11 Abril 2026
"Lebret era um homem de ação; não se definia como um intelectual. No entanto, escreveu, com a pena da alma moldada pela amizade e pelo amor aos pobres, algumas páginas belíssimas", escreve Luigino Bruni, professor titular de Economia Política na Lumsa de Roma e diretor científico da Economia de Francisco, em artigo publicado por Avvenire, 08-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O Concílio Vaticano II representa um ponto de luz na história da Igreja moderna, uma luz ainda não extinta, embora esteja progressivamente se afastando do nosso horizonte. O mundo mudou muito nestes sessenta anos, e a Igreja com ele; as prioridades sociais e éticas mudaram (basta pensar no meio ambiente), a linguagem espiritual e os códigos narrativos da alma individual e coletiva mudaram. Nesse grande fluxo global, sentimos cada vez mais dificuldade para entender o que aconteceu na Igreja Católica entre João XXIII e Paulo VI, também porque, tendo perdido o hábito de ler e estudar história, esquecemos a triste condição da qual a Igreja vinha e, portanto, o extraordinário e surpreendente significado do evento Concílio.
Um evento preparado pela ação e pensamento de muitos, em um tempo profético que permanece insuperável na época moderna: "Vivemos em um mundo novo. O cristão, que vive nesse mundo novo, não pode ignorá-lo, abandonando-o ao seu destino" (B. Häring, Dinamismo da igreja num mundo novo, 1979). Um protagonista dessa fase profética foi o Padre Louis-Joseph Lebret (1897-1966), um dominicano francês. Sua formação, entre teologia e economia, suas frequentes visitas e profundo conhecimento da América Latina e de muitos povos “em desenvolvimento”, sua sensibilidade e seu carisma pessoal foram muito importantes para a guinada antropológica do Vaticano II, em particular da Gaudium et Spes (1965), e posteriormente para a Popolurum Progressio de Paulo VI (1967). Sua vocação cristã, que sucedeu e se somou àquela do mar — "Eu jamais teria conseguido realizar o trabalho que me cabia se não tivesse sido primeiro oficial da Marinha" (P. Lebret A economia ao serviço dos homens, LG Perfis, 1968) — é marcada por três etapas principais: o Movimento de Saint-Malo (1930-1939), aquela da Economie et Humanisme (1941) e, finalmente, o IRFED (Institut International de Recherche en vue du Développement harmonisé, 1958).
Três fases interligadas que marcam o crescimento harmonioso de uma vocação espiritual e social, sustentada por dois pilares: a misericórdia e a observação da realidade. O ponto de partida de sua pesquisa-ação era, de fato, uma profunda comoção diante da dor da humanidade e da injustiça; o método era empírico e, portanto, histórico, devido à importância que atribuía à realidade, uma terapia preventiva contra toda ideologia.
Uma figura quase esquecida hoje, até mesmo pela Igreja Católica, que sente grande dificuldade para preservar a memória de seus profetas. Também por essa razão, não podemos deixar de acolher com entusiasmo intelectual e alegria o livro de Michele Dau - Louis Joseph Lebret. L’economia umana: il progresso sociale come ascesa (A economia humana: o progresso social como ascensão, Castelvecchi, 2025). Lebret não era um acadêmico; pelo contrário, tinha uma aversão natural pelo mundo das análises abstratas, teológicas e filosóficas, embora fosse Mestre em teologia. Após sua experiência em Saint-Malo, fundou a associação "Economie et Humanisme", que publicou uma revista homônima e se tornou ponto de referência para os estudos sobre o desenvolvimento, com novas ideias sobre pobreza, pesquisas de campo e dados, oferecendo novas categorias e narrativas sobre a pobreza e o desenvolvimento. Foi precursor e profeta de linhas de pensamento que alimentaram o debate cultural na Igreja e na sociedade na segunda metade do século XX e além. Entre elas, a teoria do decrescimento, a visão do cristianismo como libertação dos povos, a teoria do desenvolvimento como liberdade de A. Sen e a intuição do desenvolvimento humano integral, do homem "inteiro", expressão que retomou emprestada de Perroux. Um desenvolvimento, portanto, entendido como um "problema da civilização", onde "valores afetivos, intelectuais, estéticos, éticos e espirituais" são centrais — uma das primeiras percepções do que hoje chamamos de capital espiritual.
Muito importante é sua ideia de bem comum, um dos pilares da tradição da Igreja, que ele, dominicano e, portanto, tomista, prezava bastante. Para Lebret, o bem comum não era um conceito filosófico abstrato e muitas vezes vago (como continuamos a ler em muitos textos). Não era a soma dos bens individuais (utilitarismo econômico), nem mesmo o que a economia chama de "bem comum" ou bens comuns. Era algo diferente, que se referia a uma "comunidade de destino": Lebret sentia a necessidade de que houvesse um nível da ação política e social que olhasse direta e intencionalmente para o bem de todos, naquelas questões que realmente diziam respeito a todos. Ele, portanto, tinha uma visão não conflituosa, mas harmoniosa, da sociedade, não porque negasse o conflito de classes ou o imperialismo dos países ricos (ele conhecia bem Marx e apreciava alguns de seus elementos). Em vez disso, ele queria enfatizar que existem algumas dimensões da vida humana comum em que estamos todos realmente no mesmo barco, em que nos tornamos realmente um destino compartilhado — com a COVID, o meio ambiente e agora a ameaça de guerras mundiais, percebemos como é atual e essencial que essa ideia do bem comum seja levada em consideração em todos os níveis.
Lebret foi um dos "especialistas" do Concílio, mas na realidade foi um de seus "pais" espirituais. Ele se juntou ao Concílio apenas em março de 1964, porque sua figura não era universalmente estimada — em geral, os portadores de visões proféticas são controversos; apenas os falsos profetas agradam a todos. Sua participação, no entanto, provou ser decisiva, dado o papel de Lebret na redação final da Gaudium et Spes e, portanto, para a metanoia que a Igreja viveu em relação ao mundo.
Quando o Esquema XIII (o texto que seria por fim aprovado com o belíssimo título Gaudium et Spes) foi apresentado à sessão plenária do Concílio, houveram cerca de vinte mil notas, críticas e moções.
Lebret foi incumbido de trabalhar, em Ariccia, com outros 29 Padres Conciliares, 38 especialistas e cerca de 20 leigos, sobre aquele enorme material que emergiu da sessão plenária. Ele comentou o trabalho da seguinte forma: "É uma alegria encontrar a Igreja viva em busca da comunhão com a humanidade", escreveu em seu diário em 4 de fevereiro de 1965. De junho a julho de 1965, enquanto estava hospitalizado devido à doença que logo o levaria à morte, ele continuou a trabalhar. Apesar do alcance revolucionário da Gaudium et Spes, o documento social mais profético da Igreja na época moderna, Lebret acreditava que ainda mais poderia ter sido feito em termos de abertura ao mundo: "Comparado ao que é válido no pensamento moderno e contemporâneo, muitas vezes não cristão, com o qual muitas pessoas hoje estão imbuídas, não se leva suficientemente em conta as diversas pesquisas". Os profetas são habitantes constantes da terra do não-ainda, portanto sempre insatisfeitos com os já.
Assim escreveu o Cardeal Poupard em 1986: "Para o Papa Paulo VI, o Padre Lebret era um homem que vinha do futuro para ajudar seus contemporâneos a se despedir de visões ultrapassadas que não podiam entrar no futuro olhando para trás." Terminava, por fim, a busca pela terra prometida na memória do mundo de ontem. Para Lebret, havia uma forte convicção de que a "caridade" não bastava, pois "era necessário trabalhar para mudar as estruturas". A ideia de justiça social da Igreja pré-conciliar, de fato, levava a olhar para a pobreza sem questionar seriamente as estruturas econômicas e sociais do mundo que a geravam sistematicamente, também porque as hierarquias eclesiásticas (reis, príncipes e condes) estavam do lado errado dessas estruturas. Para Lebret, e, portanto, para o Concílio, havia chegado a hora de questionar as razões profundas da desigualdade – um tempo que ainda aguardamos: "Sentinela, quanto resta da noite?"
Lebret era um homem de ação; não se definia como um intelectual. No entanto, escreveu, com a pena da alma moldada pela amizade e pelo amor aos pobres, algumas páginas belíssimas. Como aquela de 1942, onde, ao descrever os "verdadeiros sábios", ele, consciente ou inconscientemente, falava-nos da sua própria vocação: "O seu campo de pesquisa restrito não os limita. Coloca-os em comunhão com o universo, na medida em que anseiam servir o homem e a humanidade. Cada dia lhes traz uma nova luz. Homens de ciência, procuram o contato com homens de ação e, por sua vez, operam num laboratório que é a própria realidade, a fim de não gastar as suas vidas para resolver falsos problemas ou extrações quiméricas. Aqueles que conseguirem ser homens de ação e homens de ciência tornar-se-ão os sábios de que estes tempos turbulentos precisam." Como precisariam desses homens e mulheres de ação e de ciência os nossos tempos, ainda mais turbulentos.
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