Clima. A megacorrente do Atlântico dá sinais preocupantes de enfraquecimento

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14 Abril 2026

Um novo estudo sugere que a corrente oceânica AMOC está enfraquecendo. Crucial para a regulação do clima e os invernos amenos na França, seu colapso teria efeitos “devastadores e irreversíveis” para muitos países.

A reportagem é de Hortense Chauvin, publicada por Reporterre, 13-04-2026. A tradução é do Cepat.

Está a AMOC, esse vasto sistema de correntes oceânicas que atua como regulador climático, enfraquecendo em algumas áreas? É o que sugerem os resultados de um estudo realizado por uma equipe internacional de oceanógrafos e publicado no dia 8 de abril na revista Science Advances.

Há vários anos, a comunidade científica está preocupada com o futuro da AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) no contexto das mudanças climáticas. Essa circulação oceânica – à qual pertence a famosa Corrente do Golfo – forma um gigantesco circuito que se estende por toda a bacia do Atlântico, transportando aproximadamente 18 milhões de metros cúbicos de água por segundo.

Às vezes comparada a uma esteira rolante, a AMOC desempenha um papel crucial na regulação do clima. Em particular, ela redistribui parte do calor recebido no Equador em direção aos polos. É graças a essa circulação, entre outras coisas, que os invernos são mais amenos em Bordeaux do que em Portland, embora ambas as cidades estejam voltadas para o oceano em latitudes semelhantes.

Sal e temperaturas

O funcionamento da AMOC depende de um fenômeno físico: quando as águas do Atlântico chegam ao sul da Groenlândia, elas esfriam. Também se tornam mais salgadas devido à evaporação e à formação de gelo marinho. A água fria e salgada é mais densa do que a água doce e quente, por isso tende a afundar. É esse mergulho em águas frias que coloca a AMOC em movimento. Elas continuam sua jornada em profundidade para o sul, onde se aquecem e depois sobem à superfície, em um ciclo interminável.

Especialistas acreditam que as mudanças climáticas podem interromper esse motor da AMOC. No entanto, devido à complexidade do fenômeno e de sua modelagem, não há consenso sobre os mecanismos em jogo, observa Florian Sévellec, diretor de pesquisa do Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica (CNRS) e do Laboratório de Oceanografia Física e Espacial da Universidade de Brest.

O enfraquecimento pode ser devido ao aquecimento das águas, ao aumento do influxo de água doce no oceano proveniente do derretimento do gelo marinho no Ártico ou das geleiras da Groenlândia… A comunidade científica também não tem certeza quanto ao prazo ou à intensidade desse enfraquecimento.

Em seu Sexto Relatório de Avaliação, publicado em 2021 e que resume o estado do conhecimento científico sobre o assunto, o IPCC estimou, com um nível de confiança “médio”, que a AMOC não entraria em colapso até 2100. Estudos recentes consideram o perigo mais iminente. Em 2023, um matemático e um estatístico estimaram, na revista Nature Communications, que a AMOC tinha 95% de probabilidade de colapsar até o final do século – uma teoria que não é universalmente aceita entre os especialistas. Um ano depois, pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul, na Austrália, estimaram que a AMOC poderia perder 30% de sua força já em 2040.

O enfraquecimento da AMOC teria efeitos “devastadores e irreversíveis” para muitos países, como apontaram cerca de 40 pesquisadores internacionais em uma recente carta aberta. Seu colapso poderia alterar drasticamente o clima da Europa, aproximando-o do clima atualmente observado no oeste do Canadá. Seus efeitos seriam sentidos em outras partes do mundo, principalmente pela interrupção das monções.

O estudo publicado há alguns dias na revista Science Advances corrobora a hipótese de que a AMOC já começou a apresentar mudanças. Baseado em dados coletados in situ desde 2000, utilizando boias posicionadas em diferentes latitudes do Oceano Atlântico, revela que a circulação enfraqueceu acentuadamente em sua borda oeste nas últimas duas décadas.

“Se tivessem mostrado que havia uma desaceleração em apenas uma latitude, mas que nada estivesse acontecendo em outros lugares, não teríamos conseguido tirar nenhuma conclusão”, explica Florian Sévellec, que não participou do estudo. “O fato de terem mostrado que há uma mudança em várias latitudes – pelo menos na face oeste – e que essa mudança é espacialmente consistente fornece mais evidências de que o sistema está mudando”.

Um “canário na mina”

Essas observações constituem, de acordo com os autores do estudo, um “canário na mina”. Embora localizada, “essa tendência de queda é interpretada como um precursor de um enfraquecimento sistêmico da AMOC”, explica a física, oceanógrafa e climatologista Sabrina Speich – que também não contribuiu para esta pesquisa – à Reporterre. A professora da École Normale Supérieure (ENS) considera este estudo “particularmente interessante”. Segundo ela, é o primeiro estudo “verdadeiramente consistente” sobre o assunto.

No entanto, ela expressa algumas reservas, principalmente em relação ao período “relativamente curto” – vinte anos – em que esses dados foram obtidos. Embora os autores tenham conseguido medir o enfraquecimento de um componente do sistema “com precisão”, “extrapolar para toda a ‘correia transportadora’ exige a integração dos fluxos do interior e das partes orientais da bacia”, afirma. Antes de afirmar com certeza que a AMOC está enfraquecendo como um todo, prossegue, “dados e séries temporais significativamente mais longos” seriam necessários.

A velocidade com que essas mudanças podem ocorrer – alguns pesquisadores falam em algumas décadas, o que é muito rápido em uma escala de tempo geológica – dificultaria qualquer tentativa de adaptação. Os danos aos ecossistemas poderiam ser muito significativos. Nossos sistemas agrícolas podem não se recuperar. Mais um motivo (se é que era necessário, dadas as muitas outras consequências dramáticas das mudanças climáticas) para reduzirmos nossas emissões de gases de efeito estufa.

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