Quem é Jesus, hoje, para nós? Artigo de Ottavio Di Grazia

Foto: Wikimedia Commons

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11 Abril 2026

"Reconhecer o Jesus histórico e, ao mesmo tempo, deixar emergir uma figura capaz de falar além de seu próprio tempo significa habitar uma tensão constitutiva. O valor do livro de Mancuso reside precisamente em não a desatar, mas em mantê-la aberta, expondo o leitor à mesma pergunta evangélica da qual a trajetória começa: quem é Jesus, hoje, para nós?"

O artigo é de Ottavio Di Grazia, ensaísta e tradutor, lecionou História da Diáspora Judaica e História das Religiões Mediterrâneas na Universidade de Trieste, publicado por Riforma, 10-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Com Gesù e Cristo, Vito Mancuso aborda uma das questões mais delicadas e decisivas do cristianismo: a distância — histórica, teológica e simbólica — entre Jesus de Nazaré e o Cristo da fé.

Esse não é um tema novo, mas Mancuso o aborda com particular clareza e explora suas implicações em profundidade. Trata-se de uma reflexão teológica radical e pessoal, que questiona o significado de Jesus e de Cristo para o homem contemporâneo, na forma modificada como certas construções doutrinárias fundamentais são hoje compreendidas e vivenciadas, e na ideia de redenção entendida como uma intervenção sobrenatural decisiva.

Foto: divulgação

O ponto de partida de toda a trajetória pode ser identificado em uma conhecida pergunta evangélica, em sua formulação mais sóbria e original: "Mas vocês, quem dizem que eu sou?" (Marcos 8,29). Mancuso não a toma como uma fórmula confessional a ser repetida, mas como um questionamento existencial a ser atravessado sem atalhos. Gesù e Cristo é a tentativa de abordar essa questão em primeira pessoa, esclarecendo quem Jesus é hoje para ele, antes mesmo de o ser para uma Igreja ou uma tradição teológica. Ele responde ecoando uma famosa expressão do Cardeal Carlo Maria Martini: Jesus é “meu amigo”. Não uma definição dogmática, mas uma relação viva, capaz de orientar a existência. Essa resposta, contudo, não apaga o perfil histórico de Jesus como profeta escatológico e apocalíptico. Pelo contrário, pressupõe sua radicalidade, traduzindo-a no plano de uma fé que aceita medir-se com ele como presença que acompanha e desafia. Mancuso se distancia decisivamente da teologia sacrificial da cruz. Rejeita a ideia de um Deus que exige a morte de seu Filho para a nossa salvação e rejeita qualquer interpretação violenta ou jurídica da redenção.

A cruz não é mais o lugar de um ressarcimento, mas a manifestação extrema de uma lei mais profunda: o amor como força que transcende o limite, a perda e a morte. Isso dá origem a uma compreensão diferente da Redenção. Não é um evento que encerra a história, mas um processo aberto, que envolve consciência, relações e a própria matéria do mundo.

A salvação não desce do alto, mas emerge do interior da vida quando esta se alinha com sua estrutura mais íntima. Deus não é concebido como um sujeito que intervém de fora, mas como um princípio de ordem e de bem inscrito na realidade. O cristianismo que daí deriva é pós-sacrificial e pós-dogmático, e busca permanecer fiel ao cerne da mensagem evangélica sem recorrer a categorias teológicas que, talvez, precisariam ser reconsideradas. Justamente essa força interpretativa convida a nos questionarmos sobre a relação com o Jesus histórico. O Jesus que emerge do livro é uma figura tornada imediatamente pensável para os dias de hoje, portador de uma verdade capaz de transcender seu tempo e se tornar inteligível dentro de horizontes de sentido mais amplos. As fontes mais antigas, interpretadas à luz da pesquisa histórica, descrevem Jesus como um judeu imerso no mundo simbólico, linguístico e religioso do judaísmo do Segundo Templo.

Unir esses dois planos não significa contradizê-los, mas sim reconhecer a própria complexidade de sua figura.

Jesus anuncia o Reino de Deus, fala a linguagem da escatologia e da apocalíptica judaica e se move dentro da Torá, que interpreta e radicaliza sem a abolir. Suas palavras não são enunciados doutrinários, mas parábolas, gestos proféticos, provocações muitas vezes hiperbólicas, difíceis de separar de seu contexto original. Mesmo os conflitos que percorrem sua vida não são embates entre religiões, mas tensões internas ao judaísmo de seu tempo, sinal de uma pluralidade vibrante e inquieta.

No livro, essa dimensão não é negada, mas progressivamente transposta. Jesus se torna uma figura paradigmática, reveladora de uma verdade que ultrapassa seu horizonte histórico. É uma escolha consciente e legítima. Reconhecer o Jesus histórico e, ao mesmo tempo, deixar emergir uma figura capaz de falar além de seu próprio tempo significa habitar uma tensão constitutiva. O valor do livro de Mancuso reside precisamente em não a desatar, mas em mantê-la aberta, expondo o leitor à mesma pergunta evangélica da qual a trajetória começa: quem é Jesus, hoje, para nós? É nessa pergunta, abordada sem atalhos, que o livro encontra sua força e relevância.

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