O envelhecimento da população e o despreparo das cidades. Artigo de Reinaldo Dias

Foto: Bruno Aguirre/Pixabay

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25 Março 2026

A maneira como uma cidade trata sua população idosa diz muito sobre seu grau de justiça, inteligência social e maturidade democrática.

O artigo é de Reinaldo Dias, articulista do EcoDebate, doutor em Ciências Sociais - Unicamp e pesquisador associado do CPDI do IBRACHINA/IBRAWORK, publicado por EcoDebate, 25-03-2026.

Eis o artigo.

No Brasil, envelhecer ainda significa, para muitas pessoas, conviver com desrespeito, preconceito, invisibilidade e, em não poucos casos, violência. O etarismo, entendido como discriminação contra pessoas idosas, continua presente em diferentes dimensões da vida social. Ele aparece quando a palavra do idoso deixa de ser considerada dentro da própria família, quando sua autonomia é reduzida, quando seus direitos são tratados como incômodo e quando a violência física, patrimonial ou psicológica passa a fazer parte de sua rotina. Em muitos casos, as agressões ocorrem no ambiente familiar; em outros, surgem nas ruas, em roubos, ataques ou situações de extrema brutalidade que revelam o grau de vulnerabilidade a que essa parcela da população está exposta.

Esse problema também se expressa no cotidiano das cidades. Ele aparece no ônibus lotado em que o assento reservado não é cedido, na vaga de estacionamento ocupada indevidamente, na hostilidade enfrentada por quem reivindica um direito previsto em lei e na precariedade de políticas públicas que muitas vezes reduzem a velhice a iniciativas superficiais e insuficientes. Em vez de reconhecer que o envelhecimento da população representa uma das mudanças sociais mais importantes do nosso tempo, muitas cidades ainda respondem a essa realidade com improviso, desconhecimento ou simples omissão. É nesse contexto que o despreparo urbano diante da velhice deixa de ser um problema secundário e passa a revelar uma falha mais profunda na forma como a sociedade trata sua população idosa.

Introdução

O envelhecimento da população figura entre as transformações sociais mais importantes do século XXI, e no Brasil esse processo já se impõe como realidade concreta. O número de pessoas com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, enquanto o Censo 2022 registrou forte crescimento do contingente idoso e expressiva elevação do índice de envelhecimento. Já a expectativa de vida ao nascer, de acordo com as Tábuas Completas de Mortalidade do IBGE, alcançou 76,6 anos em 2024. Está em curso, portanto, uma mudança profunda na estrutura social brasileira, com consequências diretas para a moradia, a mobilidade, os serviços públicos, os vínculos comunitários e o próprio desenho das cidades.

As cidades brasileiras, contudo, não acompanharam essa transformação com a mesma velocidade. Em grande medida, continuam organizadas segundo uma lógica que privilegia produtividade, rapidez, longos deslocamentos e elevada exigência física. O modelo urbano dominante parece ainda voltado a um cidadão idealizado, autônomo, saudável, permanentemente apto a suportar escadas, calçadas ruins, transporte precário e serviços distantes. Nesse quadro, a velhice deixa de ser reconhecida como dimensão central da vida urbana e passa a ser tratada como questão lateral, quase sempre remetida à família, à assistência social ou aos serviços de saúde.

A dificuldade central não está no envelhecimento em si, mas na forma como ele expõe os limites de um urbanismo que não incorporou a velhice como parte constitutiva do planejamento. À medida que a população envelhece, tornam-se mais visíveis carências já existentes, sobretudo quando a idade passa a exigir mais segurança, mais proximidade, mais tempo e mais apoio no cotidiano. O despreparo das cidades, por isso, não se resume a atraso administrativo ou deficiência técnica. Ele revela prioridades históricas que deixaram em segundo plano a autonomia, o cuidado, a acessibilidade e a dignidade de quem envelhece.

A nova realidade demográfica e o atraso das cidades

O Brasil deixou para trás, em ritmo acelerado, o perfil de um país majoritariamente jovem. A queda da fecundidade, o aumento da longevidade e a ampliação do contingente idoso vêm redefinindo significativamente a composição etária da população. O Censo 2022 mostrou que o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4% em doze anos, alcançando cerca de 22,2 milhões, o equivalente a 10,9% da população. Considerando a faixa de 60 anos ou mais, o índice de envelhecimento chegou a 80 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos, quando em 2010 esse índice era de 44,8. Em estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, o número de idosos já supera o de crianças.

As projeções oficiais indicam que esse movimento seguirá se aprofundando nas próximas décadas. Entre 2000 e 2023, a participação das pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou no país, passando de 8,7% para 15,6%, e as estimativas apontam continuidade dessa tendência. Em escala global, a OMS também situa o envelhecimento como uma das marcas estruturantes do século, vinculando-o à urbanização e à necessidade de reorganizar ambientes e serviços para responder a essa nova realidade. Não se trata, portanto, de uma mudança marginal ou passageira, mas de um deslocamento de época que afeta profundamente a organização da vida coletiva.

Seria razoável esperar que um processo dessa magnitude já tivesse levado a uma revisão profunda das prioridades urbanas. O que se vê, no entanto, é a permanência de cidades desenhadas sob pressupostos de outra realidade demográfica. Persistem bairros dispersos, forte dependência de automóvel, transporte coletivo desconfortável, concentração de serviços em pontos distantes, calçadas inseguras, poucos espaços de descanso e moradias pouco adaptáveis. Em vez de reorganizar o território à luz da nova composição etária da população, o poder público responde de forma lenta, fragmentada e frequentemente superficial.

Essa defasagem mostra que o envelhecimento ainda não alcançou a centralidade política que deveria ter. Continua a ser tratado como tema setorial, quando na verdade atravessa o funcionamento da cidade em sua totalidade. À medida que cresce a proporção de pessoas idosas, muda a relação entre a pessoa idosa e o espaço urbano, entre moradia e bairro, entre deslocamento e tempo, entre autonomia e cuidado. Quando a cidade ignora essa transformação, amplia dependências, riscos e formas de exclusão que poderiam ser atenuadas por meio de planejamento, regulação e investimento público.

O despreparo urbano no cotidiano, na moradia e na vida de bairro

A inadequação das cidades se manifesta com nitidez na experiência cotidiana. Ela se faz sentir na calçada quebrada, no degrau inesperado, no tempo de travessia insuficiente para quem caminha devagar, no ponto de ônibus sem proteção, na ausência de bancos, na iluminação insuficiente, na sinalização confusa e na distância excessiva entre os serviços básicos. À medida que a cidade é organizada sem levar em conta a diversidade das condições físicas, dos ritmos e das limitações funcionais, envelhecer passa a significar enfrentar uma sequência de obstáculos que podem parecer banais à primeira vista, mas que produzem desgaste real e contínuo

Os dados disponíveis mostram que essa inadequação está longe de ser pontual. O Censo 2022 identificou que, embora grande parte da população urbana more em vias com calçada, dois em cada três brasileiros vivem em ruas sem rampa para cadeirantes, e a presença de pontos de ônibus no trecho observado das vias também é reduzida. Esses números são importantes porque deixam claro que a existência formal de calçada não garante circulação segura. Buracos, desníveis, ausência de rampas, obstáculos e falta de continuidade transformam o deslocamento em experiência de risco para pessoas idosas e para todos aqueles que convivem com mobilidade reduzida.

O desenho dominante da cidade continua a favorecer velocidade, fluxo e compressão do tempo. A condição física implicitamente tomada como referência é a de quem corre, sobe escadas, atravessa rápido, suporta lotação e percorre distâncias longas sem grandes dificuldades. Quem depende de mais tempo, mais segurança e maior proximidade se vê progressivamente deslocado para uma condição de uso restrito da cidade. Sair de casa deixa de ser gesto banal e passa a exigir cálculo, energia e cautela, de modo que a autonomia se reduz não por escolha, mas pela acumulação de barreiras que tornam a vida urbana mais cansativa e mais insegura.

As dificuldades não se encerram, porém, no espaço da rua. A moradia e a relação com o bairro também se tornam decisivas na forma como a velhice é vivida. Para a população idosa, a casa deixa de ser apenas abrigo e passa a concentrar uma experiência cotidiana em que segurança, conforto e conexão com o entorno adquirem maior peso. Casas com escadas difíceis, pisos escorregadios, banheiros inseguros, iluminação insuficiente e barreiras internas transformam atividades simples em tarefas arriscadas ou exaustivas. Quando o bairro também falha, com ausência de comércio próximo, transporte inadequado, unidade de saúde distante e espaços públicos pouco acolhedores, a vida cotidiana se torna ainda mais limitada.

Nessas condições, a moradia deixa de funcionar como base de autonomia e passa a operar, muitas vezes, como confinamento silencioso. A pessoa sai menos, encontra menos gente, depende mais de familiares ou vizinhos e perde parte de sua participação na vida coletiva. A restrição não atinge apenas o deslocamento físico. Ela afeta o pertencimento, a sociabilidade e a própria experiência de habitar a cidade. O que se reduz não é só a mobilidade, mas o mundo vivido.

A transformação dos arranjos domiciliares no Brasil torna essa questão ainda mais sensível. O Censo 2022 mostrou que as unidades domésticas unipessoais triplicaram entre 2000 e 2022, passando de 4,1 milhões para 13,6 milhões. Entre as mulheres que moram sozinhas, a presença de idosas é particularmente expressiva. Isso significa que uma parte importante da velhice brasileira depende de forma ainda mais intensa da qualidade do bairro, das redes de vizinhança e da oferta pública de apoio. Quando esses elementos são frágeis, a solidão e a retração dos vínculos deixam de ser apenas condição subjetiva e passam a ser reforçadas pela própria organização da cidade.

Durante muito tempo, o bairro funcionou como extensão da moradia. Era o lugar do pequeno comércio, da ida à farmácia, da praça, da conversa cotidiana, da convivência difusa e do reconhecimento mútuo. Em muitas cidades, essa experiência foi se enfraquecendo em razão da dispersão urbana, da insegurança, da desigualdade espacial e da perda de vitalidade do espaço público. Para a velhice, as consequências são severas, porque envelhecer no próprio território depende em grande medida de um entorno caminhável, minimamente acolhedor e capaz de sustentar rotinas de proximidade.

O ordenamento jurídico brasileiro já reconhece parte dessas exigências. O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece parâmetros importantes para a adaptação das cidades ao envelhecimento. No campo da habitação, o art. 38 prevê prioridade da pessoa idosa em programas habitacionais públicos ou subsidiados, além da implantação de equipamentos urbanos comunitários voltados a esse grupo e da eliminação de barreiras arquitetônicas e urbanísticas para garantir acessibilidade. No campo da mobilidade, os arts. 39 a 42 asseguram gratuidade no transporte coletivo urbano e semiurbano para maiores de 65 anos, reserva de assentos, prioridade e segurança no embarque e desembarque, além de vagas de estacionamento em condições de melhor comodidade. A distância entre esses direitos e a realidade concreta das cidades mostra que o despreparo urbano não contrasta apenas com uma demanda social crescente, mas também com garantias legais já estabelecidas.

Desigualdade social e territorial no envelhecimento urbano

A velhice urbana não pode ser tratada como experiência homogênea, porque as cidades são profundamente desiguais e o envelhecimento também o é. Envelhecer com renda estável, moradia adequada, acesso a serviços próximos e possibilidade de recorrer a soluções privadas é muito diferente de envelhecer em periferias mal servidas de infraestrutura, transporte e equipamentos públicos. O envelhecimento populacional precisa, por isso, ser compreendido à luz da desigualdade social e territorial que estrutura a vida urbana brasileira.

Esse ponto se torna ainda mais relevante porque o Brasil envelhece sendo um país amplamente urbanizado e profundamente desigual. A maior parte da população vive em áreas urbanas, mas o direito à cidade permanece distribuído de forma extremamente desigual. Em áreas mais valorizadas, costuma haver melhor conservação do espaço urbano, maior presença de serviços, maior segurança e trajetos mais confortáveis. Já em bairros populares e periferias, onde a precariedade da infraestrutura é mais intensa, uma rua mal iluminada, uma calçada ruim, a longa distância até o posto de saúde ou um transporte coletivo desconfortável produzem restrições muito maiores à autonomia cotidiana.

A situação se agrava quando se consideram a vulnerabilidade habitacional e os contextos de informalidade urbana. Milhões de brasileiros vivem em favelas e comunidades urbanas marcadas por infraestrutura insuficiente, maior exposição a riscos ambientais, acesso desigual a serviços e mobilidade difícil. Envelhecer nesses territórios tende a ser mais penoso, porque o corpo envelhecido precisa negociar diariamente com barreiras que já eram severas para a população em geral. A velhice, em tais condições, não se soma simplesmente à desigualdade existente. Ela a aprofunda e a torna mais visível.

A desigualdade de renda também não pode ser dissociada desse quadro. Quem passou a vida em ocupações precárias, com baixa remuneração, moradia inadequada e acesso limitado a direitos chega à velhice carregando os efeitos acumulados desse percurso. A velhice não começa subitamente aos 60 anos. Ela é moldada por condições materiais e sociais que se sedimentam ao longo da existência. As fragilidades associadas ao envelhecimento, portanto, não decorrem apenas da idade, mas da combinação entre trajetória de vida e organização desigual do espaço urbano. Cidades despreparadas, em vez de corrigirem essas desigualdades, frequentemente as reforçam.

A dimensão de gênero também pesa fortemente nesse processo. As mulheres vivem mais do que os homens no Brasil, o que faz da velhice uma experiência marcadamente feminina. Mas essa maior longevidade não significa maior proteção. Muitas mulheres chegam à velhice após trajetórias marcadas por informalidade, rendimentos mais baixos, trabalho doméstico não remunerado e forte sobrecarga de cuidado. A presença expressiva de mulheres idosas vivendo sozinhas torna esse quadro ainda mais sensível, sobretudo em territórios pobres, onde vulnerabilidade econômica, solidão e menor proteção material tendem a se combinar de forma mais intensa.

A cidade distribui proteção e exposição, conforto e desgaste, autonomia e dependência de modo profundamente desigual. Algumas pessoas envelhecem com mais liberdade e mais suporte, enquanto outras envelhecem em negociação permanente com a precariedade. Essa diferença não pode ser naturalizada, porque ela decorre de escolhas urbanas, de prioridades públicas e da forma como o espaço foi historicamente produzido.

O cuidado como questão urbana e política

A compreensão do cuidado como assunto quase exclusivamente doméstico, familiar ou sanitário é insuficiente para enfrentar o envelhecimento urbano. O cuidado também se organiza na cidade, nas distâncias entre moradia e serviços, na qualidade das calçadas, na segurança das travessias, na oferta de transporte acessível, na existência de bancos para descanso, na proximidade entre comércio, saúde e residência, na presença de espaços públicos acolhedores e na possibilidade real de circular sem medo.

Quando a cidade é hostil, o cuidado se torna mais pesado, mais caro e mais desgastante. As famílias passam a compensar aquilo que o espaço urbano não oferece, acompanhando deslocamentos, contornando barreiras, reorganizando rotinas e assumindo tarefas de apoio contínuo. Essa transferência silenciosa de responsabilidades não é neutra, porque recai de forma desproporcional sobre mulheres, sobre famílias de menor renda e sobre redes informais já sobrecarregadas. Em vez de enfrentar estruturalmente o problema, o poder público frequentemente naturaliza a ideia de que a velhice será sustentada por arranjos privados, como se o território e a infraestrutura urbana fossem fatores secundários.

Uma abordagem mais consistente exige reconhecer que autonomia e dignidade não dependem apenas da condição física ou do apoio familiar, mas também do modo como a cidade reduz ou multiplica barreiras. Uma pessoa idosa pode manter independência por mais tempo quando vive em bairro com serviços próximos, transporte confiável, espaço público acessível e moradia minimamente adaptável. Quando esses elementos faltam, dependências que poderiam ser adiadas ou atenuadas se instalam mais cedo. O problema, portanto, não está apenas em responder à fragilidade já instalada, mas em organizar a cidade de modo a não ampliar vulnerabilidades que poderiam ser evitadas.

Essa mudança de perspectiva também altera o próprio sentido da política urbana. Durante muito tempo, planejar a cidade significou priorizar circulação de veículos, expansão imobiliária, grandes obras e fluxos econômicos. O envelhecimento da população mostra o quanto essa agenda é incompleta. Sem incorporar o cuidado em seu desenho, a cidade amplia desigualdades, restringe a presença de parte de seus moradores no espaço público e reforça formas de invisibilidade social. Incorporar o cuidado ao planejamento não significa adotar postura assistencialista, mas reconhecer a vida urbana real, atravessada por interdependência, fragilidade e necessidade de apoio em diferentes momentos da existência.

Uma cidade preparada para envelhecer

Uma cidade preparada para envelhecer não é uma cidade desenhada apenas para idosos. Ela reconhece que a vida urbana real é feita de ritmos diversos, capacidades distintas e necessidades de apoio que atravessam todo o curso da vida. Essa compreensão foi sendo consolidada internacionalmente pela própria Organização Mundial da Saúde, que publicou, em 2007, o Guia Global das Cidades Amigas das Pessoas Idosas, associando urbanização e envelhecimento populacional e sistematizando princípios para tornar os ambientes urbanos mais adequados à longevidade. Em 2010, a OMS instituiu a Global Network for Age-friendly Cities and Communities (Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas da Pessoa Idosa), criada para apoiar governos locais e comunidades na adaptação de seus territórios ao envelhecimento.

A dimensão que essa rede alcançou mostra que o tema já dispõe de um referencial internacional consolidado. Segundo a OPAS, em página vinculada à Década do Envelhecimento Saudável nas Américas, a rede reúne atualmente 1.500 cidades e comunidades em 51 países, abrangendo mais de 300 milhões de pessoas. A adaptação das cidades ao envelhecimento deixou, assim, de ser formulação marginal ou retórica. Trata-se de uma agenda internacional em expansão, com capilaridade territorial e crescente adesão institucional, o que torna ainda mais evidente o contraste com a lentidão de muitas cidades brasileiras diante desse desafio.

Os materiais da OMS que orientam essa agenda incluem entre suas dimensões centrais os espaços públicos e edifícios, o transporte, a moradia, a participação social, o respeito e a inclusão social, a participação cívica e o trabalho, a comunicação e informação e o apoio comunitário e os serviços de saúde. O envelhecimento urbano não é tratado, portanto, como questão restrita à assistência ou à medicina, mas como problema que atravessa o desenho do espaço urbano, a organização dos serviços e a qualidade dos vínculos sociais. Esse referencial reforça a necessidade de uma reorganização mais ampla das prioridades urbanas.

Uma cidade preparada para envelhecer precisa oferecer acessibilidade real, e não apenas formal, com calçadas seguras, travessias adequadas, mobiliário urbano suficiente, sinalização legível e edifícios públicos sem barreiras. Precisa também sustentar relações de proximidade, de modo que bairros sejam capazes de oferecer comércio, farmácia, unidade de saúde, áreas de convivência e serviços essenciais a distâncias razoáveis. Moradias mais adaptáveis, espaços públicos bem cuidados e políticas voltadas à redução do isolamento social também compõem esse esforço. O repertório formulado pela OMS e pela OPAS mostra que não se trata de uma lista arbitrária de boas intenções, mas de um conjunto de diretrizes já testado e difundido internacionalmente.

A participação das pessoas idosas também integra essa perspectiva. Uma cidade preparada para envelhecer não as trata apenas como destinatárias de proteção. Ela as reconhece como sujeitos de experiência, opinião e direito à presença, o que implica incluí-las nas decisões sobre mobilidade, segurança, bairro, serviços e uso do espaço público. O fortalecimento dos vínculos comunitários, da participação e do pertencimento aparece de forma consistente nos marcos internacionais dessa agenda, que associam envelhecimento saudável não apenas à redução de riscos, mas à possibilidade de continuar participando da vida urbana em condições dignas.

Os benefícios de uma cidade mais preparada para o envelhecimento não se restringem à população idosa. Crianças, pessoas com deficiência, gestantes, doentes e qualquer pessoa que, em algum momento da vida, precise de mais segurança, mais apoio, mais tempo e mais proximidade também são favorecidos. Adaptar a cidade ao envelhecimento significa, em última instância, rever a própria ideia de cidade e ajustá-la a uma transformação demográfica que já está em curso.

Conclusão

O envelhecimento da população não representa, por si só, um problema. O problema está no fato de que as cidades continuam, em larga medida, despreparadas para acolher essa nova realidade. Ao privilegiar velocidade, produtividade e circulação intensa, o urbanismo dominante deixa em segundo plano a autonomia, a convivência, a proximidade e o cuidado. Desse modo, a velhice é frequentemente empurrada para a invisibilidade, para o confinamento doméstico ou para formas evitáveis de dependência.

As insuficiências urbanas não aparecem apenas na ausência de adaptações pontuais. Elas se expressam na desigualdade do espaço urbano, na precariedade das periferias, na perda da vida de bairro, na sobrecarga das famílias e na dificuldade de reconhecer o envelhecimento como questão central de planejamento. A maneira como uma cidade trata sua população idosa diz muito sobre seu grau de justiça, inteligência social e maturidade democrática.

Preparar a cidade para envelhecer não significa responder a uma demanda lateral ou setorial. Significa reconhecer que o direito à cidade só se realiza de forma plena quando alcança também aqueles que precisam de mais tempo, mais apoio, mais segurança e mais dignidade para viver.

Referências

Brasil. Estatuto da Pessoa Idosa.
Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, com dispositivos sobre habitação, acessibilidade, transporte, embarque e desembarque.

DIAS, Reinaldo. Introdução à Sociologia. São Paulo: Pearson, 2009.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Agência de Notícias. Reportagens e notas técnicas sobre envelhecimento populacional, com base no Censo 2022, na PNAD Contínua e em projeções populacionais recentes.

Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.
Textos e estudos sobre mobilidade urbana, acessibilidade, distribuição espacial de atividades e desigualdade social.

OECD – Organisation for Economic Co-operation and Development.
Relatório recente sobre cidades para todas as idades.

OMS – Organização Mundial da Saúde.
Documentos sobre envelhecimento saudável, cidades amigas da pessoa idosa, incluindo o Guia Global das Cidades Amigas das Pessoas Idosas (2007) e materiais institucionais sobre a Global Network for Age-friendly Cities and Communities.

OPAS – Organização Pan-Americana da Saúde.
Informações sobre a agenda regional do envelhecimento saudável e dados atualizados sobre a Global Network for Age-friendly Cities and Communities nas Américas e no mundo.

UN-Habitat – Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos.
Relatórios e documentos sobre cidades inclusivas, envelhecimento urbano e espaço público.

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