Um mundo à deriva: violência, desinformação e colapso ambiental na geografia da guerra. Destaques da Semana no IHUCast

Arte: IHU

Por: Lucas Schardong e Mônica Lima | 28 Março 2026

Novamente, a guerra de Trump marca uma edição desse podcast. Hoje falamos de como um líder global sem estratégia pode deixar o mundo inteiro à deriva. Do seu impacto na América Latina, com o estrangulamento de Cuba, até a crise climática com as emissões de carbono. Da violência promovida pela extrema-direita e o poder da machosfera nos meios digitais, até a eleição no Brasil. Falaremos sobre como o conflito afeta o mundo e a solidariedade pode nos guiar para um caminho melhor.

Guerra dos EUA contra o Irã e instabilidade global

A guerra entre Estados Unidos e Irã evidencia como decisões políticas mal planejadas podem gerar instabilidade em escala global. A condução do conflito, marcada por expectativas de vitória rápida, revelou-se equivocada diante da resistência iraniana, que acabou fortalecendo o próprio regime. Além disso, a possibilidade de bloqueio do Estreito de Ormuz expõe fragilidades estratégicas dos EUA e amplia os riscos para o comércio internacional, indicando um cenário em que a negociação pode se tornar inevitável diante do impasse militar. Para o professor e cientista político, Olivier Roy, "a realidade é que, mais cedo ou mais tarde, os Estados Unidos terão que negociar. O que me leva a dizer que o Irã está vencendo", afirma.

Impactos econômicos globais

As consequências econômicas do conflito são amplas e preocupantes. A elevação dos preços do petróleo pode desencadear inflação global, desaceleração econômica e até recessão. Esse cenário afeta diretamente a população, com aumento no custo dos combustíveis, dos alimentos e dos serviços essenciais. Países como o Brasil já começam a sentir esses efeitos, demonstrando como crises internacionais impactam economias locais e aprofundam desigualdades sociais. Analistas começam a vislumbrar a possibilidade dos preços do petróleo baterem todos os recordes caso o conflito no Oriente Médio persista. Nesse caso, uma recessão global seria praticamente inevitável.

América Latina, Cuba e memória histórica

Na América Latina, os efeitos das disputas geopolíticas também se fazem presentes, especialmente no caso de Cuba, que enfrenta um agravamento de sua crise devido ao endurecimento do embargo econômico. Em resposta, iniciativas de solidariedade internacional buscam minimizar esses impactos. Paralelamente, a lembrança dos 50 anos da ditadura argentina reforça a importância da preservação da memória histórica, ao mesmo tempo em que alerta para tentativas contemporâneas de relativizar crimes do passado.

Machosfera digital, misoginia e desigualdade

Outro ponto relevante é o crescimento da chamada machosfera digital, que organiza e dissemina discursos de ódio contra as mulheres. Esse fenômeno, impulsionado por algoritmos das redes sociais, atrai jovens e pode ultrapassar o ambiente virtual, resultando em violência concreta. Além disso, persistem desigualdades estruturais de gênero e raça, evidenciadas pela diferença salarial e pelas condições desiguais de trabalho, especialmente para mulheres negras. Um cálculo a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) do último trimestre de 2025, realizado a pedido da DW, revela que mulheres ganham 22% a menos que os pares homens no país. Se as mulheres recebessem salários equivalentes aos dos homens no Brasil, elas não precisariam ter trabalhado desde 1° de janeiro até este sábado (21/03) para fechar o ano de 2026 com a mesma renda que eles. Ou seja, no Brasil, elas trabalharam "de graça" até agora em 2026, fazendo com que o país tenha uma das piores percepções de equidade salarial entre os gêneros no mundo. A pesquisa é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Extrema-direita, desinformação e poder das big techs

O avanço da extrema-direita está diretamente relacionado à disseminação de desinformação e ao uso estratégico das redes sociais. Discursos baseados no medo e na culpabilização de grupos vulneráveis são utilizados para mobilizar apoio político. Nesse contexto, as big techs desempenham papel central ao amplificar conteúdos polarizadores. Apesar disso, surgem iniciativas de responsabilização dessas plataformas, indicando possíveis mudanças no cenário comunicacional e político. Franco Delle Donne, pesquisador e jornalista, destaca que "esses partidos aprenderam a se comunicar melhor e desenvolveram estratégias culturais de longo prazo. Simplificando muito sua estratégia: entenderam que primeiro precisavam conquistar as mentes e a linguagem, e então a vitória eleitoral viria".

Guerra e crise climática

A relação entre conflitos armados e crise ambiental também se destaca, uma vez que guerras contribuem significativamente para o aumento das emissões de gases de efeito estufa. Esse processo intensifica o aquecimento global e seus impactos, como o derretimento do gelo polar e o aumento de eventos climáticos extremos. O desmatamento, especialmente em países como o Brasil, agrava ainda mais essa situação, evidenciando a necessidade de ações urgentes. Na conferência realizada pelo IHU, intitulada Transações energéticas ou transformação sistêmica? A ecologia integral e o ecossocialismo, o professor da Unicamp, Luiz Marques evidenciou os impactos da guerra no meio ambinete.

Solidariedade como saída

Nesse contexto, destacam-se também os efeitos sociais da crise climática, como o aumento dos refugiados climáticos e o agravamento da crise habitacional, impulsionados por eventos extremos que tornam diversas regiões inabitáveis ou inseguras. Essas populações, frequentemente desassistidas, evidenciam a urgência de políticas públicas e ações coletivas que garantam condições dignas de vida. Para a professora Elenise Schonardie, em entrevista concedida ao IHUTrump retirou os Estados Unidos dos acordos internacionais porque, para ele, isso é uma grande besteira. Com isso, a consequência é catastrófica, porque existe uma população altamente vulnerabilizada, uma crise internacional de refugiados de guerra e refugiados econômicos. São pessoas que fogem da pobreza e da desigualdade e que precisam fugir da guerra e da miséria total que este conflito trouxe.

Diante de um cenário marcado por múltiplas crises, a solidariedade surge como um elemento fundamental para a construção de soluções. A professora acredita que a sociedade tem que retomar a solidariedade e a cooperação entre sociedades e nações, pois esse é um caminho possível para enfrentar desafios globais. Ela reforça que a ideia de que a sobrevivência coletiva depende da união e da ação conjunta em um mundo cada vez mais interdependente.

solidariedade não se configura apenas como um valor ético, mas como uma necessidade concreta diante da intensificação das desigualdades e das crises globais.

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O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify