Como a guerra ameaça o acesso a medicamentos. Artigo de Guilherme Arruda

Foto: Médicas Sem Fronteiras

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21 Março 2026

Interrupção da produção de petroquímicos afetam indústria da Índia, produtora mundial de IFAs. Bloqueios logísticos impõem risco de inflação dos preços. Gastos com guerra reduzem investimentos sociais. Entenda os impactos diretos dos conflitos à saúde global.

O artigo é de Guilherme Arruda, jornalista do site Outra Saúde. Historiador de formação, publicado por Outras Palavras, 20-03-2026. 

Eis o artigo. 

A continuidade da guerra promovida por Estados Unidos e Israel contra o Irã, que não dá sinais de estar próxima de seu fim, pode afetar as cadeias globais de suprimento de insumos em saúde e faz crescer o risco de desabastecimento, avalia um número crescente de analistas.

Publicada nesta segunda-feira (16), uma reportagem do veículo norte-americano CNBC revela um dos gargalos causados pelo conflito: a interrupção do fluxo de petróleo e produtos petroquímicos do mundo árabe para a Índia, onde se tornam matérias-primas para a produção de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFAs). Medicamentos de amplíssimo consumo, como aspirina, paracetamol e ibuprofeno, têm base em derivados do petróleo. Como os IFAs de origem indiana são utilizados por indústrias farmacêuticas de todo o mundo, especialmente as fabricantes de genéricos, a produção do setor poderia ser desacelerada ou mesmo interrompida.

Outros portais chamam atenção para os problemas que espreitam o transporte dos produtos. Nos últimos anos, os países do Golfo – em especial o aeroporto de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos – se tornaram o principal hub logístico das corporações farmacêuticas transnacionais, explica o ThinkGlobalHealth. No entanto, em decorrência dos combates, os caminhos aéreos e marítimos para sair da região estão bloqueados ou extremamente inseguros. As empresas já sondam rotas alternativas, mas “isso tem um enorme impacto nos custos para a indústria”, admitiu a CEO da Medicines Australia, Liz de Somer, à ABC.

Hoje, análises estimam que 25% do preço de medicamentos de marca esteja associado aos custos logísticos. Por isso, uma crise prolongada também poderia afetar os valores pagos pelos consumidores finais.

Ainda segundo os veículos, uma variável que pode adiar crises de preço ou abastecimento é o fato de que boa parte dos países do mundo possuem estoques relevantes dos principais medicamentos essenciais – a União Europeia, por exemplo, orienta seus membros a manter reservas suficientes para dois a seis meses. No entanto, nações de regiões menos desenvolvidas, em especial a África, poderiam enfrentar problemas mais cedo.

Efeitos são múltiplos

Consultado por Outra Saúde, o pesquisador e médico Paulo Buss, do Centro de Relações Internacionais em Saúde (Cris/Fiocruz), fez uma avaliação abrangente e indicou que o problema dos insumos para a indústria farmacêutica existe, mas no plano imediato “é residual em comparação com o problema energético” e outras consequências do atual conflito para a saúde. No que se refere ao fornecimento de energia, a interrupção do fluxo de petróleo e gás natural oriundo do Golfo Pérsico afeta a indústria, mas também os consumidores domésticos de todo o mundo – a Europa, por exemplo, já prevê fortes aumentos na conta de gás para os cidadãos.

Relembrando o ataque israelense contra um tanque de armazenamento em Teerã, que fez “chover petróleo” sobre a capital iraniana no dia 10 de março, Buss alerta que “essa chuva ácida produz efeitos respiratórios e cardiovasculares de imediato, e a médio e longo prazo pode causar alguns tipos de câncer e neoplasias”. Além dos efeitos sobre milhões de pessoas, bombardeios sobre instalações de petróleo e gás também possuem um forte impacto ambiental.

O pesquisador da Fiocruz ainda destaca que o “aumento absurdo” das verbas para a guerra nos últimos cinco anos está associado ao “flagrante retrocesso” nos recursos para o desenvolvimento da saúde. Trata-se de uma avaliação corroborada por recente relatório do escritório do secretário-geral das Nações Unidas. O documento concluiu que, em países em desenvolvimento, “aumentos nos investimentos militares estão associados a reduções no financiamento público da saúde e da educação”. Um crescimento de 1% nos gastos bélicos tende a levar a uma redução equivalente nos gastos sociais, identificou o estudo.

Como consequência, os países se tornam menos preparados para as próximas pandemias e mais vulneráveis ao desabastecimento, à falta de trabalhadores da saúde qualificados e à deterioração dos programas de saúde pública, continua o relatório.

“Por todos os lados, as consequências [dessa guerra] têm sido as piores possíveis”, sintetiza Paulo Buss.

Avaliação similar é feita por Reinaldo Guimarães, em nota recém-publicada em Outra Saúde. O pesquisador e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) concorda que uma crise de abastecimento só tende a acontecer caso o cenário de guerra persista.

Ele destaca, no entanto, que é possível que ela dure “tempo suficiente para provocar algum grau de desabastecimento na indústria farmacêutica local, especialmente de insumos. Entretanto, mesmo com o fim das ações militares, a reconstrução da destruição por ela provocada e a reorganização das cadeias de suprimentos por via marítima e aérea não será imediata. Há quem preveja que a normalização da navegação no Estreito de Ormuz seja de muitos meses e mesmo de alguns anos”.

“Seja o que for acontecer, esse turbilhão no Oriente Médio reforça e torna mais urgente a necessidade de diminuir a dependência brasileira no setor farmacêutico e farmoquímico”, completa Guimarães.

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