15 Abril 2026
"À pergunta que amigos me fazem se tais pesquisas desacreditam a fé, respondo que é frágil a fé que se baseia em narrativas míticas e bibliográficas, e não em uma relação pessoal com Deus centrada no amor ao próximo", escreve Frei Betto.
Frei Betto é escritor, autor do romance sobre massacre indígena na Amazônia, Tom Vermelho do Verde (Rocco), entre outros livros.
Eis o artigo.
Quando criança, acreditei que todos nasciam da cegonha e presentes de Natal provinham de Papai Noel... Assim, crescemos ouvindo mitos sem saber que também as narrativas religiosas têm raízes míticas e históricas, embora sob inspiração divina.
Sabia que a fé cristã e hebraica têm raízes no Irã? Até 1527, devido ao lucrativo comércio de pau-brasil nosso país era chamado pelos invasores portugueses de Terra de Santa Cruz. E o Irã, até 1935, era conhecido com o nome de Pérsia, um exônimo, denominação que os gregos davam àquela nação. Naquele ano, o xá Reza Pahlavi mudou o nome do país para Irã, que significa “terra dos arianos”, como as várias etnias se referiam ao seu território.
A influência persa sobre os textos bíblicos aconteceu principalmente durante e após o exílio babilônico do povo hebreu, ocorrido no século VI a.C., quando o Império Persa dominava o mundo antigo. Naquele século, o reino de Judá foi invadido pelos babilônios e grande parte da população de Israel levada a força para a Babilônia, atual Iraque, então governada pelo rei Nabucodonosor II. Em 586 a.C., os babilônios destruíram Jerusalém e o Templo, edificado pelo rei Salomão, foi arrasado.
No Antigo Testamento são encontrados, no Segundo Livro dos Reis (cap. 24 e 25), o relato histórico do cerco a Jerusalém, a destruição do Templo (os cap. 5 a 7 do Primeiro Livro dos Reis descrevem a construção do Templo), a queima das casas e a deportação do povo. Vide também o cap. 36 do Segundo Livro de Crônicas.
O profeta Jeremias, que viveu durante o cerco de Jerusalém, descreve a cidade sitiada (cap. 37-39) e o exílio (40-44). O poético texto Lamentações narra a destruição de Jerusalém, o sofrimento dos habitantes e a derrubada do Templo. Dois profetas bíblicos, Ezequiel e Daniel, descrevem a vida dos hebreus no exílio. Ecos do sofrimento do povo no cativeiro ressoam nos Salmos.
O exílio só terminou quando Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia, em 539 a.C. e libertou os hebreus que, portanto, têm uma dívida de gratidão com o povo do Irã. Essa libertação está descrita na Bíblia, nos livros de Esdras e Neemias.
O contato direto entre hebreus e persas foi um evento histórico real. Após conquistar a Babilônia, Ciro permitiu que os israelitas retornassem à Judeia e reconstruíssem o Templo de Jerusalém, em 516 a.C. Este evento é celebrado na Bíblia, no livro de Isaías, onde o próprio Ciro é descrito como um libertador, ungido por Deus.
Os persas eram um povo culto e religioso. Praticavam religiões politeístas até que Zaratustra (ou Zoroastro), nascido no século VII a.C., centrou o culto em um Deus único, Ahura Mazda. Muitos pesquisadores atribuem a esta fonte persa o monoteísmo bíblico, já que descobertas arqueológicas, como inscrições em tumbas do século VIII a.C., indicam que, outrora, hebreus adoravam Javé e sua esposa Asherah, deusa cananeia da fertilidade.
Muitas noções recorrentes na Bíblia, como livre-arbítrio, juízo final, hierarquia de anjos, paraíso, inferno, ressurreição dos mortos, e a luta permanente entre o Bem e o Mal estão no livro sagrado do zoroastrismo, o Avesta. Aparece também ali a figura de um salvador universal, Saoshyant, que significa "aquele que traz benefícios". Ele ressuscitará os mortos, liderará o julgamento final e trará a imortalidade aos humanos. Restaura o mundo à sua perfeição original, sem doenças, velhice ou morte. Seria um dos três salvadores nascidos de virgens no fim dos tempos. O conceito de Saoshyant influenciou a escatologia de outras religiões, inclusive a crença no Messias no judaísmo e cristianismo.
Tais fatores motivam muitos estudiosos a investigar se o contato com a religião persa, o Zoroastrismo, teria de alguma forma influído na teologia judaica e, por sua vez, também na teologia cristã. Temas como dualidade entre bem e mal, juízo final, ressurreição dos mortos, existência de hierarquia de anjos e salvador messiânico são centrais na fé persa e tornaram-se mais proeminentes no judaísmo posterior ao exílio.
Na Bíblia hebraica mais antiga, o mal não aparece como uma força independente. Mas textos posteriores mostram um desenvolvimento maior da figura de Satanás como adversário, o que pode refletir essa visão dualista vinda dos persas.
A noção de ressurreição coletiva no fim dos tempos é pouco destacada nos textos bíblicos antigos, mas surge mais tarde, possivelmente motivada por crenças persas.
Não há consenso absoluto entre estudiosos da Bíblia sobre suas raízes persas. É constrangedor aceitá-la para quem julga que a Bíblia foi diretamente inspirada por Deus a autores hebreus e cristãos. O que a maioria concorda é que houve um diálogo cultural entre as fontes do zoroastrismo e as dos textos bíblicos. Essa adaptação de conceitos persas ao monoteísmo hebreu seria hoje qualificada de “plágio”.
À pergunta que amigos me fazem se tais pesquisas desacreditam a fé, respondo que é frágil a fé que se baseia em narrativas míticas e bibliográficas, e não em uma relação pessoal com Deus centrada no amor ao próximo.
Fontes de pesquisa
Estudiosos como Shaul Shaked, da Universidade Hebraica de Jerusalém, documentam como o aramaico - língua oficial persa - e o persa estão presentes no vocabulário e nas as ideias judaicas com exemplos de palavras de origem persa que também constam do vocabulário religioso hebraico.
A obra Persepolis and Jerusalem: Iranian Influence on the Apocalyptic Hermeneutic, de Jason M. Silverman, é uma análise aprofundada e direta sobre o tema. Investiga especificamente como a ideologia e a religião persa podem ter moldado a literatura apocalíptica judaica, que inclui livros como Daniel e Ezequiel.
Iranian Influence on Judaism: First Century B.C.E. to Second Century C.E., de Shaul Shaked, publicado pela Cambridge University Press, mapeia meticulosamente as áreas de presença linguística e conceitual entre as duas tradições religiosas.
O artigo "Creation in Collision?: Isaiah 40-48 and Zoroastrianism, Babylonian Religion and Genesis 1", de Tina D. Nilsen, foca em uma passagem específica (Isaías 40-48) para discutir se o conceito de um Deus criador único, central ao monoteísmo judaico, foi desenvolvido em diálogo com tradições persas e babilônicas.
Os outros da Bíblia: História, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no plano divino, de André Daniel Reinke, investiga as interações culturais entre os hebreus e os povos vizinhos (mesopotâmicos, egípcios, cananeus, persas, gregos e romanos). Analisa como crenças e culturas pagãs se fazem presentes na fé do antigo Israel e na própria construção da Bíblia. Ver do mesmo autor Nós e a Bíblia: História, fé e cultura do judaísmo e do cristianismo.
A Bíblia com e sem Jesus, de Amy-Jill Levine e Marc Zvi Brettler, analisa as narrativas bíblicas no seu contexto original. Compara interpretações judaicas e cristãs, e explora raízes compartilhadas com o Próximo Oriente Antigo.
O que Escondem de Você, de Ben Yahmim Gavri’el, aborda as raízes judaicas e aramaicas da Bíblia. Discute o contexto da "lei" (Torá) e a graça (Hessed) em contraste com visões ocidentais.
Leia mais
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