A centésima edição desse podcast infelizmente traz um assunto recorrente: a guerra. Neste episódio, falamos do frágil cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã. Também mostramos como Israel não está comprometido com a paz, atacando massivamente o Líbano. Ainda no cenário internacional, destacamos as eleições na Hungria, que ocorrem no próximo domingo, dia 12, e como a extrema-direita está unida na tentativa de manter Viktor Orbán no pode. Mais uma vez o aumento do número de feminicídios é apontado nesse podcast e trazemos à tona a necessidade de combater o ódio de gênero desde a infância.
O clima também é uma preocupação recorrente. As frequentes catástrofes ambientais preocupam e apresentam um novo conceito: biofobia. Destacamos a luta dos povos indígenas na 22ª edição do Acampamento Terra Livre, onde mais de 7 mil pessoas se reuniram para protestar pela demarcação de terras e direitos igualitários. Por fim, falamos sobre o jesuíta Vicente Cañas, assassinado por denunciar a invasão de terras tradicionais em 1987 e que recebeu uma homenagem nesta semana de Páscoa.
O conflito entre Estados Unidos e Irã atingiu um ponto crítico no dia 7 de abril de 2026, quando Donald Trump fez uma declaração extrema sugerindo a possível destruição de uma civilização inteira. A fala gerou pânico global, alimentando especulações sobre um ataque nuclear e levantando dúvidas sobre a confiabilidade do presidente, mesmo após a Casa Branca negar tal intenção. O cenário foi agravado por um ultimato anterior que previa ataques a infraestruturas civis iranianas, o que configuraria crime de guerra, e pela comparação com momentos históricos de alta tensão, como a Crise dos Mísseis de Cuba.
Diante da escalada, lideranças internacionais e religiosas apelaram pela paz, enquanto a população iraniana respondeu com mobilizações para proteger instalações estratégicas. No último momento, um cessar-fogo de duas semanas foi firmado, mediado pelo Paquistão, evidenciando a fragilidade da condução americana no conflito. Apesar de Trump apresentar o acordo como vitória, os Estados Unidos enfrentaram desgaste diplomático, perda de credibilidade e tensões com aliados, consolidando o episódio como um marco negativo em sua política externa.
Mesmo com o cessar-fogo envolvendo o Irã, Israel intensificou sua ofensiva no Líbano, realizando o maior ataque coordenado desde o início da guerra. Bombardeios atingiram diversas regiões, inclusive áreas civis em Beirute, causando centenas de mortes e milhares de feridos. A destruição e o sofrimento da população evidenciam a gravidade da crise humanitária, enquanto profissionais de saúde relatam exaustão e a necessidade constante de reconstrução diante de ataques recorrentes.
A escalada militar coloca em risco o acordo recém-estabelecido, levando o Irã a pressionar os Estados Unidos por uma posição clara entre a paz e a continuidade do conflito. Paralelamente, cresce a percepção de que a guerra atende a interesses políticos e eleitorais, o que tem resultado na queda de popularidade de líderes como Trump e Netanyahu. O aumento da mobilização internacional contra a violência e o isolamento político desses líderes indicam um cenário de instabilidade e desgaste crescente.
Na Hungria, Viktor Orbán enfrenta uma disputa eleitoral decisiva após anos consolidando um modelo político iliberal que se tornou referência para a extrema-direita global. Apesar do apoio de líderes internacionais alinhados ideologicamente, como Trump e Putin, pesquisas indicam que Orbán pode sofrer uma derrota, revelando fragilidades em sua permanência no poder.
O cenário levanta preocupações sobre o respeito às instituições democráticas, especialmente diante de precedentes internacionais em que líderes contestaram resultados eleitorais. Especialistas apontam que a remoção de governos com tendências autoritárias depende de forte mobilização popular e pressão externa, destacando a complexidade de reverter estruturas políticas consolidadas ao longo de anos.
O aumento expressivo dos feminicídios no Rio Grande do Sul em 2026 revela um problema estrutural de violência de gênero, com números alarmantes que indicam a recorrência desses crimes. A questão não se limita a casos isolados, mas reflete padrões sociais que se formam desde a infância, como evidenciado por episódios de violência simbólica e digital em ambientes escolares.
Especialistas destacam o papel central da educação na formação de comportamentos e na prevenção da violência, ressaltando que atitudes violentas são aprendidas e reforçadas socialmente. Ao mesmo tempo, a falta de políticas públicas eficazes e o adiamento de legislações voltadas ao combate à misoginia demonstram falhas institucionais. Esse conjunto de fatores contribui para a perpetuação de um ciclo de violência que atravessa gerações e se manifesta de forma cada vez mais grave.
A biofobia, caracterizada pelo medo da natureza, surge como um fenômeno crescente nas sociedades urbanas contemporâneas, resultado do distanciamento entre humanos e meio ambiente. Esse afastamento, somado a eventos climáticos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, intensifica a percepção da natureza como ameaça, especialmente diante de previsões de novos desastres associados ao El Niño.
Esse cenário contribui para o desenvolvimento da ecoansiedade, um estado psicológico marcado pela angústia em relação ao futuro climático. No entanto, há uma contradição evidente, pois enquanto o medo aumenta, a exploração ambiental continua, impulsionada por tecnologias e alto consumo de recursos. Especialistas apontam que a superação desse quadro depende do resgate do sentimento de pertencimento à natureza, sem o qual o medo tende a gerar imobilidade em vez de ações concretas.
A mobilização indígena no Brasil ganha destaque com o Acampamento Terra Livre, reunindo milhares de representantes em defesa de seus territórios e direitos. O movimento evidencia a resistência frente a decisões políticas e jurídicas que ameaçam áreas protegidas, como no caso do Parque Nacional do Jamanxim e projetos de infraestrutura que impactam diretamente comunidades indígenas.
Além das disputas legais, a luta indígena denuncia a ausência de consulta adequada aos povos afetados e pressiona instituições governamentais. Nesse contexto, destaca-se o protagonismo crescente das mulheres indígenas, que assumem papéis centrais na articulação política e na defesa dos territórios. O movimento reforça a importância da participação ativa desses povos nas decisões que afetam suas vidas e o meio ambiente.
A homenagem ao missionário Vicente Cañas resgata a memória de sua atuação na defesa dos povos indígenas e denuncia a violência histórica sofrida por essas comunidades. Assassinado em 1987, Cañas tornou-se símbolo da luta contra a exploração de territórios e da convivência respeitosa com os povos originários, tendo vivido diretamente com a etnia Enawenê-nawê.
Seu legado representa não apenas a defesa de direitos indígenas, mas também uma visão alternativa de organização social baseada na coletividade e no respeito à natureza. Essa perspectiva se conecta ao conceito de “rebeldia social”, que valoriza formas de resistência construídas de baixo para cima. Ao destacar essas experiências, o texto aponta para os povos indígenas como fonte de aprendizado e esperança em meio a um cenário global marcado por conflitos e crises.
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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.