O Papa Leão viaja para a África, o continente ensanguentado e esquecido, mas “pulmão” para a Igreja

Papa Leão XIV saúda pessoas reunidas no sítio arqueológico de Hipona em Annaba, Argélia | Foto: Vatican Media

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15 Abril 2026

"Argélia, Angola, Camarões e Guiné Equatorial são os países que receberão o pontífice em sua primeira "missão" africana. O continente há décadas vem sendo uma prioridade para a Santa Sé: 47 viagens papais incluíram etapas na África — desde a primeira de Paulo VI até a de Leão XIV.", escreve Giovanni Maria Vian, jornalista italiano, em artigo publicado por Domani, 12-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Em um contexto internacional obscurecido por guerras, o Papa Leão embarca em sua primeira viagem à África, um itinerário que cobre metade do continente de 13 a 23 de abril, visitando quatro países: Argélia, Angola, Camarões e a pequena Guiné Equatorial. A África está devastada por conflitos brutais, em grande parte ignorados pela mídia internacional, que apenas ocasionalmente os noticia. Uma vigília de oração presidida pelo pontífice pela paz foi realizada no Vaticano poucas horas antes de sua partida.

No entanto, esta será a primeira vez apenas para a Argélia. Os outros países que receberão Prevost nos próximos dias já acolheram seus três antecessores, e as viagens papais à África – da primeira de Paulo VI à de Leão XIV – somam 47. Wojtyła realizou 38 delas, mais de um terço de seus 104 itinerários internacionais: viagens que muitas vezes duravam dias e dias, colocando à prova a comitiva e os jornalistas, até mesmo na savana e com muita improvisação, a ponto de o organizador, o jesuíta Roberto Tucci, costumar dizer com ironia que o programa das viagens só podia ser confirmado no final. O primeiro foi Montini.

Essas estatísticas não deveriam surpreender, pois a África é uma prioridade para a Santa Sé há pelo menos setenta anos. Antes de João Paulo II, "o Africano", Montini foi o primeiro cardeal europeu a viajar pelo continente, que se emancipava do colonialismo: no verão de 1962, ele passou pelo Sudão, Quênia e Congo, antes de passar três semanas na Rodésia, África do Sul, Nigéria e Gana. Em um subúrbio de Soweto, o prelado abençoou a pedra fundamental da igreja de Maria Regina Mundi, a igreja que, quinze anos depois, se tornaria um símbolo da luta contra o apartheid do regime segregacionista branco.

A viagem à África foi uma experiência que o Arcebispo de Milão chamou de "sagrada e impressionante", descrevendo-a como "um sopro do Espírito Santo nos corações dos povos, que acreditávamos serem refratários ao Reino de Deus". Eleito papa poucos meses mais tarde, Montini a recorda no início do motu proprio Africae Terrarum, uma longa mensagem que dirigiu aos bispos e povos do continente em 1967.

"Desde então, a voz dos povos africanos, semelhante àquela ouvida em sonho por São Paulo enquanto estava em Trôade, continua a ressoar em nosso espírito: ‘Vinde depressa, socorrei-nos!'", escreveu o pontífice. E a referência é ao capítulo dezesseis dos Atos dos Apóstolos, que registra a passagem das missões do apóstolo pela Europa. No documento, Paulo VI afirma que "o fundamento constante e geral da tradição africana é a visão espiritual da vida". Não se trata simplesmente de animismo, mas de "uma concepção mais profunda, mais ampla e universal, segundo a qual todos os seres e a própria natureza visível são considerados ligados ao mundo invisível e espiritual", especifica Montini.

A mensagem foi o prelúdio da primeira visita papal à África, em Uganda, em 1969. Uma "viagem rápida" carregada de significado. Perante o parlamento de Kampala, o pontífice falou dos problemas do continente: conflitos, refugiados, neocolonialismo, racismo; chagas que ainda hoje não foram curadas. Depois, após homenagear os mártires ugandeses canonizados cinco anos antes e visitar o mausoléu dos anglicanos, ele garantiu que nada deseja mais do que "promover o que vocês são: cristãos e africanos". Vocês, africanos, "são agora missionários de si mesmos", enfatizou o papa em inglês.

Justamente para uma diocese ugandesa havia sido ordenado em 1939 o primeiro bispo católico africano de rito latino. No entanto, levaria vinte anos para que a indigenização da Igreja realmente começasse, embora já em 1864 o missionário italiano Daniele Comboni tivesse clamado por uma "regeneração da África com a própria África".

Desde o início da década de 1960, coincidindo com a descolonização de quase todo o continente, o número do clero autóctone aumentou em todas as igrejas cristãs, nem sempre impecável. Hoje, os católicos africanos somam 281 milhões — 20% de toda a população — e estão crescendo mais do que em outros continentes, a uma taxa entre oito e nove milhões por ano.

Relações diretas

A viagem do Papa Montini à África antecipou aquelas de seus sucessores e abordou as perspectivas do cristianismo que estava amadurecendo no continente, entre limites e originalidades. Se em 1960, em Kinshasa, no então Congo Belga, começavam os debates sobre a possibilidade de uma teologia africana, em 2006 foi publicado em Nairóbi um Comentário da Bíblia Africana.

Mais de duzentos bispos africanos reuniram-se no Vaticano em 1994 para o primeiro sínodo especial sobre o continente. O segundo foi realizado em 2009, aberto por Bento XVI. Extremamente atento às culturas não europeias, Ratzinger via a África como um imenso pulmão espiritual "para uma humanidade que parece estar em crise de fé e esperança". Com sua franqueza habitual, porém, o pontífice falou de duas doenças que "a corroem": o materialismo prático, fruto de um novo colonialismo, e o fundamentalismo religioso, "misturado com interesses políticos e econômicos" e difundido "em nome de Deus, mas segundo uma lógica oposta àquela divina, ou seja, ensinando e praticando não o amor e o respeito pela liberdade, mas a intolerância e a violência".

Seu sucessor, Francisco, escolheu sua primeira viagem à África, no final de novembro de 2015, para relançar do Quênia seu documento social de maior sucesso, a encíclica Laudato si', sobre a proteção da criação, e a catedral de Bangui, capital da República Centro-Africana, para inaugurar um Ano Santo extraordinário. Congo e Sudão do Sul, dilacerados por longos conflitos, são por fim os destinos da quinta viagem de Bergoglio ao continente em 2023.

A viagem de Prevost

Leão XIV como Prior Geral dos Agostinianos visitou diversos países africanos, incluindo a Argélia, e ele retorna agora como Papa, iniciando sua viagem sob a égide de seu santo predileto, que morreu em 430 em Hipona (atual Annaba), a antiga cidade cujas ruínas ele voltará a visitar. Em um clima tenso devido à situação interna e às tensões com a França, o Papa também lembrará os mártires da Argélia, mortos na década de 1990 e beatificados em 2018 em Argel pelo Cardeal Becciu, prefeito da Cúria para as Causas dos Santos.

Nessa primeira etapa, Prevost se concentra em vinte séculos de África cristã, desde a proclamação do Evangelho em Alexandria, na sequência realizada por gigantes como Clemente e Orígenes, até o testemunho ardente de Charles de Foucauld, o "irmão universal" assassinado em 1916 em Tamanrasset, no deserto argelino. Dois milênios de legado inestimável, pois foi da África romana que chegaram à Europa as primeiras traduções latinas da Bíblia e a teologia de Tertuliano, Cipriano e Agostinho.

Entre 189 e 496, três africanos foram bispos de Roma (Vítor I, Melquíades e Gelásio I). Outros dois papas, porém, são apenas imaginados em romances visionários: o Francisco I ítalo-congolês de Piero Imberciadori, em 1966, e o Melquíades II zairense de Philippe Le Guillou, em 1987, num cenário que antecipa o atual.

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