleine Debreil, e conversei muito sobre isso com Francisco, é "a ausência do bem". Combate-se o "mal" produzindo, organizando e conspirando pelo bem. Cuidado, socorro, proteção: práticas revolucionárias neste mundo devastado por ódio, sofrimento, injustiça e desigualdade que se tornaram sistema.

É verdade, como diz o Papa Leão, que o punhado de tiranos devasta o mundo, mas uma multidão de irmãos e irmãs o mantém unido. Francisco, grande reformador por estar convencido de que a Igreja deve ser a primeira a se converter, está na origem de uma nova teologia política. Que ela saiba se libertar da "cristandade", tão fiel ao poder do "reino dos homens" quanto traidora contumaz do Evangelho, e que o cristianismo aja como “trauma” para o mundo, heresia para o poder do dinheiro e modo de vida para multidões que se recusam a se resignar. O problema não é crer ou não crer em Deus. O problema é continuar buscando. E Francisco caminha conosco.

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