Três anos de massacres, estupros e fome: Sudão sem trégua

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18 Abril 2026

Três anos após o início do conflito, que começou em 15 de abril de 2023, o Sudão mergulhou em uma devastadora crise humanitária, marcada por violência generalizada, massacres e sofrimento extremo.

A informação é de Stefano Mauro, publicado por Il Manifesto, 16-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Aquela que é definida como a "guerra dos generais" gerou "a pior crise alimentar e a mais grave crise de deslocamento do mundo", enquanto as duas principais facções militares continuam a lutar entre si: de um lado, as Forças Armadas do Sudão (FAS), lideradas pelo General Abdel Fattah al-Burhan, e do outro, as Forças de Apoio Rápido (RSF), sob o comando do General Mohammed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemeti.

Mais de 29 milhões de pessoas — mais da metade da população total — vivem em "condições de insegurança alimentar aguda". A situação é agravada pelo fato de que duas das três carestias oficialmente declaradas em nível global em 2025 estão justamente no Sudão, nas áreas de El Fasher e Kadugli, enquanto outras regiões correm o risco de cair em breve na mesma situação.

Ao mesmo tempo, o conflito desencadeou a maior emergência de deslocamento global: quase 14 milhões de pessoas abandonaram as suas casas, somando deslocados internos e refugiados em países vizinhos. As famílias são muitas vezes forçadas a se mudar várias vezes, perdendo o acesso a alimentos, água e cuidados de saúde. As crianças estão pagando o preço mais alto.

"Muitas crianças foram deslocadas não uma, mas várias vezes, e a violência as persegue onde quer que fujam. Milhões correm o risco de estupro. Por trás de cada número, há uma criança assustada, faminta e doente, perguntando-se por que o mundo não vem em sua ajuda", declarou recentemente Ricardo Pires, porta-voz do UNICEF, a agência das Nações Unidas. Mulheres e meninas são vítimas de violência sexual endêmica. Famílias chefiadas por mulheres têm três vezes mais probabilidade de sofrer de insegurança alimentar, e 75% delas relatam "não ter o suficiente para comer e ter sofrido violências".

Essa guerra transformou o Sudão em um "epicentro global do sofrimento humano", declarou o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, que denunciou "o desinteresse mundial por um conflito esquecido".

Apesar dos "fracos apelos da comunidade internacional por um cessar-fogo humanitário", os dois lados continuam lutando incessantemente. Nos últimos meses, o epicentro do conflito deslocou-se do Darfur para a região de Kordofan, rica em hidrocarbonetos e importante entroncamento para a região central. Seguiram-se notícias de novos massacres em El Obeid, Bara e Dilling, juntamente com ataques de drones das RSF contra infraestrutura civil, centrais de energia, escolas e hospitais.

O mundo ficou horrorizado com esses "métodos brutais", como ocorreu em outubro passado, quando milicianos das RSF conquistaram a cidade de El Fasher, no Darfur. Eles agora são acusados de "crimes de guerra" pelas Nações Unidas: de acordo com um relatório do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, seis mil pessoas foram brutalmente assassinadas em menos de uma semana.

O estupro também é usado como "arma de guerra", segundo um relatório recente publicado pela organização Médicos Sem Fronteiras, com um número aproximado de mais de "180 mil vítimas desde o início do conflito".

Soma-se a isso o colapso das infraestruturas: aproximadamente 80% das instalações de saúde e 60% dos sistemas de abastecimento de água não estão mais funcionando nas áreas de conflito. Apesar da gravidade da situação, a resposta humanitária continua dramaticamente subfinanciada: apenas 16% dos 2,87 bilhões de dólares necessários foram cobertos até o momento, enquanto obstáculos ligados à segurança e à burocracia continuam a limitar o acesso às ajudas.

O Exército Sudanês afirma que continuará "a guerra até que os paramilitares das Forças de Apoio Rápido sejam erradicadas", enquanto os milicianos de Dagalo atualmente controlam toda a região do Darfur e grandes áreas do Kordofan, no sul e oeste do país. O processo de Jeddah, o único aceito pelas forças governamentais, previa que as RSF "depusessem as armas e se retirassem das cidades", uma condição que nunca foi respeitada.

A ação do chamado Quad — composto pelos Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Egito e Arábia Saudita — também parece ter pouca credibilidade, principalmente devido à presença dos Emirados, acusados de apoiar militarmente as RSF e, portanto, considerados não "imparciais". Cada facção é apoiada por potências regionais: os Emirados Árabes Unidos, a Cirenaica Líbia de Haftar e, mais recentemente, a Etiópia fornecem suporte logístico e armamentos às RSF; enquanto o Egito, a Arábia Saudita e a Rússia apoiam os militares de Al-Burhan.

"O Sudão está passando por uma emergência humanitária de proporções alarmantes", declarou Tom Fletcher, Subsecretário-Geral do OCHA (Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários). "Estamos cientes da impossibilidade de se alcançar um cessar-fogo, mas o que pedimos é, pelo menos, o acesso para as ajudas humanitárias à população civil, no limite de sua resistência."

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