Porto Alegre (RS): a capital mais envelhecida do Brasil. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Foto: Matt Bennett | Unsplash

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25 Março 2026

Porto Alegre pode transformar o envelhecimento populacional em um vetor de desenvolvimento sustentável, inclusão social e inovação institucional.

O artigo é de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia, publicado por EcoDebate, 25-03-2026. 

Eis o artigo.

Porto Alegre foi fundada em 26 de março de 1772 e completa 254 anos em 2026, sendo a capital mais meridional e mais envelhecida do país. A maior cidade do Rio Grande do Sul tem uma área de cerca de 500 km2 e uma densidade demográfica de 2.691 habitantes por km2.

A população de Porto Alegre era de 44 mil habitantes em 1872 (primeiro censo demográfico brasileiro), maior do que a população de São Paulo (31 mil habitantes). Belo Horizonte nem existia nesta época. A população da capital gaúcha subiu para 73,7 mil habitantes em 1900, deu um salto para 394 mil em 1950, atingiu 1,36 milhão de habitantes no ano 2000 e alcançou o pico de 1,41 milhão de habitantes em 2010, conforme mostra o gráfico abaixo.

Para 2022, o censo indicou 1,33 milhão de habitantes em Porto Alegre, a primeira redução da história. Mas o censo demográfico 2022 teve uma falha de cobertura e a estimativa populacional do próprio IBGE apontou uma população de 1,39 milhão de habitantes em 2024. Nos últimos 30 anos, Porto Alegre perdeu o posto de cidade mais populosa da região Sul para Curitiba.

A redução do ritmo de crescimento populacional nos anos 2000 foi acompanhado de um envelhecimento da estrutura etária. O gráfico abaixo mostra o Índice de Envelhecimento (IE) para o Brasil, o estado do Rio Grande do Sul a cidade de Porto Alegre entre 1970 e 2022. Todas as áreas geográficas tinham uma estrutura etária jovem em 1970, mas o IE aumentou acentuadamente. Em 2022, o IE chegou a 80 idosos de 60 anos e + para cada 100 jovens (0-14 anos) no Brasil. Ficou em 115 no território gaúcho e chegou a 137 idosos por 100 jovens em Porto Alegre. Ou seja, o estado do Rio Grande do Sul e a capital gaúcha já possuem mais idosos do que jovens (0-14 anos).

O gráfico abaixo mostra a pirâmide etária brasileira (colunas cinzas no fundo) e a pirâmide etária da cidade de Porto Alegre (parte colorida e sobreposta), em 2022. Nota-se que abaixo dos 50 anos existe maior proporção de jovens no Brasil, enquanto acima de 50 anos há maior proporção de idosos em Porto Alegre.

O gráfico abaixo mostra que o percentual da população de 0-14 anos de Porto Alegre já vem diminuindo desde 1970, caindo para cerca da metade e chegando a 16% em 2022. O grupo 50+ ultrapassou os jovens de 0-14 anos no início dos anos 2000. No último censo, o percentual de idosos 60+ ultrapassou o percentual de crianças e adolescentes. A população de 15-59 anos subiu de 62,2% em 1970 para 66,2% em 2010 e caiu para 62% em 2022. Portanto, a população considerada em idade ativa já vem diminuindo, enquanto a população idosa (60+) chegou a 21,9%, a população 50+ chegou a 34,3% e a população 70+ chegou a 10,5% em 2022. Sem dúvida, Porto Alegre já pode ser considerada uma cidade envelhecida.

A tabela abaixo, com dados do Ministério da Saúde, mostra o número de nascimentos, óbitos e o crescimento vegetativo em Porto Alegre de 2015 a 2024. Nota-se que o número de nascimentos vem caindo em todo o período e o número de óbitos cresceu muito durante a pandemia da covid-19, caiu em 2022 e 2023 e voltou a subir em 2024. O crescimento vegetativo caiu significativamente no período e a perspectiva é que a capital gaúcha mantenha decrescimento populacional nos próximos anos e décadas.

Portanto, a cidade Porto Alegre já possui mais idosos (60+) do que jovens (0-14 anos), a proporção da população considerada em idade ativa (15-59 anos) já está diminuindo e a capital gaúcha apresenta decrescimento populacional e diminuirá de tamanho ao longo do atual século. Essa configuração demográfica traz desvantagens, mas também vantagens.

Os desafios e oportunidades do envelhecimento populacional de Porto Alegre

O aumento da expectativa de vida ao nascer é uma vitória extraordinária sobre as altas taxas de mortalidade precoce. A queda nas taxas de fecundidade representa a maior mudança de comportamento de massa na história da humanidade. Desta forma, o envelhecimento populacional pode ser considerado uma conquista civilizatória. Mas há desafios e oportunidades.

O principal desafio do envelhecimento populacional é o fim do 1º bônus demográfico, pois o número e a proporção de pessoas de 15 a 59 anos já está diminuindo na capital pernambucana e este fato pode se desdobrar em uma crise fiscal se o país e as cidades continuarem a pensar a relação entre as gerações de maneira fixa. O antigo roteiro de vida com jovens estudando, adultos trabalhando e idosos aposentados perde força diante de uma população que vive mais e deseja continuar ativa, produtiva, colaborativa e integrada.

Indubitavelmente, há novas oportunidades de progresso. O 2º bônus demográfico – ou bônus da produtividade – é um evento capaz de gerar frutos indefinidamente se houver investimentos na educação, na saúde, na infraestrutura que possibilite aos trabalhadores produzirem mais bens e serviços com menos insumos humanos e ambientais. O 3º bônus demográfico – ou bônus da longevidade – que se refere ao potencial econômico, social e institucional que emerge quando uma sociedade passa a ter maior proporção de pessoas idosas, sobretudo em contextos de maior expectativa de vida saudável.

Uma sociedade envelhecida não está condenada ao declínio. O 2º e o 3º bônus demográficos mostram que, com políticas adequadas, a longevidade pode ampliar a produtividade (via experiência e capital humano), a inovação (novos mercados e tecnologias) e a coesão social (mais tempo de contribuição cívica e cultural). A Economia Prateada será a alternativa do futuro.

Aproveitar as oportunidades dessa nova conjuntura demográfica e ao mesmo tempo garantir dignidade, inclusão e autonomia aos idosos envolve uma abordagem multidimensional e uma atuação no âmbito local. Uma estratégia-chave para transformar Porto Alegre em uma Cidade Amiga da Pessoa Idosa, alinhada às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), envolve:

  • Ambiente urbano e mobilidade – adaptar o espaço público para todas as idades, com calçadas acessíveis, transporte coletivo confortável e seguro, iluminação adequada, sinalização clara e desenho urbano que estimule caminhadas, convivência e uso dos bairros ao longo de todo o ciclo de vida. Cidades amigáveis aos idosos são, em geral, cidades melhores para todos.
  • Habitação e território – promover políticas habitacionais que incentivem moradias adaptadas, o retrofit do estoque imobiliário existente, a convivência intergeracional e a permanência do idoso em seu território de referência, evitando deslocamentos forçados e isolamento social.
  • Saúde, cuidado e prevenção – fortalecer a atenção primária, as ações de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas, além de estruturar uma rede integrada de cuidados de longa duração, combinando serviços públicos, privados, comunitários e familiares, com apoio a cuidadores formais e informais.
  • Trabalho, renda e aprendizagem ao longo da vida – combater o etarismo no mercado de trabalho, estimular o envelhecimento ativo, o reingresso ou a permanência voluntária de pessoas idosas em atividades produtivas, o empreendedorismo maduro e a educação continuada, reconhecendo a experiência como ativo econômico e social.
  • Participação social, cultura e cidadania – ampliar os espaços de participação política, cultural e comunitária das pessoas idosas, valorizando o voluntariado, a transmissão de saberes, a memória urbana e o engajamento cívico como elementos centrais da coesão social.
  • Inovação e Economia Prateada – fomentar ecossistemas locais de inovação voltados às demandas do envelhecimento, estimulando novos serviços, tecnologias assistivas, produtos financeiros, soluções digitais e modelos de negócios orientados para uma população longeva.

Ao adotar essa abordagem integrada, Porto Alegre pode transformar o envelhecimento populacional em um vetor de desenvolvimento sustentável, inclusão social e inovação institucional. Mais do que gerir a transição demográfica, trata-se de redefinir o projeto de cidade, tratando a longevidade como uma vantagem estratégica.

O objetivo é consolidar um novo pacto intergeracional, no qual viver mais signifique, fundamentalmente, viver melhor — com autonomia, dignidade e participação plena na vida urbana. Uma cidade de 254 anos não deve temer a longevidade, mas sim abraçar a maturidade sem medo de ser feliz.

Referências

ALVES, JED. O envelhecimento populacional é uma conquista histórica, Ecodebate, 14/05/2025. Disponível aqui

ALVES, JED. Diversidade etária e Economia Prateada, Ecodebate, 04/06/2025. Disponível aqui

ALVES, JED. Demografia e Economia nos 200 anos da Independência do Brasil e cenários para o século XXI (com a colaboração de GALIZA, F), ENS, maio de 2022. Disponível aqui

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