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18 Abril 2026

Afeganistão, Burkina Faso, Burundi, Chade, Eritreia, Guiné-Bissau, Haiti, Lesoto, Libéria, Madagascar, Malawi, Mali, Moçambique, Níger, República Centro-Africana, República Democrática do Congo (RDC), Somália, Sudão do Sul, Sudão e Iêmen. São os "Last 20": os vinte países com o menor produto interno bruto (PIB) per capita em paridade do poder de compra (PPC): um indicador fundamental, ainda que parcial, para avaliar os padrões de vida. Seu empobrecimento é resultado de uma crise multifatorial: conflitos, impactos climáticos, degradação ambiental, extrativismo predatório, terrorismo e má governança. Alguns, principalmente a RDC, estão vivenciando o fenômeno da "maldição dos recursos".

A reportagem é de Marinella Correggia, publicada por il Manifesto, 16-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O relatório "Last Twenty 2025", editado pela associação italiana Last20 Aps e publicado anualmente pela Città del Sole, é dedicado a esse grupo de nações e povos. A primeira parte, redigida por Ugo Melchionda (secretário da associação), contém diversas seções estatísticas — dimensões econômicas e financeiras, mudanças climáticas e seus impactos, dinâmicas demográficas, índice de desenvolvimento humano, conflitos e governança, mobilidade humana — com análises e recomendações. A segunda parte apresenta contribuições de especialistas, membros da diáspora e operadores. Segundo a Last20, abordar os fatores de crise nesses epicentros em nível global é um "imperativo político do século XXI".

Contudo, até mesmo a desnutrição de 190 milhões de crianças menores de cinco anos e de 673 milhões de pessoas no total tornou-se "invisível", escreve Tonino Perna, presidente da Last20 Aps, que identifica dois flagelos principais: conflitos armados e eventos extremos ligados às mudanças climáticas.

A fome, combatida e vencida em outros países, é o sinal de uma pobreza multidimensional (índice MPI) que afeta a saúde, a educação e os padrões de vida; o primado cabe ao Níger, onde 90,5% da população vive na pobreza. Os países do L20 são certamente multifacetados e estão em constante evolução: por exemplo, o acesso à água potável, comparado a 2005, revela casos de progresso (especialmente em Moçambique, Guiné-Bissau e Mali) e casos de retrocesso (Iêmen). O acesso à eletricidade é inferior a 20% em vários países do L20 (Sudão do Sul, Burundi, Chade e República Democrática do Congo). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que resume três dimensões — expectativa de vida, anos de escolaridade e renda per capita — revela uma profunda disparidade, especialmente em comparação com o G20. Além disso, esses países têm um PIB per capita mais de 20 vezes superior ao dos países do L20.

Entre o L20 e o G20, a questão climática também revela uma disparidade sistemática. Trata-se de uma injustiça agora reconhecida. A proporção entre as emissões per capita de gases de efeito estufa dos países do L20 e do G20 é de 1 para 33, contudo, os países menos responsáveis (mesmo historicamente) sofrem os maiores impactos. O climatologista do CNR, Antonello Pasini, após lembrar que 2023, 2024 e 2025 foram os três anos mais quentes da série histórica disponível desde a segunda metade do século XX, explica que os 17 países africanos do L20 e o Iêmen (onde a crise hídrica é total) estão sentindo os efeitos do aumento das temperaturas médias, já próximas do limiar de tolerância fisiológica ao calor e à umidade, de modo que uma pequena variação pode causar problemas muito graves. Além disso, a estação chuvosa está se encurtando e as precipitações estão se tornando mais violentas. No Afeganistão (o único país a estar, ainda que ligeiramente, acima da zona tropical), o ar quente e seco da Península Arábica provoca ondas de calor e secas cada vez mais severas (com pico em 2025), comprometendo as atividades agrícolas e a disponibilidade de água. O Haiti está sofrendo com furacões cada vez mais destrutivos, uma vulnerabilidade ecológica agravada pelo desmatamento extremo e pela degradação do solo.

Quinze países do grupo L20 ocupam a última posição no mundo em capacidade de adaptação climática. Os fatores de vulnerabilidade são diversificados (Nd-Gain Country Index). Em alguns países, o impacto devastador da crise ambiental e dos conflitos se retroalimenta. A perspectiva para as próximas décadas é preocupante se o cenário atual persistir: de 200 a 500 milhões de pessoas poderão ser forçadas a se deslocar para outros locais devido à inabitabilidade, e os custos econômicos cumulativos do impacto climático poderiam equivaler a 50-100% do PIB num período de 20 anos. Os esforços locais devem ser apoiados por intervenções internacionais coordenadas, em diferentes horizontes temporais, desde a emergência até a mudança estrutural. Os fundos necessários podem exigir novos instrumentos fiscais, como os protocolos para a conversão da dívida em ações para a adaptação e aumento da precificação do carbono em países com altas emissões.

Quanto à apropriação de terras, afeta principalmente os países do L20 com grandes recursos naturais a serem explorados. Os projetos abandonados representam 50% do

total, devido ao risco-país ou a protestos das comunidades locais. Mas — e o caso do Congo é emblemático — os apetites mundiais por solo e subsolo geram ciclos viciosos com a destruição ambiental (é de março de 2026 um estudo da ONG congolesa Afrewatch, sobre o desmatamento em Katanga ligado à economia da mineração) e com os conflitos armados.

Os conflitos, outro fator-chave nos L20, têm três causas recorrentes. Colapso estatal, com o Sudão como caso extremo (e uma das piores crises humanitárias do mundo; e o comércio clandestino de ouro como linfa vital do conflito), e o Haiti, com as gangues criminosas que controlam partes da capital e grande parte do país. As insurgências jihadistas no Sahel, Somália e Moçambique. As emergências crônicas, como na RDC (minerais de conflito) e no Iêmen.

Entre as muitas consequências, foram gerados 16,5 milhões de refugiados, 40,3 milhões de deslocados internos e 4,3 milhões de refugiados acolhidos (+315% desde 2005): um peso insustentável para os países pobres, que acolhem quase a metade do número de refugiados em comparação com a média dos G20. O que pode ser feito? Além do trabalho para a prevenção sistêmica dos conflitos e do enfrentamento de suas causas econômicas (corrida aos recursos) e sociais, novos paradigmas são necessários para a proteção e integração das populações deslocadas.

Uma "tempestade perfeita" também se intensifica no Sahel: o grande aumento demográfico se choca com a desertificação e a disseminação do jihadismo. No Níger, o tempo de duplicação da população é inferior a 19 anos — um aumento de um milhão de pessoas por ano. Na totalidade dos 20 países do L20, em nítido contraste com o G20, a população cresceu 80% desde 2005; em situações extremamente problemáticas, entre crises ambientais, conflitos e empobrecimento, o tempo médio de duplicação da população é de apenas 28 anos. A "armadilha da alta fertilidade" persiste, resultado de uma combinação de fatores estruturais: casamentos precoces, níveis extremamente baixos de escolaridade feminina, acesso praticamente nulo a contraceptivos e alta mortalidade infantil, o que impulsiona tentativas de "sobrecompensação". A expectativa de vida ao nascer é uma desigualdade fundamental entre os países do L20 e o G20. Além da pressão sobre os ecossistemas, o relatório enfatiza que "em uma única geração, os Last 20 terão que duplicar todos os recursos e infraestruturas: escolas, hospitais, moradias, postos de trabalho e produção de alimentos". Controlar o crescimento populacional não é uma prioridade nesses países, onde outras emergências são mais

urgentes. No entanto, para não alimentar ciclos viciosos de pobreza, fragilidade e instabilidade social, são necessários investimentos focados numa redução sustentada da fecundidade e da mortalidade, por meio de políticas eficazes nas áreas de educação, especialmente para mulheres, saúde — particularmente saúde infantil —, saúde reprodutiva e igualdade de gênero. E oportunidades econômicas para os 200 milhões de jovens africanos que entrarão no mercado de trabalho até 2030.

O investimento necessário, nessa e em outras frentes, representa uma fração dos gastos militares globais, resume o relatório. E "o custo da inação — medido em vidas perdidas, potencial desperdiçado e instabilidade global — será infinitamente maior do que os investimentos necessários hoje". Os países dos Last 20 ainda sofrem com o peso da dívida externa, mas também têm seu potencial financeiro subestimado; a prioridade é construir uma infraestrutura capaz de transformar a resiliência em desenvolvimento.

O relatório "Last Twenty 2025" interpela a todos. Os realizadores explicam: "É uma ferramenta de conhecimento e propostas, mas requer que as redes sociais contra a guerra, o colonialismo e as mudanças climáticas a assumam, as desenvolvam e as tornem objeto de mobilização". Não as deixemos apenas no papel.

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