O núncio no Pentágono, as ameaças dos EUA e a frieza com o Vaticano

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13 Abril 2026

Do discurso de Leão aos diplomatas ao pedido de esclarecimento da administração Trump: o que aconteceu?

A reportagem é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 13-04-2026.

"A guerra é necessária porque o Irã ameaça os Estados Unidos, mas usar Deus para justificá-la é errado e prejudicial." É surpreendente que isso seja dito pelo ex-embaixador americano junto à Santa Sé e ex-presidente do Partido Republicano, Jim Nicholson, pois ele reconhece, assim, as razões profundas para as divergências entre o Vaticano e o governo Trump.

O episódio mais recente foi a convocação ao Pentágono do Núncio Apostólico, Cardeal Christophe Pierre, pelo Subsecretário Elbridge Colby, que se mostrava curiosamente cético em relação aos aliados europeus, apesar de seu avô, William, um católico muito devoto, ter chefiado o escritório da CIA em Roma após a Segunda Guerra Mundial, antes de se tornar diretor da "Companhia". Pierre foi recebido em 22 de janeiro, mais de um mês antes do início da guerra no Irã, portanto seria cronologicamente incorreto conectar diretamente os dois eventos. O objetivo da reunião era discutir o discurso do Papa Leão XIV ao corpo diplomático treze dias antes. Isso, no entanto, confirma que as divergências são amplas e profundas.

Em 3 de outubro, Pierre já havia proferido uma palestra intitulada "Cultura Woke e Pós-Liberalismo: A Resposta da Doutrina Social da Igreja", que antecipava a dissonância cultural. Após destacar as limitações do fenômeno woke, o núncio criticou o movimento pós-liberal da seguinte forma: "Ele enfatiza a importância do bem comum (entendido como o bem da minha comunidade) e da chamada ordo amoris (primeiro eu, depois minha família e depois meu país, sem se preocupar muito com o destino do resto do mundo), deslizando para tentações autoritárias ou um fundamentalismo que contradiz a legítima pluralidade da vida moderna". Dessa forma, "corre o risco de explorar a religião para fins de poder". Ele, portanto, lembrou a encíclica de Francisco "Fratelli Tutti", que "adverte contra o nacionalismo exclusivo e o autoritarismo".

Em 9 de janeiro, Leão dirigiu-se a diplomatas, citando Agostinho, um dos poetas favoritos do vice-presidente Vance: "Ele alerta para os graves perigos à vida política decorrentes de deturpações da história, nacionalismo exacerbado e distorção do ideal de estadista". Em seguida, acrescentou: "Em nossa época, a fragilidade do multilateralismo é particularmente preocupante no âmbito internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e busca o consenso entre todos está sendo substituída por uma diplomacia da força, por indivíduos ou grupos de aliados. A guerra voltou à moda e um fervor bélico está se espalhando. O princípio que proibia os países de usar a força para violar as fronteiras de outros foi quebrado". Por fim, advertiu: "Foi precisamente essa atitude que levou a humanidade à tragédia da Segunda Guerra Mundial".

Treze dias depois, Pierre foi convocado ao Pentágono e, embora não haja confirmação de que Colby tenha ameaçado repetir a injustiça de Avignon imposta por Filipe IV aos papas, a conversa foi "franca". O governo argumentou que a paz se constrói pela força, um conceito difícil de conciliar com a mensagem de Jesus. Um diplomata europeu confirmou essa abordagem "si vis pacem para bellum", revelando outra história curiosa: "Alguns membros do governo me disseram que seu modelo era replicar o Império Romano, acrescentando o cristianismo. Apontei que os historiadores atribuem a queda do Império Romano ao advento do cristianismo, e eles ficaram surpresos, admitindo que não haviam pensado nisso."

A julgar pelos discursos do pontífice nos últimos dias, o apelo do Pentágono não surtiu efeito. A palavra final, porém, veio do próprio Pierre, em sua homilia na missa celebrada no sábado no Santuário Nacional da Imaculada Conceição: "O Papa Leão XIV convidou toda a Igreja a rezar para que os corações se abram novamente ao diálogo, para que a violência dê lugar à razão, para que o mundo não se entregue à lógica da destruição. É um mundo ferido pela violência, desconfiado da esperança e acostumado a esperar pela próxima ameaça. Ouvimos a linguagem da força. A destruição justificada como necessidade. Pouco a pouco, os corações podem se endurecer. Começamos a pensar que a paz é ingenuidade, que a guerra é inevitável. Mas Cristo ressuscitou. Portanto, o mundo está errado quando trata a agressão como sabedoria e a dominação como realismo. A rejeição do ódio não é fraqueza. O amor é mais forte que a morte."

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