O regime legitimado, Teerã domina o Ormuz, o poder nuclear: por que Trump está perdendo (por enquanto) no Irã

Foto: Anadolu Agency

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08 Abril 2026

Uma análise dos 10 pontos propostos por Teerã para a paz: torna-se difícil entender por que o presidente dos EUA queria a guerra e como Israel pode aceitar essa conclusão.

A reportagem é de Paolo Mastrolilli, publicada por La Repubblica, 08-04-2026.

Quem ganhou? Supondo, para fins de argumentação, que o cessar-fogo acordado entre Donald Trump e o ministro iraniano das Relações Exteriores, Rahul Araghchi, se mantenha e leve a um acordo final nas próximas duas semanas, quem tem mais a ganhar? A proposta mediada pelo Paquistão levou o mundo da iminência da ameaça do presidente da Casa Branca de aniquilar uma civilização inteira, em meio a temores de que ele estivesse até mesmo preparado para usar armas nucleares, à perspectiva de uma paz duradoura no Oriente Médio, nas próprias palavras de Trump. Mas será que isso confirmou a eficácia dos métodos bruscos de negociação do autor de A Arte da Negociação, ou representou uma humilhante retirada ditada pelo fato de que a guerra não estava indo como o esperado, mergulhando o mundo em uma crise energética que ameaçava inflamar e ampliar o conflito?

Para buscar respostas, comecemos pelos fatos. Na noite em que ordenou o ataque ao Irã, o presidente americano deixou claro que seu objetivo era a mudança de regime, incitando a população a sair às ruas para retomar o controle do país. A partir desse momento, porém, as mensagens enviadas pelo presidente da Casa Branca tornaram-se cada vez mais confusas e contraditórias, listando os objetivos da operação como a destruição do programa nuclear da República Islâmica, a aniquilação de sua Marinha e Força Aérea e a interrupção das atividades de grupos aliados — como o Hezbollah — que estão desestabilizando todo o Oriente Médio.

Quando os aiatolás responderam bloqueando o Estreito de Ormuz, a prioridade passou a ser a sua reabertura, pois os efeitos econômicos estavam sendo sentidos até mesmo nos Estados Unidos, ofendendo a base do movimento MAGA, que elegeu Donald Trump para acabar com as guerras intermináveis, não para reiniciá-las no Oriente Médio.

Trump afirma que essa confusão, essa imprevisibilidade, faz parte de sua estratégia de negociação, que levou ao cessar-fogo.

No entanto, se analisarmos os dez pontos da proposta de paz iraniana, que o próprio presidente definiu como uma base aceitável para negociações nas próximas duas semanas, a realidade se mostra bem diferente.

Em primeiro lugar, é evidente que o regime não caiu, mas sim está sendo legitimado como o principal interlocutor para definir o futuro do Irã. Isso representa um golpe devastador para as pessoas que tiveram a coragem de protestar contra o governo em janeiro, pagando com a própria vida em mais de 40 mil casos.

As forças armadas da República Islâmica sofreram graves danos e enfraquecimento, mas mantiveram sua capacidade de combate e, sobretudo, demonstraram sua habilidade de ameaçar toda a região do Golfo Pérsico, estrangulando o tráfego naval através do Estreito de Ormuz. O Estreito será agora reaberto, mas sob o controle de Teerã. Se essa solução se tornar permanente, os aiatolás terão alcançado um resultado significativo, tornando-se efetivamente os senhores de uma grande parcela do mercado global de energia.

Instalações nucleares foram bombardeadas, mas os Dez Pontos do Irã reafirmam seu direito de continuar o enriquecimento de urânio, conforme previsto no Tratado de Não Proliferação. Em teoria, isso se destina apenas a fins civis, mas se a República Islâmica esteve à beira de construir uma bomba nuclear, não há razão para confiar em sua promessa de não tentar novamente no futuro. Quanto aos grupos armados, as condições dos aiatolás também exigem o fim das operações de Israel contra o Hezbollah no Líbano.

Os dez pontos incluem o fim das sanções econômicas contra Teerã, o pagamento de indenizações pelos danos causados ​​pela guerra e a revogação das resoluções da ONU e da AIEA, obviamente acompanhadas de um compromisso americano de não atacar o país novamente.

Se essa for a base do acordo, fica difícil entender por que Trump queria a guerra e como Israel poderia aceitar esse resultado. O chefe da Casa Branca responderá que as negociações também começarão com seus 15 pontos, que são muito mais punitivos para a República Islâmica, e, se nenhum acordo for encontrado, os ataques serão retomados. Enquanto aguardamos para ver se as próximas duas semanas trarão essa solução, o presidente americano certamente aceitou um cessar-fogo que lhe oferece pouco ou nada em troca do que exigiu na noite em que os bombardeios começaram.

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