O relatório final do sínodo sobre as mulheres: o que diz, o que significa e o que vem a seguir

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14 Março 2026

A longa e dramática história do Grupo de Estudo 5 chegou ao fim com a publicação do relatório final do grupo sobre os ministérios das mulheres na Igreja. O apelo mais proeminente neste documento — um dos 15 que estão sendo divulgados pela Secretaria Geral do Sínodo do Vaticano — é para que sejam encontradas "novas formas de exercício da autoridade" para as mulheres, afirmando que elas podem e devem ocupar cargos de liderança não ordenados na Igreja. O texto, contudo, não chega a articular quais seriam essas "novas formas".

O documento em inglês pode ser acessado aqui.

A informação é de Colleen Dulle, publicada por America, 12-03-2026. 

O breve relatório de 13 páginas é acompanhado por mais de 50 páginas de apêndices que examinam o papel das mulheres nas Escrituras, na história da Igreja e na Cúria Romana atual (os escritórios centrais do Vaticano), bem como exames teológicos mais profundos sobre como a autoridade é exercida na Igreja.

O documento defende a decisão do Papa Francisco de separar o poder das ordens sagradas (ordenação) do poder de governar um ofício eclesiástico — uma escolha que abriu as portas para que mulheres fossem nomeadas para cargos de alto escalão nos dicastérios do Vaticano pela primeira vez, mas que enfrentou resistência vocal nas reuniões de cardeais pré-conclave em 2025. O texto denuncia o "machismo", o "chauvinismo masculino" e o "clericalismo", argumentando que, em seu breve pontificado, o Papa Leão XIV continuou a trilhar o caminho de Francisco ao nomear mulheres para cargos de liderança na Cúria.

O relatório afirma o "desconforto" que muitas mulheres sentem com o abismo entre a posição feminina na Igreja (o que chama de "realidades eclesiais") e o papel das mulheres nas sociedades de muitos países; essa lacuna, diz o texto, levou mulheres de todas as idades a deixarem de se identificar como católicas, a se afastarem das atividades paroquiais locais e a não ingressarem mais na vida religiosa. Outro resultado, afirma, é o "apelo cada vez mais forte, por parte de muitas mulheres ativamente engajadas na atividade pastoral ou especialistas em teologia e direito canônico, para revisar as formas atuais de liderança eclesial para torná-las mais acessíveis às mulheres", incluindo o acesso às ordens sagradas, à pregação de homilias e ao governo de comunidades ou escritórios diocesanos.

Como esperado, o relatório final não tocou na questão das diaconisas. No relatório provisório do grupo, divulgado em novembro passado, ficou claro que este tópico seria tratado exclusivamente pela comissão liderada pelo Cardeal Giuseppe Petrocchi, que divulgou o seu próprio relatório final em dezembro e foi agora dissolvida. Essa comissão concluiu que as mulheres não poderiam ser ordenadas ao diaconato "entendido como um grau da Ordem Sagrada", mas não chegou a dar um "não" definitivo, deixando o discernimento contínuo a cargo do Papa Leão.

O relatório final deste grupo de estudo, embora peça novos papéis para as mulheres (como fez a Comissão Petrocchi), conclui com uma seção sobre os ministérios "carismáticos" das mulheres fora dos ministérios sacramentais ou oficialmente instituídos. O relatório adverte: "Uma obsessão em garantir que tudo se torne estrutura, regra, rito ou norma não é fiel ao livre dinamismo do Espírito".

Sublinha também que o que chama de "a questão das mulheres" é um "sinal dos tempos" através do qual o Espírito Santo desafia a Igreja a "uma mudança de mentalidade... antes mesmo de falar de 'papéis'".

Linguagem e história: além da maternidade

O documento pede uma mudança na forma como as mulheres são descritas no discurso da Igreja, "indo além de uma visão limitada a certas características — como maternidade, ternura ou cuidado — que podem deixar pouco espaço para outras qualidades femininas igualmente importantes, como liderança, conselho, capacidade de ensino, escuta e discernimento", sugerindo que Maria e outras mulheres na Escritura sejam descritas de forma mais fiel à sua "história concreta".

O documento tenta fazer isso em seus apêndices sobre as mulheres na Escritura e na história da Igreja, apresentando breves perfis de uma seleção delas. Em relação às mulheres na Bíblia, observa que suas histórias são todas únicas e não devem ser tomadas como uma imagem singular de uma "mulher ideal", ocasionalmente destacando temas comuns — por exemplo, que as matriarcas do Antigo Testamento são descritas como belas, que a esterilidade é vista como um "ponto de partida" e que Deus "parece acomodar" e até usar a astúcia das mulheres para cumprir suas promessas.

Parte deste comentário é redigida de forma desajeitada (sobre Febe, apenas pergunta: "Ela era uma diaconisa?", sem elaborar), e embora o apêndice cubra muitas figuras importantes e menores, deixa de fora a Rainha Ester, a quem um livro inteiro da Bíblia é dedicado, e Júnia, a quem São Paulo descreve como "insigne entre os apóstolos" (Rom 16,7 — embora este versículo seja referenciado em outro lugar sem nomear Júnia). Essas lacunas, juntamente com alguns erros notáveis (como chamar a jornalista Elise Ann Allen de "Eileen"), sugerem que o documento foi produzido rapidamente.

Um apêndice sobre "Mulheres Importantes na História da Igreja" cobre um amplo período de lideranças femininas. Inclui a Imperatriz Helena no século III, abadessas com autoridade sobre homens entre os séculos V e IX e sobre padres entre os séculos XII e XVIII, grandes santas medievais e doutoras da Igreja como Catarina de Sena e Teresa de Ávila, e até figuras modernas como Maria Montessori e Dorothy Day. Sua abrangência geográfica e étnica concentra-se na Europa e em pessoas de origem europeia, refletindo uma falta de diversidade semelhante ao cânone de santos da Igreja.

Embora o apêndice destaque a inteligência, a criatividade e a coragem de muitas destas mulheres, ao mesmo tempo ignora muitos de seus confrontos com a hierarquia da Igreja. Sobre a famosa exigência de Catarina para que o Papa Gregório XI acabasse com o papado de Avignon e reformasse o clero, o apêndice afirma simplesmente que ela "viajou para Avignon em 1376 para falar com ele". Sobre Joana d'Arc, reconhece "o julgamento marcado por injustiças significativas e armadilhas montadas de forma tendenciosa na frente teológica", mas nunca menciona que foram as autoridades da Igreja que presidiram o seu julgamento e ordenaram a sua execução. Da mesma forma, não há menção à investigação de Teresa pela Inquisição Espanhola.

Sor Juana Inés de la Cruz é a única mulher no apêndice explicitamente descrita como tendo tido "conflitos" com as autoridades eclesiásticas, e a tensão é rapidamente descartada com uma história muito breve sobre obediência, seguida imediatamente pela sua morte:

Sua vida não foi isenta de conflitos e provações, mesmo com as autoridades eclesiásticas. Quando lhe foi ordenado vender a biblioteca e distribuir o dinheiro aos pobres, ela obedeceu. Enquanto cuidava de uma irmã no seu convento, foi infectada e morreu em 1695.

O apêndice faz uma referência final a tais conflitos na sua conclusão, dizendo: "Embora por vezes o seu temperamento marque uma distância em relação ao modo de pensar da hierarquia, permanecendo obedientemente fiéis, a força destas mulheres expressou-se a favor e por amor à Igreja".

Um terceiro apêndice, sobre as mulheres atualmente na liderança da Igreja, resume o material submetido ao Dicastério para a Doutrina da Fé (que assumiu o trabalho atribuído ao Grupo de Estudo 5) para apresentar alguns casos atuais de mulheres em cargos de liderança já permitidos pelo direito canônico, incluindo o papel de uma "delegada geral" que auxilia o bispo em certas dioceses francesas. Diz que os relatos de mulheres que trabalham na Cúria Romana "indicam que persistem certas atitudes marcadas pelo clericalismo: as mulheres, mesmo em posições de responsabilidade, por vezes lutam para serem envolvidas e ouvidas em pé de igualdade com os colegas masculinos, particularmente nas interações com os ministros ordenados", mas que a cultura está mudando lentamente.

Teologia: mariano e petrino

Os três apêndices teológicos do documento começam com um exame dos "Princípios Mariano e Petrino" desenvolvidos pelo teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, que o Papa Francisco frequentemente invocava para explicar por que as mulheres não podiam ser ordenadas na Igreja Católica. O apêndice examina como os papas João Paulo II, Bento XVI, Francisco e Leão XIV se envolveram com a ideia, enfatizando que, entre eles, apenas Francisco igualou "Mariano e Petrino" a "feminino e masculino". O texto argumenta que os outros papas, e o próprio von Balthasar, viam o princípio "Mariano" como uma descrição de todo o laicato e o modelo "Petrino" como um modelo para os ministros ordenados.

O apêndice seguinte examina a evolução da ideia de autoridade na Igreja Católica, delineando como a autoridade de um bispo passou a ser entendida como dois poderes distintos: o poder de ordenação (potestas ordinis) e o poder de governar (potestas iurisdictionis, também por vezes referido como potestas regiminis). O Concílio Vaticano II, argumenta o texto, afastou-se desta distinção, preferindo referir-se a todos os cristãos batizados como "sacerdote, profeta e rei" (isto é, possuidores dos carismas de santificar, ensinar e governar), mas acrescentou a distinção de que a autoridade inata dos leigos para governar tinha de ser especificamente delegada por uma autoridade eclesiástica. Este, explica o texto, é o modelo utilizado nas mudanças do Papa Francisco na Cúria Romana: uma mulher pode chefiar um escritório da Cúria porque o papa delega essa autoridade a ela.

No entanto, o apêndice explica que existem ideias divergentes sobre se o batismo dá a uma pessoa uma autoridade que é distinta daquela que lhe pode ser delegada por um bispo. Esta questão, diz o texto, permanece aberta.

O apêndice final descreve os ensinamentos do Papa Francisco e do Papa Leão sobre as mulheres, incluindo uma lista das mulheres que cada um nomeou para cargos curiais, defendendo que o Papa Leão pretende continuar o esforço de Francisco para incluir mais mulheres em posições de liderança na Cúria Romana.

O que vem a seguir

Agora que os documentos finais dos grupos de estudo do sínodo foram submetidos ao papa, Leão decidiu publicá-los gradualmente. Três já foram divulgados até agora. O Cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, descreveu-os como "documentos de trabalho" e disse que seriam utilizados para criar propostas para o Papa Leão rever e possivelmente aprovar. Não está claro quem formulará as propostas, mas parece provável que deste documento surja um apelo para considerar possibilidades de ministérios adicionais para as mulheres. O formato que essa consideração poderá assumir — e que outras propostas poderão ser feitas — ainda não se sabe.

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