14 Abril 2026
O novo livro de Robert Macfarlane traz uma cilada para o leitor, mesmo antes de começar a leitura. Responde-se afirmativamente à pergunta do título: ¿Están vivos los ríos?. No entanto, quando terminamos a leitura, ficamos nos perguntando por que ainda não os reconhecemos como seres vivos, tanto em nossa imaginação quanto perante a lei. De mãos dadas com ativistas, artistas e legisladores do movimento pelos Direitos da Natureza, Macfarlane nos leva a uma jornada global para nos reencontrarmos com essa verdade esquecida.
A entrevista é de Carlos Madrid, publicada por Ethic, 13-05-2026. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.
O que precisamos para compreender que um rio está vivo?
Para mim, foram necessários quatro anos de viagens pelos rios, encontrar pessoas imersas neles e chegar a lugares onde são imaginados como seres, como sujeitos com vida, morte e direitos. Algo que, do nosso ponto de vista ocidental e pós-iluminista, nos interpela. Como digo no livro, é necessário desaprender uma série de coisas acerca da instrumentalização que fazemos dos rios e do mundo natural como recursos.
Essas ideias permeiam nossa subjetividade e instituições, então, temos muito trabalho pela frente. Em meu país, a Inglaterra, vivemos quase no extremo mais radical com um sistema de água completamente privatizado e em colapso, pois todos os rios estão feridos ou mortos pela poluição e o abandono.
O que acarreta a morte de um rio?
Nossas vidas e comunidades estão estabelecidas graças a rios vivos. Por isso, essas mesmas comunidades se fecham e morrem quando o rio morre. Nossas cidades e povos estão onde estão, muitas vezes, porque começaram a crescer junto aos rios. Hoje, há poucos saudáveis: representam 0,0002% da água do mundo e, no entanto, não reconhecemos sua fragilidade, sua raridade e sua magia.
No meu país, a crise de nossos rios tem um impacto ecológico, mas também na saúde. Já em nível social e imaginativo, não conseguimos mais nos conectar com nossos rios, nem entre nós por meio deles. Os rios passaram a se tornar impróprios para o consumo, depois já não era possível mais nadar neles e sequer tocá-los. Fizemos algo tremendamente mal. A questão é: o que fazemos a partir daqui?
O que podemos fazer?
Por exemplo, podemos imaginar outros lugares do mundo e ver que existem outras maneiras de conviver com os rios. Até mesmo de legislar para garantir que haja água fresca. Em Munique, a água da cidade se tornou uma espécie de canal com muralha e, nos anos 1990, reimaginaram a relação com ele de forma visionária: investiram milhões de euros e o libertaram. Agora, flui pela cidade, há grama ao redor e isso trouxe muita vida ao espaço e aos cidadãos. Na minha cidade, Cambridge, cujo nome significa a ponte sobre o rio Cam, o rio sempre foi muito importante, desde a época dos romanos. No entanto, agora, possui a água mais poluída de toda a Inglaterra.
Para alcançar essa mudança, que processos precisam acontecer para que os rios voltem a ser considerados seres vivos?
Às vezes, digo que precisamos de uma revolução da imaginação e da legislação. Eu conto histórias, sou escritor, trabalho com música, com filmes, e penso que todo esse trabalho de reimaginar nossa relação com os rios precisa ser feito, em parte, por meio das artes.
Também é necessário ouvir as organizações em torno deles, já que atuam como guardiãs dos rios, e legislar. Os direitos da natureza são muito importantes e, nesse sentido, a Espanha é líder com o reconhecimento, há alguns anos, da lagoa Mar Menor como personalidade jurídica. Ela serviu de inspiração para outras legislações.
Você deu o exemplo da lagoa Mar Menor, que está quase morta. Deveria haver regulamentação, antes de que se chegue a esse ponto?
Totalmente. Deveríamos trabalhar a prevenção e não a reparação. O primeiro terço do livro aborda o Equador. Lá a legislação foi aprovada em 2008 e quando as mineradoras chegaram para destruir a floresta Los Cedros e seus rios, esses artigos se tornaram a força com a qual o Tribunal Constitucional pôde evitar danos, em vez de precisar apostar na restauração depois. Quando chegamos à implementação, muitas vezes, é tarde demais.
No entanto, direi a você um último pensamento: penso que, de certo modo, não deveríamos nem estar falando de direitos e legislação, porque isso significa que perdemos o argumento moral. Isto, para mim, é evidente. Ou seja, nosso florescimento coexiste com o dos rios, então, quando eles morrem, os custos são imensos. Em todos os níveis. É pelo bem de todos que os rios precisam ter vida. Se existir vontade, é possível naturalizar um rio em 20-30 anos.
Você mencionou o Equador, onde essa constituição também foi aprovada graças à luta das culturas indígenas. Como elas podem contribuir com os rios?
As comunidades indígenas são as guardiãs de 80% da biodiversidade do mundo. Talvez até mais. Estão fazendo um trabalho extraordinário para recuperar essa vida. Também sabemos que os direitos pioneiros foram motivados por essas comunidades.
Por exemplo, foram fundamentais para a lei sobre a água da Nova Zelândia. Nela sustentaram que o rio é um ser vivente, o que foi fundamental porque colocou o ecocentrismo no coração e não nas estruturas de governança, que são totalmente antropocêntricas.
Eu viajei para o Equador, para o Canadá, e aprendi muito com suas comunidades. Também vi versões dessas ideias no meu país, com nomes diferentes, mas com o mesmo pano de fundo. Eu acredito que podemos encontrar essas ideias em muitas culturas.
Qual é a responsabilidade dos governos e das empresas por essa degradação?
Quase toda. No Reino Unido, uma empresa tem direitos garantidos. Ao contrário, um rio que flui há 10.000 anos não tem. Algo que, para mim, é radicalmente errôneo. Igualmente, eu não quero que os rios tenham os mesmos direitos que uma corporação; o que eu quero é que sua vida seja reconhecida. Depois, vem toda a questão das externalidades, ou seja, que o balanço de uma empresa não mostra o dano causado aos rios. No entanto, deveria incluir tudo o que entra no sistema de esgoto, porque, caso contrário, os custos do que causam se tornam invisíveis.
Karl Marx fala do presente da natureza para o capital. Na verdade, estamos gastando esse presente desde que o capital existe, mas, agora, na coluna do ‘deve’ a quantidade teria de ser enorme. Para ser um pouco mais preciso, eu diria que a privatização no meu país se traduziu em 80 bilhões de libras pagas pelos contribuintes e mais do que o dobro em prejuízo. Por mais de 30 anos, extraiu-se o ativo desses rios e agora o dinheiro está em bancos que não vamos recuperar. Eu gostaria de acreditar que aquilo que foi privatizado na Inglaterra um dia se tornará público e que as empresas irão pagar por isso.
Como seria uma boa gestão ou transição em países onde a água é um recurso estratégico?
Podemos olhar para o Japão. Lá existe uma lei da água, aprovada no final do século XIX, que a reconhece como um bem comum, portanto, não pode ser privatizada. Estamos falando de uma ilha muito povoada que tem um sistema de água que reconhece a necessidade de que desempenhe suas funções, mas também que é um bem comum. A população tem um nível de satisfação muito alto em relação à forma como se administra.
Na Espanha, vocês enfrentam uma situação difícil devido à seca no sul e às inundações catastróficas, então, podemos pensar em seus rios como fantasmas ou monstros. Nosso destino flui com os rios, e sempre será assim. Portanto, não devemos confiná-los, abandoná-los ou eliminá-los; pensar nisso é pensar em um futuro não vivível.
Além dos rios, no livro você expande a ideia para a natureza.
O livro não só nos pede que reimaginemos os rios, mas também a vida. Para mim, "rio" é um verbo. Assim como a palavra "vida". Não somos unidades isoladas; tudo flui e tudo está em relação. Por isso, o fato de nos reconhecermos como um elemento entrelaçado a tudo o que existe e não como o cume da pirâmide, é fundamental.
O mundo é uma soma de diversidade rica e complexa, e nós, humanos, somos simplesmente uma parte desse tecido. Os cogumelos, por exemplo, nos mostram que tudo está interligado. Eu queria me afastar de uma gramática mais convencional para me dirigir a uma da animacidade, desse poder da vida.
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