A Oxfam alerta que Israel está usando táticas semelhantes às de Gaza no Líbano para devastar sua infraestrutura hídrica

Foto RS/ via Fotos Publicas

Mais Lidos

  • Guerra no Irã, notícias de hoje. "Teerã se prepara para invasão dos EUA e planta minas em Kharg"

    LER MAIS
  • A guerra de Israel contra o Irã força o primeiro fechamento do Santo Sepulcro em 900 anos

    LER MAIS
  • Como as catástrofes devem ser enfrentadas de modo a combatermos as desigualdades causadas pelo capital, questiona a doutora em Ciências Sociais

    Direito à moradia e os tentáculos do neoliberalismo em tempos de emergência climática. Entrevista especial com Elenise Felzke Schonardie

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Março 2026

Os ataques a instalações de água aumentam o risco de surtos de doenças e contribuem para a perda de meios de subsistência e espaços verdes.

A reportagem é publicada por El Salto, 2-03-2026.

Os ataques de Israel ao Líbano nas últimas semanas estão sendo minuciosamente analisados ​​por organizações internacionais como a Oxfam, que acaba de elaborar e publicar um relatório afirmando que o Estado israelense está utilizando táticas já empregadas durante o genocídio em Gaza no Líbano, com o objetivo de devastar sua infraestrutura hídrica, algo proibido pelo direito internacional humanitário.

“Em apenas quatro dias, durante as primeiras semanas da mais recente escalada de violência, Israel danificou pelo menos sete fontes vitais de água, incluindo reservatórios, redes de tubulações e estações de bombeamento que abasteciam mais de 7.000 pessoas somente no Vale do Bekaa”, afirma o relatório da Oxfam. E não é só isso: “A destruição da infraestrutura civil não se limitou a instalações básicas de água. Israel também destruiu redes elétricas e pontes, interrompendo o fornecimento de serviços essenciais para cidades e vilarejos inteiros”, conclui a organização, lamentando a impossibilidade de acessar as áreas afetadas — referindo-se às regiões do sul do Líbano próximas à fronteira — para realizar uma avaliação dos danos.

“As consequências a longo prazo serão devastadoras para as comunidades se elas não tiverem acesso à água potável ao retornarem para casa”, alerta a Oxfam, que é inequívoca quanto à estratégia israelense: “É evidente que as forças israelenses estão repetindo o mesmo padrão no Líbano que em Gaza: atacando civis, infraestrutura civil crítica, equipes de serviços de emergência e trabalhadores humanitários”, afirma Bachir Ayoub, diretor da Oxfam no Líbano. “O objetivo deles é espalhar o caos e o medo entre a população, ignorando o direito internacional.”

A organização, que acusa a comunidade internacional de ser “cúmplice” das atrocidades que Israel vem cometendo em Gaza e no Líbano, fala em “impunidade” e “crimes de guerra” para descrever as ações do Estado de Israel; uma visão compartilhada pela maioria das organizações humanitárias e por uma parcela significativa da comunidade internacional. “O mundo mostrou que Israel pode fazer o que quiser, quando quiser, sem consequências, e mais uma vez é a população civil que paga o preço mais alto por essa inação”, afirma Ayoub.

Quase um mês de cerco contra a população libanesa

Desde 2 de março, e no contexto da guerra ilegal travada ao lado dos Estados Unidos contra o Irã, Israel vem bombardeando o Líbano. Os ataques têm se concentrado principalmente no sul do país, em alguns bairros da zona sul de Beirute, no Vale do Bekaa — uma região fortemente dependente da agricultura — e em Baalbek el-Hermel. Os bombardeios já resultaram na morte de quase mil pessoas e feriram mais de 2.000. O medo de serem atingidos pelos bombardeios e a destruição da infraestrutura básica forçaram dezenas de milhares de pessoas — especificamente, um milhão — a fugir de suas casas.

Neste contexto de crise, como a que se vive no Líbano, “o estado das infraestruturas vitais, o acesso à água potável, às instalações sanitárias e aos produtos de higiene, bem como o acesso a serviços básicos, continuam a ser uma preocupação central”, afirma o relatório. Os danos atuais nas infraestruturas somam-se às 45 redes de abastecimento de água no Líbano já danificadas pelos ataques de 2024, que afetaram quase meio milhão de pessoas. “Em muitos casos, os danos causados ​​pelos ataques israelitas são abrangentes e impactam os serviços de água em múltiplos níveis: desde a morte de vários trabalhadores das empresas de abastecimento de água até à destruição e deterioração de instalações, redes e infraestruturas de água, à destruição de painéis solares e instalações de energia, e até mesmo aos danos em espaços verdes e na atividade económica em geral, dificultando as perspectivas de recuperação a longo prazo das comunidades locais.”

Ataques que violam o direito internacional

Como tem acontecido em Gaza, e agora no Irã, ou como ocorreu na Venezuela no início deste ano, os ataques dos Estados Unidos e de Israel violam o direito internacional humanitário. No caso do Líbano e do ataque a infraestruturas estratégicas, como instalações de abastecimento de água, a lei é clara: ataques contra instalações de abastecimento de água e outros elementos essenciais para a sobrevivência da população são proibidos. Ou seja, “o uso da privação de água como método de guerra é proibido; e qualquer privação intencional de água ou obstrução da ajuda humanitária pode constituir um crime de guerra”, lembra-nos a Oxfam.

Segundo a Unicef, desde 28 de fevereiro, início da ofensiva israelense-americana na região, foram relatadas 210 mortes de crianças no Irã, 118 no Líbano, quatro em Israel e uma no Kuwait. “Só no Líbano, mais de 350 mil crianças foram deslocadas”, informa a agência da ONU. Mais de 2 mil crianças já ficaram feridas em decorrência da violência.

Desde os ataques de Israel ao país em 2014, a taxa de pobreza no Líbano triplicou e, com este último ataque, o país atravessa um dos seus momentos mais críticos dos últimos anos. "Centenas de milhares de pessoas precisam de apoio urgente e, sem uma ação imediata, a situação humanitária continuará a deteriorar-se", alerta a Oxfam, que faz um apelo urgente pelo fim da violência, pela garantia de acesso humanitário sem entraves, pela proteção das infraestruturas e dos civis, e por investigações e responsabilização pelas violações dos direitos humanos.

Leia mais