28 Março 2026
"Encontramo-nos em momentos críticos e perigosos, como nunca em nossa história anterior. Podemos nos autodestruir. As potências militaristas disputam a hegemonia do mundo. E o fazem numa feroz competição sem qualquer laivo de cooperação e cuidado para com o planeta Terra e nosso futuro comum. Não é impossível 'a mútua destruição assegurada', levando junto a vida humana", escreve Leonardo Boff.
Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor. Autor, entre outros livros, de Virtudes de um mundo possível: hospitalidade: direito/dever de todos (Editora Vozes).
Eis o artigo.
Diante da guerra, da desigualdade e do colapso ambiental, o pessimismo é realista, mas a esperança insiste: a vida já sobreviveu a 15 dizimações e pode dar um novo salto, se a boa vontade enfim prevalecer.
São muitos atualmente que perderam a esperança de que, no quadro atual sinistro, tenhamos ainda algum futuro. Há demasiada maldade, genocídio a céu aberto e vergonhosamente feito por aqueles que o praticam, Israel e os Estados Unidos da América, ainda escandalosamente apoiados por alguns países europeus, nomeadamente pela Alemanha, esquecida do holocausto nazista.
Assistimos, estarrecidos, a uma grande nação, aquela que dispõe de mais meios de destruição em massa e até de aniquilação da vida sobre a Terra, a Rússia, arrasar uma nação vizinha com grandes tradições culturais e os famosos e sábios contos rabínicos, a Ucrânia. Terrível está sendo a guerra dos EUA e Israel contra o Irã, destruindo uma das civilizações mais antigas, com uma ferocidade que não escolhe seus alvos, tudo é atacado, incluindo escolas de meninas.
Acresce ainda a absurda acumulação de fortunas em pouquíssimas mãos, pois, oito pessoas, possuem individualmente, a riqueza equivalente ao que possuem 4,7 bilhões de pessoas. Nestes não se nota nenhuma sensibilidade humana face a seus semelhantes, tratando-os como zeros econômicos, descartáveis e considerados sub-humanos: os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades do Norte Global (só nos EUA vivem 30 milhões de pobres) e enchem, aos milhões, as metrópoles do Sul Global.
Abstenho-me de referir à grave ameaça da Sobrecarga da Terra, com severos limites da produção de bens e serviços que sustentam a vida (precisamos hoje já de 1,7 Terras). Nem mesmo do crescente aquecimento global do planeta Terra que se até 2030-2035 não for detido no máximo de crescimento de 1,5ºC, com referência à era industrial (1850-1900) causará uma inexorável dizimação de vidas na natureza e na humanidade.
Como ainda ter esperança num drama destas proporções? Entendemos as preocupações de analistas do curso do mundo que dizem: não é impossível que tenha chegado a nossa vez de desaparecer do processo da evolução, como centenas e centenas de espécies já desapareceram, depois de milhões de anos sobre a Terra.
Por isso sou pessimista porque a realidade é péssima. No entanto, me declaro um pessimista esperançoso. Esperançoso porque se somos Terra que sente, pensa, ama e venera, temos a resiliência que a Terra mostrou nas 15 dizimações de vidas que sofreu ao longo de sua história de 4,5 bilhões de anos. A vida nunca sucumbiu. Depois de cada dizimação, atestam vários historiadores da vida Terra como Christian de Duve (Poeira cósmica: a vida como imperativo cósmico, 1995) ela, como que se vingando, produziu uma biodiversidade maior do que aquela que foi ceifada.
Como dizia o poeta alemão Friedrich Hölderin “lá onde há perigo, cresce também o que salva” (wo aber Gefahr ist, wächst auch das Retende). O nosso perigo é inegável. Mas considerando que o ser humano é um projeto infinito, dotado de mil virtualidades, ele saberá face ao grande perigo forjar chances de salvação.
Sabidamente a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável. E o inesperado pode acontecer. Era seguramente improvável que um negro, Barack Obama, dada a discriminação que sempre sofreu pelos supremacistas brancos, chegasse à Presidência dos EUA. E chegou. Quem poderia imaginar que, numa sociedade machista como a brasileira, uma mulher se tornasse Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff? E chegou.
Tenho a convicção que animava o paleontólogo e místico Pierre Teilhard de Chardin de que a humanidade, num momento grave de sua história, especialmente sabendo que poderá se autodestruir, cairia em si e se daria conta de seu lugar no conjunto dos seres e de sua responsabilidade pelo futuro da vida. Daria um salto quântico em sua consciência e definiria um outro rumo à sua história.
Far-se-ia a guardiã e a cuidadora da sagrada herança que herdou, a Terra e de todos os seus ecossistemas com os seres que neles habitam. Perceberia que é parte e parcela da natureza, confraternizada com os demais irmãos e irmãs nela presentes. Amaria e ornaria a Casa Comum na qual todos caberiam com suas diferenças, mas numa profunda unidade.
Isso está dentro das possibilidades humanas. Somos seres naturalmente de cooperação e de sensibilidade face aos mais vulneráveis. Em nosso profundo, como dado objetivo, atestado pela new science somos seres espirituais, capazes de identificar aquela Energia de Fundo (Aquele Ser que faz ser todos os seres) que tudo penetra e sustenta. James Watson comprovou que em nosso DNA está o amor, a força maior do universo (DNA: o segredo da vida,2005). Com todas estas positividades vamos ainda fazer uma dolorosa travessia até chegarmos a uma forma amorosa e fraterna de convivência.
Não estamos diante de uma tragédia anunciada, mas no coração de uma crise de nossos fundamentos que vai nos acrisolar, purificar e permitir dar um salto, habitando um mundo que juntos podemos fazê-lo existir sustentavelmente. Depende de nós impedirmos que as atuais crises virem tragédias.
Por isso, não tememos a noite sombria de nosso tempo porque amamos as estrelas,nossas irmãs. Esperamos a aurora que se anuncia.
O sonho de um homem ridículo
Seguramente algum leitor ou leitora estranhará este título. Mas ele conserva atualidade exatamente pela verdade oculta que contém, expressa por ninguém outro que por Fiódor Dostoiévski. É o título de sua narrativa fantástica de 1877 O sonho de um homem ridículo. Qual é esse sonho? Ele responde: “Se todos quisessem, num instante, tudo mudaria na terra”.
É exatamente o que falta no nosso mundo: esse sonho de um homem nada ridículo que poderia nos salvar: se todos quisessem a mesma coisa. Mas a grande maioria não quer. Não obstante, um dia ele foi sonhado em 11 de dezembro de 2015 durante a COP21 em Paris. É o famoso Acordo de Paris, subscrito por praticamente por todos os países que compõem a ONU (195). Todos se comprometeram em reduzir os gases de efeito estufa e assim frear o aquecimento do planeta.
Todos quiseram. No entanto, quase ninguém tornou esse sonho realidade. Se todos de fato quisessem cumprir o sonho do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900) teríamos mudado a Terra. Teríamos evitado as catastróficas enchentes, as severas estiagens, as tremendas nevascas, os furacões e os tornados que ocorreram nos anos após 2015. A meta era manter o aquecimento abaixo de 2ºC, se estabilizando em 1,5°C por volta de 2030.
Por que nem todos quiseram, a Terra não mudou. Em 2024/2025 superamos o limite de 1,5°C, chegando a 1,6°C. Ao continuar a emissão de gases de efeito estufa pelo fato de alguns grandes países como os EUA, a Índia e a China optaram pelo uso do carvão junto com o petróleo, produtores de efeito estufa, se frustrou o sonho do Acordo de Paris. Eles não quiseram. Fizeram-se negacionistas, como principal deles Donald Trump.
A seguir esta tendência, dizem especialistas, chegaremos nos anos 2030-2035 próximos a 2°C ou mais. Muitos seres humanos, idosos e crianças, terão dificuldade de se adaptar e não subsistirão. Pior ainda pode ocorrer com a natureza, afetando pesadamente a falta de água e da biodiversidade com a dizimação de milhares de espécies.
Conclusão: Se todos tivessem querido o Acordo de Paris, se cumpriria a profecia de Dostoiévski: tudo teria mudado, num momento, na Terra. Ao invés de melhorar, tudo piorou.
Por que não tomamos a sério o sonho do Acordo de Paris com 195 signatários? Porque não mostramos “boa vontade”, a única virtude que nos teria salvo e ainda poderá nos salvar. Não sou eu quem o afirma. É Immanuel Kant, o mais exigente pensador da ética no Ocidente moderno.
Em sua Fundamentação para uma metafísica dos costumes (1785), ele assevera: “Não é possível se pensar algo que, em qualquer lugar no mundo e mesmo fora dele, possa ser tido irrestritamente como bom senão a boa vontade (der gute Wille)”. Traduzindo seu difícil linguajar: a boa vontade é o único bem que é irrestritamente bom e ao qual não cabe nenhuma restrição. A boa vontade ou é só boa ou não é. Para Kant a boa-vontade é a virtude suprema, sendo a única coisa no mundo boa por si mesma.
Todas as virtudes têm a sua falta ou o seu excesso: assim a coragem excessiva é ousadia, ter generosidade demais é a prodigalidade; a modéstia demasiada é inibição. Todas as virtudes, sem exceção, possuem seu contraponto, seja em excesso seja em carência.
Somente a boa vontade não tem defeito nenhum. Se tivesse alguma sombra ou restrição, não seria boa. No fundo, todas as virtudes (o viver corretamente) estão referidas à boa vontade, como aliás enfatizava Kant.
Há aqui uma verdade com consideráveis consequências práticas. Por exemplo, nas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia ou entre Israel e a Palestina, ou entre EUA e Irã, se não houver boa-vontade de ambos os lados, jamais se chegará a um acordo de paz. Quer dizer, não posso maliciar tudo, colocar tudo sob suspeita e desconfiar de tudo. A boa vontade e a mútua confiança devem se constituir como base comum. Sem a boa vontade nada se construirá de sustentável, de sólido, aquilo que não se evapora no ar.
Encontramo-nos em momentos críticos e perigosos, como nunca em nossa história anterior. Podemos nos autodestruir. As potências militaristas disputam a hegemonia do mundo. E o fazem numa feroz competição sem qualquer laivo de cooperação e cuidado para com o planeta Terra e nosso futuro comum. Não é impossível “a mútua destruição assegurada”, levando junto a vida humana.
Em situações assim devemos desentranhar de dentro de nós o que pertence ao nosso ser humano: a capacidade de ativar a boa-vontade e pô-la em prática. Ou o fazemos ou arriscamos o futuro de nossa existência nesse pequeno e esplêndido planeta Terra, nossa única Casa Comum.
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