O imperador decidido a acabar com seu império. Artigo de Jorge Majfud

Donald Trump (Fonte: Reprodução | Youtube)

Mais Lidos

  • O Pentágono ameaçou o embaixador do Papa Leão XIV com o Papado de Avignon

    LER MAIS
  • Críticas do Papa a Trump foram um passo extraordinário, afirma jesuíta

    LER MAIS
  • Segundo o economista, “80% da população vive na precariedade e, mesmo que tenha melhorado, a condição de vida ainda não está boa”

    Eleições 2026: “Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor?” Entrevista especial com Waldir Quadros

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

11 Abril 2026

“O império estadunidense, em decadência acelerada por escolha própria, arrastado pelo buraco negro do Oriente Médio, insiste em cometer suicídio, antes de enfrentar seu principal alvo: a China. Enquanto isso, a China sabe muito bem que não deve interromper o adversário quando está cometendo um erro. Menos ainda quando investe tanto em cometê-lo”, escreve Jorge Majfud, escritor uruguaio e professor da Jacksonville University, em artigo publicado por Rebelión, 10-04-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Há 2573 anos, Creso, o rico e poderoso rei da Lídia, consultou o Oráculo de Delfos sobre se deveria invadir a Pérsia, e a pitonisa lhe respondeu: “Se você atravessar o rio Hális, destruirá um grande império”. Creso atravessou o Hális, atacou a Pérsia de Ciro, mas destruiu seu próprio império.

Como já foi reconhecido por Trump, foi Netanyahu que o convenceu a atacar o Irã. Mas a pitonisa não conhece a paz. De acordo com o jornal The New York Times, no dia seguinte ao fiasco de mais um recuo, Trump se fez de surdo aos especialistas e, mais uma vez, confiou em seu instinto, ou seja, no sussurro de Netanyahu.

Embora o acordo entre Washington e Teerã incluísse o fim das hostilidades no Líbano e na região, Netanyahu respondeu poucas horas depois com a maior chuva de bombas, destruição e mortes até então vistas sobre a capital do Líbano.

A estratégia do instinto e a imprevisibilidade, própria do homem de negócios com muito dinheiro e poucas ideias, pode servir em algum momento, mas um dia teria de enfrentar seus moinhos de vento.

Assim como os últimos governos dos Estados Unidos aceleraram a desvalorização do dólar à força de orgias de emissão, Trump está desvalorizando todos os capitais do império, do material ao simbólico. Como um viciado que precisa de doses cada vez maiores de drogas para obter o mesmo efeito, Trump precisa de um nível cada vez maior de megalomania, como seu anúncio de que, antes daquela noite do 7 de abril, “uma civilização inteira” seria destruída. A hipérbole não podia ser levada a sério. O palhaço não consegue mais divertir nem os donos do circo.

O poder que governa Washington, como em qualquer democracia liberal, sempre se aproveitou da alternância de presidentes. Todos o serviram. O acordo que um presidente assinava com uma mão era apagado pelo seguinte com o cotovelo. E é assim desde a espoliação das nações nativas pelas mãos dos fanáticos genocidas, os donos do canhão.

Todos assinaram falsos “acordos de paz” para ganhar tempo. A mesma coisa aconteceu em 2015, quando Obama assinou um acordo sobre armas atômicas, no qual o Irã aceitava limitar seu programa nuclear e permitir inspeções internacionais em troca da suspensão das sanções econômicas. Três anos depois, Trump o declarou nulo.

O problema agora é que os filtros de Trump continuam caindo, cometendo o erro que os manuais da CIA proibiam: conceder verdades sobre conspirações próprias. Trump se tornou uma máquina de “confissões”. Não só confessou que seu objetivo na Venezuela e no Irã era e é o petróleo (para “tornar-se rico”), como também que foi Washington que armou os protestos antigovernamentais no Irã, no final do ano passado.

Algo que é um velho modus operandi, desde a criação do Panamá, em 1903, o golpe do Irã, de 1953 (contra outra democracia e para se apoderar do petróleo), e muitos outros casos. Todos os governos desobedientes foram demonizados como “regimes” antes de um golpe (como o da Nicarágua, em 1909), ao mesmo tempo em que os terroristas desestabilizadores, como os Contras, 70 anos depois, foram financiados e sacralizados como “freedom fighters”.

Agora, o capital (material e simbólico) dilapidado jamais será recuperado. Segundo a Gallup, entre 2001 e 2025, os israelenses mantiveram consistentemente uma vantagem de dois dígitos na simpatia dos estadunidenses em relação ao Oriente Médio, com uma diferença média de 43 pontos percentuais, entre 2001 e 2018. A diferença começou a diminuir quatro anos antes do ataque do Hamas, em 7 de outubro de 2013, e mais ainda com os protestos estudantis contra o genocídio em Gaza. Esse processo se intensificou com a censura e intimidação aos críticos do genocídio, que nem mesmo os donos sionistas das redes sociais conseguiram conter.

O 7 de outubro não reverteu a tendência; pelo contrário, a suposta reação a acelerou significativamente. Hoje, 41% dos estadunidenses apoiam a causa palestina, ao passo que apenas 36% simpatizam com Israel. Se considerarmos apenas os jovens, essa diferença é esmagadora, o que indica que estamos diante de um terremoto que não poderá ser mudado pelas toneladas de dinheiro tradicionais em propaganda, especialmente agora que a máquina de imprimir começa a enferrujar.

Se considerarmos que Israel sem Washington e Bruxelas jamais será o Israel que ainda decide quem vive e quem morre, nenhum cálculo razoável pode desenhar um futuro promissor para este país. Os historiadores marcarão esta década como a Grande Quebra, independentemente das guerras que Washington-Tel Aviv ainda possam vencer e dos milhares de mortos que ainda possam ser enterrados sob os escombros.

O império estadunidense, em decadência acelerada por escolha própria, arrastado pelo buraco negro do Oriente Médio, insiste em cometer suicídio, antes de enfrentar seu principal alvo: a China. Enquanto isso, a China sabe muito bem que não deve interromper o adversário quando está cometendo um erro. Menos ainda quando investe tanto em cometê-lo.

Como um Superman viciado em criptonita, Trump dilapidou todos os recursos do império: o arsenal do Pentágono, os cofres do Tesouro e, o mais importante, o valor da ameaça e do medo de seus superpoderes.

Penso que seria um milagre se Trump terminasse seu mandato. Sofrerá uma derrota dura nas eleições legislativas de novembro, um impeachment em 2027, um “problema de saúde” ou alguma nova bandeira falsa que, desta vez, não o levará novamente à Casa Branca, mas à sua mansão na Flórida, onde o fantasma eterno de seu amigo Epstein o aguarda.

Para o verdadeiro poder, será uma forma de acalmar, por algum tempo, uma população cada vez mais consciente de sua realidade.

Leia mais