01 Abril 2026
Filosofias opostas, extraídas de dois textos sagrados antigos, estão a colidir de forma terrível.
O artigo é de Phyllis Zagano, publicado por Religion News Service e reproduzido por 7 Margens, 30-03-2026.
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconato das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova York, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres].
Eis o artigo.
O colapso da monarquia iraniana em 1979 coincidiu com a publicação do livro de grande sucesso de Christopher Lasch, A Cultura do Narcisismo, uma crítica à celebridade americana, à grandiosidade e ao vazio espiritual. Em retrospectiva, o livro explica as razões pelas quais os jovens radicais iranianos se revoltaram contra o regime do Xá e os resultados da revolução que colocou o primeiro aiatola, Ruhollah Khomeini, no poder. Pode também explicar as razões da guerra atual.
Nos Estados Unidos, um “culto do eu” narcisista, como diz Lasch, tendia então (e tende claramente agora) para o autoengrandecimento e um foco doentio na imagem pessoal e no consumo. A atual administração é um caso de estudo do problema, mesmo que se enquadre no chamado nacionalismo cristão.
No Irã pré-revolucionário, a riqueza avassaladora da monarquia, combinada com uma modernização agressiva, apresentou aos iranianos uma visão do mundo inclinada para um consumismo inatingível. Derrubaram o Xá e os seus ornamentos de petrodólares e substituíram-no pela presença austera do líder supremo, uma posição que agora parece ter-se tornado hereditária.
A face dos Estados Unidos é a de um presidente narcisista – há quem diga sociopata – que, embora eleito, só se pode dizer que reina a partir da Sala Oval, rodeado de folhas de ouro e bilionários. A face do Irã é a do terceiro de uma série de clérigos de linha dura, Mojtaba Khamenei, que substituiu o seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, que por sua vez substituiu Khomeini.
Há quem chame a isto a guerra de Israel. É certo que os interesses dos Estados Unidos e da Europa no Golfo Pérsico são suficientes para manter as balas a voar, mas não se iludam. Trata-se de dinheiro. O evangelho da prosperidade está vivo e de boa saúde, prometendo coisas boas, incluindo benefícios materiais reais, para aqueles que acreditam na justiça da “causa”. Neste caso, a causa é suspeitosamente semelhante à das Cruzadas medievais.
O Alcorão permite que os muçulmanos combatam a agressão, desde que os não combatentes não sejam prejudicados, mas o novo líder supremo do Irã afirma que a sua nação continuará a vingar “o sangue dos mártires [do Irã]”. Filosofias opostas, destiladas de dois textos sagrados antigos, estão a colidir de formas horríveis, tanto a nível macro como micro.
O que têm em comum a administração Trump, a liderança iraniana e Israel?
Nada e tudo. O Irã derrubou a sua monarquia resplandecente e substituiu-a por uma teocracia severa. Os Estados Unidos sofrem com uma autocracia dourada, impregnada de apocalipticismo cristão. O líder de Israel parece determinado a esmagar as sociedades dos seus vizinhos, independentemente de quem se lhe atravesse no caminho. A constituição de cada país parece ter-se reduzido a meras palavras.
Os perdedores de todos os lados são os jovens de cada país. Por baixo de todos os escombros em Israel, Gaza, Líbano, Irã e noutros locais do Oriente Médio estão pessoas. Presos no atoleiro da guerra estão homens e mulheres, rapazes e meninas, cujas esperanças, sonhos, vidas e membros foram prejudicados. Tudo isto é o resultado do que podem muito bem ser violações do direito internacional, se não da doutrina religiosa, independentemente da religião de que se trate.
Nos Estados Unidos, o mais grosseiro promotor do conflito, o secretário da Defesa, Pete Hegseth, queixa-se do que denomina “regras de combate estúpidas”. O novo líder supremo do Irã é apelidado de “o seu pai em esteroides”. Benjamin Netanyahu, de Israel, vangloria-se: “Ainda não acabamos.” Na verdade, é bem possível que já tenhamos acabado.
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