IA: “Não é nem inteligente nem artificial”, afirma Miguel Nicolelis

Neurocientista debate o uso da IA, interações humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas em videoconferência no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, na próxima terça-feira, 17-03-2026. O evento é uma promoção da Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e do IHU

Foto: Mohammed Ibrahim | Unsplash

Por: Patricia Fachin | 17 Março 2026

“A primeira guerra robótica da história foi travada em Gaza”. A informação, divulgada pelo jornalista italiano do La Repubblica Gianluca Di Feo em dezembro do ano passado, é embasada nos dados fornecidos por Yaron Sarig, chefe de pesquisa tecnológica do Ministério da Defesa de Israel, sobre as operações israelenses contra o Hamas na Faixa de Gaza.

Os “massacres inteligentes”, nome dado à matança violenta potencializada por armamentos autônomos, como drones e veículos não tripulados, operados com auxílio da Inteligência Artificial (IA) na região, são “fruto de vinte anos de pesquisa”, segundo exposição de Sarig na palestra “Robôs e Inteligência Artificial: Da Teoria ao Campo de Batalha”, ministrada na Universidade de Tel Aviv, na Semana de Tecnologia de Defesa. De acordo com Gianluca Di Feo, o oficial do Ministério da Defesa declarou que Israel está “apenas no início desta revolução”.

A continuidade da simbiose entre o aparato militar e a IA está sendo testada e observada na guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã desde o mês passado. No fim desta semana, as Forças Armadas dos Estados Unidos confirmaram o uso de ferramentas de IA para acelerar a tomada de decisões no confronto armado. No início do mês, Peter Asaro, especialista em pesquisas sobre IA e robótica e professor da The New School, em Nova York, especulava a probabilidade de os Estados Unidos e Israel estarem utilizando IA para identificar alvos no território iraniano, segundo informações da rádio francesa RFI. Apesar dos argumentos favoráveis ao uso de robôs assassinos nas guerras, especialmente por causa da alta precisão bélica para atingir um alvo, Asaro contra-argumenta: “na verdade, não sabemos como eles funcionam". 

O que se escreve menos, e sobre o que precisamos gritar mais alto agora, são os riscos inerentes à militarização da IA – Chris Stokel-Walker

Na semana passada, o jornalista Chris Stokel-Walker, especialista em tecnologia e no modo como elas impactam nossas vidas, escreveu um artigo no The Guardian, alertando para “o ponto de virada perigoso” do uso de IA nas guerras travadas pelo presidente Trump. “O que se escreve menos, e sobre o que precisamos gritar mais alto agora, são os riscos inerentes à militarização da IA. Nos últimos três meses, a Casa Branca de Donald Trump teria usado IA duas vezes para efetuar mudanças de regime ou – no caso mais recente, no Irã – para chegar o mais perto possível disso, deixando para os iranianos comuns a tarefa de concluir o trabalho”, disse na publicação reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. A IA, adverte, está sendo usada para ampliar a agressão militar dos Estados Unidos. “A inteligência artificial tem sido usada no planejamento e na execução de operações militares que resultaram em um número desconhecido de vítimas e causaram grande instabilidade no Oriente Médio”, enfatiza. 

Em nome da eficácia bélica, da proteção e do risco de ataques iminentes das nações inimigas, acrescenta o jornalista, “mais países usarão IA em seu planejamento e ações militares”. O uso da IA no campo militar, compara, “será semelhante ao lançamento de armas nucleares sobre o Japão: um momento em que havia um antes claro e um depois incerto”. 

Riscos existenciais da IA

Múltiplos são os riscos existenciais envolvidos no uso da IA. O neurocientista Miguel Nicolelis tem refletido sobre eles, acentuando as ilusões envolvidas por trás da própria noção de Inteligência Artificial. “Ela não é nem inteligente nem artificial porque inteligência é uma propriedade emergente dos organismos. Ela não é computável. Você não consegue computar, criar uma fórmula ou um algoritmo que defina a sua ou a minha [inteligência] e a de nenhum organismo. Não existe uma definição [de inteligência] aceita unanimamente. É muito curioso como uma área tenta vender um produto que eles não sabem como definir. Alegam que vão construir inteligências artificiais, mas não conseguem definir o que é a inteligência”, argumenta. 

Miguel Nicolelis (Foto: Arquivo Pessoal | Reprodução ONU News)

Miguel Nicolelis vai refletir sobre essas questões na videoconferência intitulada “A Inteligência não é Artificial. Intenções humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas”, na próxima terça-feira, 17-03-2026, às 10h. O evento, promovido pela Comissão para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, integra o “Ciclo de Estudos – Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental Profecia, resistência e propostas pastorais”, iniciado em dezembro do ano passado. 

Segundo a equipe organizadora, a atividade tem o objetivo de “consolidar uma leitura crítica e profética do compromisso eclesial pela Ecologia Integral, apresentando as propostas e análises teológico-pastorais da Comissão para Ecologia Integral e Mineração da CNBB, em diálogo com outras disciplinas e práticas, em defesa da Casa Comum”. A palestra será transmitida na página eletrônica do IHU, nas redes sociais e no canal do YouTube. A atividade é gratuita e aberta ao público. A programação completa do ciclo está disponível aqui

A guerra pode ser automatizada?

Em entrevista à CartaCapital, Nicolelis explicou a origem da IA. “O termo foi criado por John McCarthy, nos anos 1950, porque ele precisava ganhar dinheiro para o Departamento de Defesa americano para organizar a conferência que deu origem a essa área. O Pentágono tinha tido uma experiência muito positiva, na Segunda Guerra Mundial, com o radar automático que detectava um avião inimigo ou míssil e disparava automaticamente. O grande proponente dessa tecnologia, Norbert Wiener, que criou a área de cibernética nos Estados Unidos, influenciou muito o pensamento americano de que tudo podia ser automatizado. Toda tomada de decisão podia ser automatizada. Inclusive, no filme Dr. Strangelove [Dr. Fantástico] (1964), do Stanley Kubrick, a guerra atômica é automatizada. Se inicia uma guerra atômica sem a tomada de decisão humana. O filme é uma resposta crítica a essa noção de que toda tomada de decisão humana poderia ser automatizada por um sistema computacional”, recorda. 

Pouco mais de meio século após o surgimento dos computadores e o avanço da era digital, a produção de tecnologia com fins letais aumentou e os problemas éticos envolvidos na corrida armamentista ganham novos contornos. No atual momento da humanidade, como destaca o historiador e jornalista Pablo Elorduy, “as fantasias distópicas sobre os futuros usos das máquinas na guerra são mais comuns do que o relato do que já está acontecendo nos campos de batalha”. 

Debate sobre a IA na página do IHU

As implicações geopolíticas e socioambientais do uso da IA vêm sendo examinadas sob diferentes perspectivas. Diariamente, o IHU publica artigos e entrevistas que exploram essa temática, acentuando o abismo existente entre a razão técnica e a razão ética. As diversas videoconferências sobre a temática promovidas pelo Instituto estão disponíveis no Canal do IHU no Youtube

Sobre o evento

O quê: Videoconferência “A Inteligência não é Artificial. Intenções humanas, extrativismo e o poder por trás das máquinas” | Ciclo de Estudos – Ecologia Integral em tempos de colapso ambiental Profecia, resistência e propostas pastorais

Quando: 17-03-2026

Quem: Prof. Dr. Miguel Nicolelis

Onde assistir: www.ihu.unisinos | YouTube do IHU | Facebook do IHU

Inscrição: https://www.ihu.unisinos.br/evento/ecologia-integral

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