"O conflito de Trump com a Igreja nasce da ignorância. O Vaticano responde com a influência moral". Entrevista com Javier Cercas

Foto: The White House

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23 Abril 2026

"O Papa Leão XIV tem uma visão em continuidade com a de Francisco, que por sua vez era muito mais semelhante a Bento XVI do que se imagina." O escritor Javier Cercas, 64, vencedor do Prêmio Internacional Costa Esmeralda, fala sobre os bastidores de seu livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" (Record), com no qual viu as portas do Vaticano serem abertas para ele pelo antigo pontífice.

A entrevista é de Francesco Rigatelli, publicada por La Stampa, 20-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Como enquadra o conflito entre o atual Papa e Trump?

O presidente estadunidense desconta sua raiva em todos porque, na visão dele, são mais fracos do que ele. Ele não entende a força da Igreja porque ignora sua história, que abrange dois mil anos. Vance me parece mais prudente. Washington, além disso, ignora o fato de que o Vaticano não tem um exército e seu poder reside na influência moral. É um exagero considerá-lo um ator no jogo. O Papa pode intervir com palavras, e na minha opinião está certo, mas se ele disser 'chega de guerras', os conflitos não acabam.

Vê alguma diferença entre este Papa e o anterior em termos de atitude em relação aos EUA?

Substancialmente não. É claro que Francisco teria se manifestado contra Trump imediata e diretamente. Leão XIV mantém uma postura mais matizada. A diferença entre os dois papas reside apenas na forma. Talvez Leão XIV seja menos incisivo na comunicação, mas ambos desejam retornar ao cristianismo de Cristo. A essência do meu livro é que a Igreja quer voltar a ser mais cristã. A história do cristianismo, por outro lado, é uma história de perversão do cristianismo. Cristo era um revolucionário. Hoje, o catolicismo se aburguesou, então as pessoas buscam o budismo, até irem à Mongólia e perceberem que essa também é uma religião burguesa, muito prática e pouco espiritual.

Quando esse retorno às origens acontecerá?

Começou com Francisco, que queria uma ruptura, buscou-a e sacudiu a Igreja. Leão continua no mesmo caminho de missionário, mas buscando reunir as diversas almas. Não pode ser um projeto de um único papa, mas de uma série. Trata-se de uma mudança longa e decisiva, iniciada por Bento XVI com seu estilo. Cada país, além disso, tem sua própria igreja. A Espanha é muito reacionária. Os EUA também. A África, menos. No centro, o Vaticano é, acima de tudo, um símbolo.

Hoje vivemos num mundo sem Deus, como previu Nietzsche. A ciência e a tecnologia lhe tiraram o sentido. No Vaticano, encontrei grandes surpresas a esse respeito, por exemplo, muitas ideias anticlericais.” Você escreveria um romance sobre Trump?

Não sei. Literatura não é jornalismo, embora o romance possa usar todos os gêneros, como história e jornalismo. Mas eu não escrevo livros de história; sempre falo sobre o presente. O passado faz parte do presente e, sem ele, o presente fica mutilado.

Enquanto isso, o bilionário estadunidense Peter Thiel teoriza sobre o apocalipse. O que pensa disso?

Basicamente, ele diz que o Vaticano é o diabo. Todos em Roma riem dele. Li seu livro e é um delírio. Ele não é estúpido, apenas um lunático egolátrico. Nem é o primeiro, mas tem muito dinheiro e pode vir a Roma para falar.

Qual sua opinião sobre a postura do presidente Pedro Sánchez em relação aos EUA?

Serve para ele, mas também é correta. Gosto que os políticos façam o que é certo. Não se pode ser contra a guerra na Ucrânia e a favor da guerra no Irã. É verdade que existe um regime terrível no Irã, mas não é o caminho certo. Sánchez tem menos poder que Meloni, a Espanha é menos forte economicamente que a Itália, mas defende melhor o direito internacional.

Livro "O Louco de Deus no Fim do Mundo", de Javier Cercas (Editora Random House, 2025).

Você é socialista?

Votei em Sánchez duas vezes, mas não me casei com ele. O principal motivo é que apoio a utopia razoável de uma Europa federal e sou contra aqueles que querem destruir esse sonho difícil, mas necessário. Hoje também fala a esse respeito Draghi, que é um sonhador muito pragmático. É claro que reconheço que a economia espanhola está indo bem nos grandes números, mas não nas pequenas coisas, e há, por exemplo, um grande problema habitacional. Um governo de esquerda deveria redistribuir melhor o bem-estar.

Como vê a situação em Gaza?

O ataque inicial do Hamas foi terrível, depois Israel teve um comportamento totalmente desproporcional e não o está mudando. Não sei se genocídio é o termo jurídico correto, mas sei que há grandes massacres, como no Sudão e no Haiti, sobre os quais se fala bem pouco. Não basta dizer não à guerra como Sánchez faz, porque também há guerras que precisam ser travadas, como foi a Guerra Civil Espanhola. Todos somos contra a guerra, mas, na prática, como impedi-las de existir? O regime de Franco, por exemplo, não foi de paz, mas de guerra por outros meios.

Qual o papel que você vê para os intelectuais hoje?

Uma catástrofe. Eles não têm coragem de se expor para não prejudicar suas carreiras e não criar inimigos. Se você diz a verdade, imediatamente se torna impopular, porque as pessoas não querem ouvi-la. Eu vivo numa torre de marfim quando escrevo, mas depois sou um cidadão e saio. Um escritor que diz 'sou um intelectual' é um idiota. Eu sou um cidadão e falo como tal: a política não deve ser feita apenas pelos políticos.

Então você não é apocalíptico?

Não, ainda existem pessoas que leem, que querem aprender, que não aceitam ser ignorantes. Meu filho de 31 anos é melhor do que eu em muitos aspectos, o mundo está mudando positivamente em muitos sentidos: basta pensar na consciência feminina ou na consciência ecológica, que não existiam antes. Obviamente, existem contrarrevoluções, mas sempre foi assim. O passado parece melhor porque éramos jovens e somos vaidosos, mas é falso. Reclamamos muito das redes sociais, mas o problema é que as deixamos nas mãos de bandidos que as transformaram no negócio do século. Todas as inovações têm um lado bom.

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