"O amor é ação, é atitude, é predisposição em relação ao humano, à história. O amor soma com reverência, respeito, contemplação, responsabilidade, convivência. Ele é exatamente o contraponto ao modelo capitalista, que fala de resultados, eficácia, uniformidade, posse, relações instrumentais e competitivas."
O artigo é de Rosemary Fernandes da Costa, teóloga, assessora do Movimento de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras (MEL), professora na PUC-Rio, membro da Comunidade Batismo do Senhor, Caxias, Rio de Janeiro.
Rosemary Fernandes (Foto: Arquivo Pessoal)
O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.
Escrevo no dia 19 de março, dia dedicado a São José em muitas culturas marcadas pelo Cristianismo. Para mim, um dia muito especial, por ser filha de José Bento e filha mistagoga de José Simões. Dois militantes pelo Amor, que bebiam na fonte do Amor Divino a água que fluía e transbordava em seus seres, e embebedou seu cotidiano, suas crenças e escolhas, seu jeito pedagógico e mistagógico de estar entre nós. Bebo com eles nessa inspiração que nos orienta sempre.
Estamos imersos no já antigo paradigma que reduz tudo ao capital, ao lucro a todo custo e, para que sua roda de sucesso permaneça, segue promovendo o isolamento, a ausência de perspectiva, a ruptura de relações, a falência da consciência cidadã. O preço é altíssimo, portanto, o sistema produz muitas formas de iludir o humano sob promessas de pseudotranscendência, felicidade através do consumo, insatisfação com as relações, busca desenfreada de status e negação de identidades, quebra de todas as formas de associação.
Ao nos submeter aos valores do capitalismo global, estamos vivendo um processo de decomposição de muitas estruturas comunitárias que articulavam a vida das pessoas. Com isso, o desamparo e o esvaziamento da experiência do ‘nós’. Onde nos refugiarmos? Quem poderá nos salvar?
Sim, já sabemos: processos religiosos intimistas, verticais, sem somar com o humano, com o ambiente, com a política e a sociedade; ofertas infinitas de produtos que prometam felicidade imediata; fomento do empreendorismo de si mesmo como ilusão de autonomia; algoritmização de cada minuto do seu dia, transformando você em uma máquina de alimentar o mercado.
Consequências? Estas também estão diante de nossos olhos, se é que já não estamos cegos para elas... Desconexão com as pessoas, consigo mesmo, com o ambiente; ausência de empatia; crescimento da indiferença; sensação de fracasso, solidão, abandono, falta de sentido de viver; paralisia diante de telas; sentimento de incapacidade de se relacionar; leituras velozes e fugazes; ausência de conteúdo interno para elaboração consciente e crítica; ceticismo político.
O cenário não poderia ser mais trágico, e as notícias cotidianas nacionais e internacionais só ampliam o sentimento de que a humanidade está à beira do seu próprio abismo.
Mas, nem todos os seres humanos cederam completamente a este sistema como definidor de suas vidas. Há sim, quem exercite o pensamento crítico, aposte nos relacionamentos consciente das dificuldades, vivencie uma religiosidade comunitária e presente, desenvolva práticas saudáveis de cuidado consigo, com os outros, com o ambiente.
Tudo que nos cerca, nos leva a crer que o modelo é definidor da subjetividade e, com isso, de uma lógica que organiza a sociedade e suas crenças com uma narrativa convincente. Contudo, ousamos trazer outras possibilidades. A primeira é de que o sistema sócio-econômico-político não é o único condutor da vida. Há outras organizações, como a organização cósmica, biológica, ambiental, a organização das memórias ancestrais, a organização das espiritualidades, e as relações quânticas e imprevisíveis.
Leonardo Boff convoca a percebermos a tendência global de todos os seres e do universo inteiro de caminharem rumo a sua própria plenitude e perfeição. Ou seja, a violência não tem a última palavra, pois está submetida a esta lógica benfazeja, apesar da magnitude de sua misteriosidade." Boff não nega a dramaticidade atual, mas afirma que ela não é definitiva, e para tanto ele se fundamenta tanto na ciência quanto na teologia. No mesmo livro, ele nos diz que "no espírito humano o Espírito mesmo molda o seu templo (...) Eco-espititualmente a esperança nos assegura que, apesar de todas as ameaças de destruição que a máquina de agressão da espécie humana montou e utiliza contra Gaia, o futuro bom e benfazejo está garantido porque este Cosmos e esta Terra são do Espírito e do Verbo."
Desejamos dar as mãos a Leonardo nessa reflexão e pensarmos juntos sobre as espiritualidades que nos movem. Será que o capitalismo já conseguiu fagocitar também essa dimensão? Afirmamos que não. Ela está presente na memória que lateja em cada pessoa, em cada comunidade, no cosmos. Ela está presente nas liturgias, nas orações, nos ritos, nas danças, nas conversas circulares, nas práticas que integram o passado, o presente e o futuro como movimento contínuo e vital.
E aqui ousamos, mais uma vez, reunir a fonte e a força das espiritualidades em uma palavra – amor. Ele pode ser traduzido em muitos verbos do amar, como no afeto, no sonhar juntos e construir coletivamente, no cuidado com tudo e com todos, no desapego de resultados e na aposta nas ferramentas que o impulsionam.
E voltamos à pergunta acima. Teria o capitalismo se apropriado do amor? Sim, ele vem tentando de muitas formas ‘dar seu jeito’, até mesmo utilizando das mesmas reflexões e logísticas que nos falam do amor.
Tanto desejamos a liberdade, que a modernidade nos deu esse presente. E agora, ela nos ilude nos aprisionando em gaiolas nas quais podemos ‘voar’. Tanto desejamos o amor, que a modernidade nos convence que ele tem finalidades, receitas, corpos ideais, status social, intolerâncias e fechamento de portas.
Mas o amor nos remete ao movimento, à historia, à proximidades com todos os seus desafios, ao diálogo incessante e circular, ao não esgotamento de possibilidades, mas, ao contrário, ao mistério que é sempre revelado e sempre por se revelar.
O amor nos remete ao encontro de subjetividades diversas, a nos descobrirmos inter-sujeitos, intersubjetivos, sempre em movimento e criação. O amor nos fala de fragilidade e força, de pausa e novos planos, de idas e vindas, de brechas por entre os muros.
O amor é ação, é atitude, é predisposição em relação ao humano, à história. O amor soma com reverência, respeito, contemplação, responsabilidade, convivência. Ele é exatamente o contraponto ao modelo capitalista, que fala de resultados, eficácia, uniformidade, posse, relações instrumentais e competitivas.
Por fim, para não nos alongarmos mais, convocamos mais uma vez à militância amorosa, à profecia revolucionária do amor-comunhão. Essa não é uma convocação pessoal, ela ecoa do Espírito Amoroso do ventre da terra, do ventre da história dinâmica e fecunda. Ela pede confiança sim, pés no chão que pisamos, olhar na direção das pessoas, dos fatos, do ambiente. Ela nos pede que não baixemos a cabeça em celulares com sua rolagem infinita e aprisionante, com a intenção clara de nos isolar de nós mesmos e continuar sua rolagem infinita de lucro acima de tudo e de todos.
Quando ouvimos um papa, como Francisco, e hoje Leão XIV, convocar à solidariedade, isso é profecia amorosa. Quando nos deparamos com a voz de Gretas e Brunos se espalhando pelo mundo, isso é profecia amorosa. Vozes que nos falam de vinculação, de conexão, de consciência coletiva, com fé, com paixão, com convicção que nasce da indignação sim, mas também da solidariedade profunda que não pode se calar.
A esperança tem asas.
Faz a alma voar.
Canta a melodia mesmo sem saber a letra.
E nunca desiste.
Nunca!
Emily Dickinson
BOFF, Leonardo. Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres. São Paulo: Ática, 1995. p.41, 295-306.