17 Abril 2026
A família social-democrata está reunindo em Barcelona figuras internacionais de destaque da política e da sociedade civil para aprimorar sua estratégia em um momento marcado pela ascensão da extrema-direita.
A reportagem é de Andrea Rizzi e Àngels Piñol, publicada por El País, 17-04-2026.
O movimento progressista planeja uma grande conferência internacional nesta sexta e sábado em Barcelona, com o objetivo de revitalizar seu projeto em uma era marcada pela ascensão de forças nacionalistas e de extrema-direita. O evento — denominado Mobilização Progressista Global — reunirá representantes de partidos políticos, sindicatos, academia e organizações da sociedade civil de dezenas de países para promover a adaptação dos ideais social-democratas a uma nova fase política, fomentar sinergias entre movimentos por vezes fragmentados e reacender o entusiasmo político após um período desafiador. A conferência ocorrerá simultaneamente à quarta cúpula em defesa da democracia — que deverá contar com a presença de cerca de vinte governos — e à primeira cúpula governamental bilateral entre Espanha e Brasil, cujos líderes, Pedro Sánchez e Luiz Inácio Lula da Silva, são os principais articuladores da iniciativa e têm discursos agendados na cúpula.
A família progressista atravessou nos últimos anos uma fase de considerável dificuldade política, marcada, entre outros fatores, pela perda de apoio entre as classes populares das democracias mais prósperas do hemisfério norte — que buscaram proteção na proposta nacional-populista diante de queixas econômicas, sociais ou identitárias — e entre as classes populares das democracias latino-americanas — que fizeram o mesmo diante de queixas frequentemente ligadas ao aumento da insegurança ou a outras falhas na gestão da dimensão pública.
A ascensão correspondente de forças nacionalistas, que em muitos casos se adaptaram melhor ao espírito da época, provocou grandes convulsões no cenário global. Em sua forma mais aguda, personificada no mundo democrático por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, está desmantelando a ordem internacional e desencadeando violência que inflige terrível sofrimento aos civis e tem sérias consequências para a economia global. Em outras formas, menos virulentas, implica a afirmação de uma agenda regressiva em relação aos direitos civis e à luta contra as mudanças climáticas, ou ataques a projetos supranacionais, como a saída do Reino Unido da UE. A Mobilização Progressista Global busca facilitar o aprimoramento da estratégia política para combater esses movimentos.
Nesse sentido, o programa da conferência de Barcelona demonstra um compromisso em fomentar uma reflexão ampla sobre uma vasta gama de temas, desde a defesa da democracia e de uma ordem mundial baseada em regras até a regulamentação de novas tecnologias, a coesão social, a igualdade e a proteção ambiental. A conferência buscará atingir esse objetivo com uma programação intensa de painéis que reúnem perspectivas de diversas origens geográficas e profissionais, esperando aproveitar a oportunidade política apresentada pelo declínio do trumpismo e por uma série de iniciativas políticas repudiadas por amplos segmentos da sociedade em grande parte do mundo, inclusive além do núcleo progressista.
Além de Sánchez e Lula, o encontro — promovido pelas plataformas políticas da Internacional Socialista (SI), do Partido dos Socialistas Europeus (PSE) e da Aliança Progressista (AP) — deverá contar com a presença de figuras políticas proeminentes, como David Lammy (vice-primeiro-ministro britânico), Rahul Gandhi (líder da oposição na Índia) e Elly Schlein (líder do Partido Democrático na Itália), entre muitos outros.
O papel do Barcelona
O evento posiciona Barcelona como um centro do progressismo internacional após a longa década do movimento independentista catalão, durante a qual grandes acontecimentos desapareceram da cidade. Após esse hiato, o governo catalão, liderado por Salvador Illa, tem enfatizado sua agenda internacional, tanto por meio de viagens ao exterior — o presidente visitou a China, a Coreia do Sul, o Japão e o México durante seu mandato, por exemplo — quanto pela promoção de Barcelona como a principal cidade progressista da Espanha. Illa atuará como anfitrião, recepcionando os participantes das duas cúpulas institucionais e discursando na conferência internacional no sábado. O presidente planeja realizar uma dúzia de reuniões com os participantes da conferência e da cúpula e se encontrar com, entre outros, Lula, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, e o presidente da Colômbia, Gustavo Petro.
Alinhado com Pedro Sánchez, a escolha de Barcelona também não é arbitrária, pois ideologicamente a cidade é agora mais favorável aos socialistas do que Madri e, em princípio, garante um evento sem protestos ou manifestações. Illa tem lidado com problemas internos, como a falta de orçamento — ainda não resolvida — e a agenda internacional lhe parece perfeita. “Não gostamos do que estamos vendo no mundo, com o uso descarado da força e demonstrações de desrespeito sem precedentes, com sofrimento em muitas partes do mundo e discursos de ódio”, declarou nesta quarta-feira no Parlamento catalão, ressaltando a importância do encontro.
Barcelona já sediou o 10º Fórum da União para o Mediterrâneo neste outono, que evocou o Processo de Barcelona, realizado há 30 anos para promover a paz no Oriente Médio, agora completamente interrompido pelo massacre na Palestina pelas mãos de Israel e pelo conflito armado no Irã, travado por Israel e Donald Trump. A unidade socialista se reflete não apenas na parceria entre Sánchez e Illa, mas também entre Illa e o prefeito.
Jaume Collboni, que participará do encontro, também lidera a associação europeia de prefeitos que defende a habitação social. Após o encontro de famílias progressistas, Barcelona receberá a visita do Papa Leão XIV em junho e julho, que virá abençoar a nova torre da Sagrada Família, e a largada do Tour de France.
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