07 Março 2026
"A riqueza dessa diversidade que marca o campo religioso brasileiro escapa da apreensão objetiva do Censo do IBGE. Trata-se de uma realidade marcada por muita dinamicidade e inter-relações que nem sempre vem captada. Daí a fundamental importância de enriquecer os dados apresentados com estudos qualitativos substantivos que favoreçam um olhar mais apropriado para entender esse rico universo religioso", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
Em obra de 2014, o sociólogo Peter Berger sublinhou, com acerto, que o mundo atual vem profundamente marcado pelo traço religioso. Foi o tempo em que a teoria da secularização, falando em declínio da religião, ganhou foro de cidadania na reflexão acadêmica. O que vemos hoje, por todo canto, é uma presença vibrante das religiões e das espiritualidades. Na visão de Berger, “o mundo contemporâneo, com poucas exceções, é tão intensamente religioso como qualquer outro da história” (Berger, 2017, p. 55).
Segundo os dados do Pew Research Center´s Forum de Washinton D.C. sobre as religiões mundiais, cerca de 75% da população mundial expressa uma fé religiosa. O cristianismo continua na liderança de declaração de crença, congregando cerca 2,3 bilhões de fiéis espalhados pelos diversos continentes, com presença mais substantiva na América Latina, na África subsaariana e na Europa. Um traço que se observa no campo do cristianismo é um deslocamento de seu centro de gravidade do Norte para o Sul do Mundo, e em particular para a América Latina e África. Na sequência vem o Islã, com cerca de 2 bilhões de adeptos, seguido do Hinduísmo (1,2 bilhão de adeptos) e o Budismo (324 milhões de adeptos) (Garelli; Palmisano, 2025, p. 25).
Há que registrar igualmente a substantiva presença dos não-afiliados ou sem-religião, que somam 1,9 bilhão de adeptos em âmbito mundial. Esses não-afiliados não se resumem aos agnósticos e ateus, mas comportam igualmente aqueles declarantes que não se enquadram nas instituições religiosas de sentido existentes. Os ateus e agnósticos, ou os indiferentes religiosos, estão concentrados em cotas minoritárias. Registra-se no mundo o crescimento “de indivíduos que – mesmo não crendo num Deus ou não definindo-se como pessoas religiosas – mantêm uma ligação cultural com as religiões predominantes no próprio ambiente de vida” (Garelli; Palmisano, 2025, p. 36).
Se compararmos os dados divulgados pelo mesmo Pew Forum em 2010, percebemos que o maior crescimento na década se deu com os muçulmanos, que ganharam 346,8 milhões de adeptos no decênio. Em seguida vieram os não-afiliados, com crescimento de 170,1 milhões, os hindus com 126, 3 milhões e os cristãos com 121,6 milhões.
Ainda segundo Berger, é bem improvável que o século XXI será menos religioso que o século passado. O que se observa, em verdade, é uma pujante “ressurgência do religioso”, traduzida em particular pela mobilização islâmica e a irradiante força pentecostal (Berger, 2001, p. 21-24 e 28). As reflexões traçadas por Danièle Hervieu-Leger, corroboram a tese de Berger, indicando que os passos de recomposição do campo religioso envolvem essas novas presenças de vida religiosa comunitária, que ela identifica como os “convertidos”. Ao lado deles, temo também os “peregrinos”, cuja trajetória espiritual é marcada pelo trânsito. São os chamados “crentes passeadores” (Hervieu-Léger, 2008, p. 28).
Segundo Hervieu-Léger, como o aparato das grandes instituições religiosas se mostram cada vez menos capazes de regular a vida de fiéis que reivindicam sua autonomia de sujeitos que crêem, assiste-se a uma efervescência de grupos, redes e comunidades dentro das quais indivíduos trocam e validam mutuamente suas experiências espirituais. As formas desse desdobramento associativo, que se manifesta tanto no interior quanto no exterior das grandes confissões religiosas, são extremamente variadas (Hervieu-Léger, 2008, p. 28).
O Objetivo neste breve artigo é destacar a presença dessa dinâmica religiosa no âmbito do Brasil, tendo como base de referência os dados preliminares apresentados pelo IBGE no Censo de 2022. Sabemos dos problemas que afetaram o último Censo, provocando indagações de muitos pesquisadores, como foi, por exemplo, indicado em recente artigo da revista Piauí, falando de uma crise no IBGE e do apagão de dados que provocou aflição entre os demógrafos e pesquisadores. Os dados do último censo sobre as religiões no Brasil ficaram prejudicados pelo contexto político e social que envolveu o governo anterior. Houve um atraso em razão da pandemia e de cortes no orçamento durante o governo Bolsonaro, bem como de carência de funcionários para a implementação do trabalho. Não tivemos acesso a dados importantes para esclarecimentos fundamentais em torno dos pentecostais, das religiões afro e das outras religiões. Faltaram os dados desagregados, essenciais para uma melhor radiografia do campo religioso brasileiro.
1. O quadro das religiões no Brasil com base no Censo de 2022
O que se pode constatar a partir dos dados divulgados pelo Censo de 2022 é a permanência da presença massiva do cristianismo no campo religioso brasileiro. Temos hoje no Brasil cerca de 83,6% de cristãos, que resulta da soma dos 56,7% de católicos com os 26,9% de evangélicos. Continua ainda válida a provocação feita pelo sociólogo Antonio Flavio Pierucci em artigo de 2006, quando já apontava a questão (Teixeira; Menezes, 2006, p. 49-51). Vai se verificando aos poucos uma presença de pluralização religiosa no país, sobretudo em razão do crescimento dos sem-religião, dos evangélicos e das religiões afro-brasileiras. Quanto às outras religiões, a sua presença no Brasil ainda é bem restrita.
1.1. Os católicos
O catolicismo permanece como religião mais presente no país, com 56,7% de declaração de crença. Com respeito ao Censo de 2010, verifica-se uma nova queda, de 7,9 pontos. Os católicos somavam 64,6% no censo anterior. A cada década constata-se uma diminuição desta presença no país, que vai aos poucos ganhando um colorido mais evangélico, e sobretudo pentecostal. A crise do catolicismo não é só nacional, mas um fenômeno que avança em muitos países, sobretudo na Europa.
Seguindo a pista do último censo, o catolicismo liderou em todas as grandes regiões do Brasil, com presença destacada no Nordeste (63,9%) e no Sul (62,4%). A maior presença ocorreu no estado do Piauí, com 77,4% dos declarantes. Foram também maioria em todos os grupos de idade, mas os dados apontaram que há um aumento de católicos entre os núcleos com mais de 80 anos, chegando a 72% na faixa etária de 80 anos ou mais. Na faixa de 10 a 14 anos o índice de católicos diminui, com cerca de 52% dos declarantes. Isso significa que a presença de católicos na adolescência e início da idade adulta é bem menor da que aparece entre os evangélicos, que dominam nessa faixa etária. Os dados indicam, assim, que há uma tendência de enfraquecimento da socialização primária do catolicismo, indicando a possibilidade de um crise ainda maior pela frente.
Um dado curioso apontado pelos estudiosos Carlos Alberto Steil e Rodrigo Toniol, em livro que se encontra no prelo, o declínio estatístico dos católicos no Brasil vem acompanhado pelo avanço da instituição (Teixeira; Menezes, Prelo). Os autores indicam que “o contingente sacerdotal permaneceu praticamente constante em um contexto de acentuada diminuição dos autodeclarados católicos e de desaceleração do crescimento demográfico” (Teixeira; Menezes, Prelo). O que diminuiu foi o número de religiosas, que sempre se firmaram como grande força dinamogénica do catolicismo no país.Mostram ainda que a emergência disruptiva dos evangélicos no país, acabou provocando um fenômeno de “desnaturalização do catolicismo como a religião dos brasileiros” (Teixeira; Menezes, Prelo).
Um dado importante a ser considerado na reflexão sobre o catolicismo brasileiro, segundo os estudos desenvolvidos pelo antropólogo Pierre Sanchis, diz respeito ao traço plural do catolicismo brasileiro. Em frase clássica de Sanchis, “há religiões demais nesta religião” (Sanchis, 1992, p. 33). O antropólogo sublinha que as pesquisas envolvendo o campo católico mostram com clareza os “mecanismos de fagocitose” que conformam a identidade católica brasileira. Há que lembrar igualmente a presença entre os católicos do fenômeno recorrente da múltipla pertença, que é algo que escapa da apreensão dos diversos censos. Sanchis chega a sugerir que uma pergunta explícita deveria ser sempre feita nas abordagens do censo. Depois de fazer a clássica pergunta sobre a religião de pertença, uma outra deveria ser realizada: “Tem outra religião que você diria sua também?”. Isto talvez pudesse ajudar a ampliar o quadro de compreensão de nosso campo religioso (Sanchis, 2012, p. 7).
O caso do personagem Riobaldo Tatarana, do romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, é bem revelador do sincretismo que vige no campo religioso brasileiro:
Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles (Rosa, 2019, p. 19).
O catolicismo, como lembrou Carlos Rodrigues Brandão, é uma religião que abraça a diversidade. É uma das raras religiões que “em suas muitas faces permite que você seja uma forma de presença nela, mesmo quando você acha que já não é mais dela” (Brandão, 2010, p. 10). Trata-se de uma religião “tolerante”, que abriga em seu seio católicos participantes, praticantes e também apenas de nome.
Analisando a modernidade secularizadora, a socióloga francesa, Danièle Hervieu-Léger, sublinha que uma das questões envolvidas nas análises de uma sociologia da modernidade religiosa diz respeito ao tema da pertença. Trata-se, diz ela, de “tentar compreender conjuntamente o movimento pelo qual a Modernidade continua a minar a credibilidade de todos os sistemas religiosos e o movimento pelo qual, ao mesmo tempo, ela faz surgirem novas formas de crença” (Hervieu-Léger, 2008, p. 41). E essa reconfiguração das crenças traduz, em verdade, uma insatisfação com as expectativas da sociedade, que não consegue superar a condição de incerteza que se faz presente no tempo.
Há, sem dúvida, um fenômeno de “desinstitucionalização crescente”, como também mostrou Pierre Sanchis. A seu ver, as estruturas sólidas que fundavam, enquadravam, regulavam o universo das experiências religiosas, conferindo-lhes distinção, identidade e conteúdo, não o fazem mais com o mesmo rigor, e até quando se reafirmam com renovado vigor, não o fazem com a mesma abrangência (Teixeira; Menezes, 2013, p. 13).
Para Sanchis, nos anos vindouros, as instituições religiosas terão que lidar com algo de novo, ou seja, “um significado menos totalizante para a relação identitária que seus fiéis manterão com elas” (Teixeira; Menezes, 2013, p. 13-14). O que deve ocorrer é uma maior porosidade das identidades religiosas institucionais, com maior diversificação de seu significado e conteúdo.
1.2. Os evangélicos
Conforme os dados do Censo de 2022, um em cada quatro brasileiros definem-se hoje como evangélico, sobretudo pentecostal. Nos dados preliminares colhidos pelo censo, não aparece ainda a diferença de proporcionalidade entre os evangélicos de missão e os pentecostais. Mas é possível sublinhar que o censo atual tende-se a afirmar na linha do Censo de 2010, quando os evangélicos de missão somavam cerca de 4% da declaração de crença, enquanto os pentecostais angariavam 22,2% (Teixeira; Menezes, 2013, p. 22;161).
O Censo de 2022 indica que a população evangélica cresceu no Brasil, ainda que em índice inferior ao que estava sendo previsto pelos pesquisadores do tema. É o caso da reflexão do demógrafo José Eustáquio Alves, que tinha feito uma previsão arrojada, indicando que os evangélicos ultrapassariam os católicos já em 2030. O que o censo atual mostrou é que o crescimento previsto não ocorreu. Houve, sim, um crescimento, mas mais modesto, de cerca 5,2 pontos percentuais entre os anos de 2010 e 2022, passando de 21,6% para 26,9% da população. A maior presença dos evangélicos ocorre no Norte (36,8%) e Centro-Oeste (31,4%), com concentração na fronteira agrícola e mineral do país, bem como nas favelas e municípios de regiões metropolitanas. Os evangélicos já superam a metade da população em “58 municípios distribuídos nas cinco Grandes Regiões do país” (Teixeira; Menezes, Prelo). Destaca-se também, entre as declarações de crença evangélica, a presença substantiva de jovens entre 10 e 14 anos.
Assim como há uma diversidade presente no campo católico, essa realidade já começa a ocorrer no campo evangélico com a presença dos “evangélicos sem igreja” ou “evangélicos genéricos”, que são aqueles que não têm uma “denominação declarada”, e que não frequentam igrejas específicas, mesmo cultivando uma fé evangélica. E estes, como aponta Christina Vidal, já superam os evangélicos de missão (Teixeira; Menezes, Prelo).
O campo evangélico, sobretudo o pentecostal, é marcado por grande movimentação identitária. Os praticantes não tem o hábito de fixar-se exclusivamente numa dada instituição religiosa. Em singular pesquisa realizada pelo ISER (Instituto de Estudos da Religião, RJ) em tempos idos, já indicava que “70% dos evangélicos do Grande Rio não nasceram nem foram criados num lar evangélico”, assim como muitas das conversões são marcadas por transitoriedade, tendo, em geral, uma duração de 3 anos (Fernandes, 1998, p. 140). E o circuito de transações inter-religiosas permanece sempre aceso e em movimento.
Esse trânsito religioso ocorre igualmente alhures, como indicou Reginaldo Prandi em pesquisa realizada na cidade de São Paulo. Ele constatou ali que “um em cada quatro paulistanos encontra-se numa religião diferente daquela em que nasceu, que na maioria das vezes era a católica. E, mais ainda, sete em cada dez ´convertidos` mudaram de filiação religiosa no período de dez anos entre 1986 e 1995” (Rattner, 2000, p. 332).
Há igualmente um fenômeno apontado no último censo, que é a significativa presença dos evangélicos entre os indígenas no Brasil. Trata-se do grupo étnico com maior proporção de evangélicos. Do total dos indígenas que declararam crença, 32,2% revelaram-se evangélicos. Vale registrar aqui o relato etnográfico da antropóloga Aparecida Vilaça, sobre a presença missionária evangélica entre os índios Wari, com impacto importante em seu pai espiritual, Paletó (Vilaça, 2018, p. 144; 152).
Desde o censo anterior verifica-se a viva presença de pardos e negros entre os afiliados evangélicos. Já na análise do censo de 2010, Cecília Mariz e Paulo Gracino Jr. apontaram esse traço. Diziam na ocasião que “há percentualmente mais pardos e negros entre os pentecostais (48,9 e 8,45% respectivamente) do que no total da população brasileira” (Teixeira; Menezes, 2013, p. 172).
Os dados do Censo de 2022 confirmam essa realidade. Eles revelam, como indica Christina Vital, “que no grande grupo ´evangélicos` existe o maior percentual interno de pessoas pretas e pardas em relação aos demais grupos religiosos” (Teixeira; Menezes, Prelo). Em trabalho publicado ainda na década de 1990, Reginaldo Prandi assinala a crescente presença de negros nas fileiras das religiões não-negras, “das quais algumas mais agressivas modelam sua identidade mostrando-se numa guerra santa contra a religiosidade um dia trazida da África” (Prandi, 1996, p. 77).
Os evangélicos firmam-se hoje no Brasil com uma presença pública significativa, com incidência importante nas mídias sociais, na representação e participação política, nas produções culturais religiosas e não religiosas, bem como nas atividades diversificadas na assistência social. É o que sublinha a pesquisadora Magali Cunha em artigo para um livro sobre o tema, que se encontra no prelo (Teixeira; Menezes, Prelo).
Pode-se ainda acrescentar um dado fundamental presente no campo evangélico-pentecostal, que é a singular rede de sociabilidade que se forma entre os crentes. Diversos estudos têm apontado para esse traço, que é bem peculiar nas diversas igrejas em questão. Elas se revelam como espaços de agregação religiosa, de aprendizado e solidariedade. Como aponta com pertinência Regina Novaes, as igrejas evangélicas foram modificando paisagens urbanas e mudando seus hábitos culturais. Nos territórios foram se destacando por oferecer redes de apoio espiritual e material; por oferecer espaços de sociabilidade, acesso a aprendizados musicais; por produzir sensação de pertencimento e uma fé capaz de atenuar preconceitos de classe, de raça e de lugar de moradia (Teixeira; Menezes, Prelo).
E em contraponto com os passos da evangelização católica, o evangélicos assumem hoje um protagonismo que veio exercido antes pelas Comunidades Eclesiais de Base. São eles agora os que mais chegam às margens da sociedade. A lugares “de onde nenhuma outra instituição civil ou religiosa ousa se aproximar” (Valla, 2001, p. 69). Estudos específicos buscam igualmente analisar a presença evangélica em territórios árduos, cuja sociabilidade vem marcada também pela presença do tráfico de drogas, da violência policial e da ausência de serviços públicos (Cunha, 2015).
1.3. Os sem religião
Com base nos dados do Censo de 2022, o terceiro lugar na declaração de crença vem ocupado pelos que se declaram sem religião. Eles passaram em 10 anos de 7,9% para 9,3% da população. Em reflexão sobre o tema, Regina Novaes indica que a igreja católica tem sido uma importante fonte de alimentação dos sem religião, mas não exclusiva(Teixeira; Menezes, Prelo). É o que tinham aventado igualmente Paula Montero e Ronaldo de Almeida, indicando o catolicismo como um “doador universal”. Foi, de fato, “o principal celeiro no qual outros credos arregimentaram adeptos” (Rattner, 2000, p. 330).
Estamos num campo marcado por muitas mudanças e transições. É um número significativo, que soma cerca de 16,4 milhões de declarantes. Se tomamos como base o Censo de 2010, a presença de agnósticos e ateus nesse segmento é bem minoritária. Nos dados de 2010 os agnósticos somavam 0,07% e os ateus 0,32%. No censo atual esses dados não foram ainda apresentados.
O que se observa é que os sem religião são aqueles que se encontram desencaixados com respeito a vínculos institucionais. Inserem-se ainda neste grupo aqueles que se encontram em trânsito ou em processo de redefinição identitária. Como mostra Regina em trabalho ainda inédito, o declarar-se sem religião
pode ser um ponto de chegada definitivo, mas também pode ser um intervalo entre pertencimentos [...]. Distinguindo-se de ateus e agnósticos, quem se declara hoje ´sem religião` se situa em uma determinada posição que se constrói em oposição complementar às alternativas religiosas institucionais existentes. Pessoas que se declaram ´sem religião` questionam ´pacotes prontos`, mas não desistem de ter fé. Suas ´sínteses pessoais` podem combinar elementos ocidentais e orientais e, muitas vezes, se traduzem em hábitos alimentares, recursos terapêuticos e medicinais. Podem frequentar diferentes espaços rituais de religiões instituídas, mas não buscam pertencimento (Teixeira; Menezes, Prelo).
Há uma maior presença dos sem religião entre os homens e jovens, numa fase que é mais propícia para a experimentação. Os jovens, nas diversas faixas sociais, são aqueles que “estão à procura de novas formas de experiências religiosas, nas quais a música, a dança e o contato com o mundo sagrado sem a intervenção de agentes mediadores são elementos centrais” (Ratner, 2000, p. 335).
1.4. Os espíritas
Conforme os dados do Censo de 2022, o espiritismo sofreu um refluxo com respeito ao censo anterior. No Censo de 2010 o espiritismo apresentou uma taxa de crescimento expressiva, passando de 1,3%, em 2000, para 2% em 2010. Nada menos do que 3,8 milhões de fiéis declarados na ocasião. Com o novo censo, em 2022, o espiritismo encolheu para 1,8%, envolvendo agora cerca de 3,3 milhões de fiéis. A maioria dos declarantes espíritas estão na região Sudeste e constituem o grupo com os melhores níveis de instrução, sendo a sua maioria de brancos e pardos.
Fica em aberto o trabalho hermenêutico para entender essa “queda relativa” na declaração de crença espírita, depois de três décadas de crescimento regular.
Ao analisar a situação, o antropólogo Marcelo Camurça sublinha que a queda indicada pode estar relacionada com o fato de que em censos anteriores, muitos adeptos das religiões afro declaravam-se, em verdade, como espíritas. E isso explica igualmente o crescimento singular das religiões de matriz africana no último censo (Teixeira; Menezes, Prelo). Camurça lembra ainda o impacto exercido no campo espírita pelas perdas de lideranças referenciais como Chico Xavier e Divaldo Pereira Franco, bem como os percalços que envolveram a trama de João de Deus. Houve também uma “queda na produção audiovisual espírita das telenovelas e filmes”, e a emergência da presença de novelas bíblicas evangélicas.
Camurça prefere falar em espiritismos, em vez de espiritismo, e sublinha o ímpeto do espiritismo brasileiro na dinâmica das interfaces com outras tradições religiosas. Ressalta “o pendor espírita para estabelecer porosidades não apenas com a Umbanda, mas também [...] com o catolicismo, com os neo-esoterismos, os orientalismos e os ´sem religião`” (Teixeira; Menezes, Prelo).
1.5. As religiões afro-brasileiras
Como mostrou com pertinência o sociólogo Reginaldo Prandi, grande pesquisador das religiões afro-brasileiras, o Censo de 2022 revelou uma grande surpresa: o que parecia um encaminhamento para o ocaso, traduziu, na verdade, uma expressiva reversão no quadro de queda das religiões afro-brasileiras. Os dados apontaram um crescimento espantoso, maior do que o ocorrido em qualquer dos outros grupos religiosos. A declaração de crença afro-brasileira passou de 0,3% em 2010 para 1,0% em 2022, ou seja, um crescimento de 233,3%. Talvez a maior novidade do último censo tenha sido essa constatação do crescimento das tradições afro-brasileiras. Elas “não apenas resistiram, mas cresceram em número e ocuparam melhores nichos sociais, revelando um processo de recomposição simbólica e identitária que reflete mudanças no país que vão além da esfera religiosa” (Teixeira; Menezes, Prelo).
1.6. As religiões indígenas e as outras religiosidades
Contando com a mudança de metodologia processada pelo IBGE no Censo de 2022, verificou-se um aumento da população indígena com respeito aos dados do Censo de 2010. Agora são 1.694.836 indígenas no território brasileiro, resultando em 0,83% da população nacional. Eles estão distribuídos em 391 etnias, e falam 295 línguas. Dentre as etnias mais numerosas estão a Tikuna (74.061), a Kokama (64.327) e a Makuxi (53.446). No censo anterior o número de etnias era de 305. Outro dado apontado pelo censo atual foi a constatação de uma maior presença da população indígena nas áreas urbanas, com cerca de 53,97% de sua população. Dentre os estados da Federação, São Paulo é a unidade com maior presença de etnias (271), seguida pelo Amazonas (259) e Bahia (233).
Com respeito às outras religiosidades, houve um aumento de 1,3 pontos percentuais nos últimos dez anos, passando de 2,7% registrados no Censo de 2010 para 4% no censo atual. São cerca de 7.079.101 brasileiras e brasileiros que fazem tal opção. Trata-se ainda de um número bem reduzido de presença no território nacional. Neste grupo encontram-se os praticantes do judaísmo, islamismo, hinduísmo, budismo, testemunhas de Jeová, entre outras expressões religiosas. O maior percentual de declarantes encontra-se no Sudeste (4,9%).
2. O fenômeno do encantamento no campo religioso brasileiro
Numa avaliação mais geral desse dinâmica do campo religioso brasileiro, podemos perceber com muita clareza o traço de “encantamento” que conforma o território nacional. Não há dúvida de que a presença do “outro mundo” está muito viva entre os brasileiros. Como já apontou em tempos passados o antropólogo Roberto DaMatta, o brasileiro é alguém que circula entre a casa, a rua e o outro mundo. Nesse último plano, marcado pelo traço do mistério e da eternidade, o brasileiro sente-se também à vontade.
Ali tudo pode se encontrar e fazer sentido. Assim, o outro mundo – o mundo dos mortos, fantasmas, espíritos, espectros, almas, santos, anjos e demônios – é também uma realidade social marcada por esperanças, desejos que aqui ainda não puderam se realizar pessoal ou coletivamente [...]. É um mundo de esperanças e de potenciais que a história e o rumo dos acontecimentos não fizeram com que se realizasse (Damatta, 1997, p. 151).
O brasileiro, sobretudo aquele do meio popular, vive num mundo encantado, num clima de grande espiritualização, modulado pela presença de forças, energias e espíritos. Trata-se de um mundo relacional. Envolvido por forças e espíritos, os fiéissentem-se conformados por um dossel de nomização. O diálogo com esses “outros” está sempre presente e modula a plausibilidade da construção do mundo.
Esse clima “espiritualista” foi também apontado por Pierre Sanchis:
O ser humano está envolvido num universo povoado por forças, espíritos e influências que mantêm relações com as pessoas. Parece haver sempre um diálogo entre esses ´outros` e a própria pessoa, que se constrói precisamente no processamento dessa relação... Orixás para alguns, mortos, santos ou entidades para outros; Nossas Senhoras que aparecem e vêm conviver com os homens; anjos, espíritos, forças cósmicas, demônios, ou tudo isso ao mesmo tempo; enfim, Espírito Santo para pentecostais e carismáticos (Sanchis, 2001, p. 26).
Esse circuito de espíritos não é um fenômeno isolado ou restrito a grupos específicos, mas algo que se dá em parte significativa da população brasileira. Em reflexão sobre o tema, o antropólogo Gilberto Velho sublinha que, mesmo num cálculo modesto, é possível afirmar que “cerca da metade (da população brasileira) participa diretamente de sistemas religiosos em que a crença em espíritos e na sua periódica manifestação através dos indivíduos é característica fundamental” (Velho, 1994, p. 54).
Não é possível compreender o campo da realidade excluindo esse “som Brasil” que se expressa no circuito dos espíritos e entidades que se irradiam por todo canto. São dezenas de milhões de brasileiros que entram regularmente em contato com esse outro mundo e estabelecem com ele relações personalizadas. E isto está presente em todos os rincões do país. Mais recentemente, os pesquisadores Florêncio A. Vaz Filho e Luciana G. de Carvalho relataram a riqueza da experiência desse encantamento entre os povos amazônicos. Como eles indicaram, “a cosmovisão dos indígenas e moradores do Baixo Amazonas é centrada na existência de espíritos que são chamados de encantados, que vivem nos rios e nas florestas, ao lado ou muito próximo dos humanos” (Vaz Filho; Carvalhoh, 2023, p. 25). Vale para o Brasil o que afirmou certa vez o filósofo Heráclito: “Tudo está cheio de deuses”.
O que ocorre entre nós é uma verdadeira “dança dos sincretismos”, que nem sempre o censo demográfico consegue dar conta e captar com precisão. Como apontou Pierre Sanchis, o sincretismo não é algo problemático, mas marcado por grande riqueza relacional. Trata-se de um fenômeno singular, onde utiliza-se “relações apreendidas no mundo do outro para ressemantizar” o próprio universo (Sanchis, 1994, p. 7). Por razões históricas, o sincretismo marcou presença profunda no território brasileiro, e podemos encontrar sua manifestação precisa nos rituais das religiões afro-brasileiras. Temos o lindo exemplo, apontado por Luiz Antonio Simas, que relaciona são João Batista com Xangô Menino, é que vem celebrado em canção de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Como diz o autor,
nos cruzamentos encantados da brasilidade, as fogueiras acesas para os santos de junho também ardem nas celebrações a Xangô, um dos orixás que atravessaram o oceano ao lado de seus filhos vitimados pelo horror do sequestro e do cativeiro (Simas, 2022, p. 146).
Em Santo Forte, um documentário produzido por Eduardo Coutinho em 1999 sobre passos da religiosidade do povo brasileiro, há uma passagem singular em que uma das entrevistadas, Thereza Ferreira, aponta para o seu quintal e diz para o cineasta que o local está povoado por espíritos. Ela olha com firmeza para seu interlocutor e sublinha que ali há uma legião de espíritos, e que as pessoas em geral não têm o potencial de vidência para ver.
Na rica e complexa visão dos Yanomamis, a floresta está igualmente permeada pela presença protetora dos xapiris, que dão vida e sabor à floresta de Omama. São eles os espíritos que se interessam por todos, e que se juntam felizes, dançando e cantando com a dinâmica do céu à volta de todos. As palavras encantadas desses espíritos escapam à mirada dos brancos, cujo caminho da mente é “tortuoso e espinhoso” (Kopenawa; Albert, 2015, p.75; 463).
E nessa ciranda de fluidos espirituais, os protagonistas vivem a experiência profunda de intensificação de sua qualidade de sujeitos. É o que apontam com grande beleza Pierre Verger e Roger Bastide, com base nas observações da “dança dos deuses” no candomblé. Para Verger, a baiana do recôncavo deixa de ser uma entre milhares de outras para se transformar numa rainha. É o que igualmente exemplificou Bastide:
Não são mais costureirinhas, cozinheiras, lavadeiras que rodopiam ao som dos tambores nas noites baianas; eis Omolu recoberto de palha, Xangô vestido de vermelho e branco, Iemanjá penteando seus cabelos de algas. Os rostos metamorfosearam-se em máscaras, perderam as rugas do trabalho cotidiano, desaparecidos os estigmas desta vida de todos os dias, feita de preocupações e de miséria. Ogum guerreiro brilha no fogo da cólera, Oxum é toda feita de volúpia carnal. Por um momento, confundiram-se África e Brasil; aboliu-se o oceano, apagou-se o tempo da escravidão. Eis presentes aqui os orixás, saudando os tambores, fazendo icá ou debalé diante dos sacerdotes supremos. Não existem mais fronteiras entre natural e sobrenatural; o êxtase realizou a comunhão desejada (Bastide, 2001, p. 39).
Conclusão
A riqueza dessa diversidade que marca o campo religioso brasileiro escapa da apreensão objetiva do Censo do IBGE. Trata-se de uma realidade marcada por muita dinamicidade e inter-relações que nem sempre vem captada. Daí a fundamental importância de enriquecer os dados apresentados com estudos qualitativos substantivos que favoreçam um olhar mais apropriado para entender esse rico universo religioso. Foi com base em pesquisas qualitativas e observação empírica que estudiosos do tema constataram, por exemplo, a refração do catolicismo, ainda que menor que a esperada no último censo, bem como o “desgaste de um tipo de cristianismo entre os próprios evangélicos”, ainda que confirmando a força de sua presença no país, evidenciando uma pluralização do cristianismo(ISER, 2025, p. 19). O acesso à compreensão mais profunda dos dados sobre as religiões no Brasil, depende ainda de uma divulgação dos descritores detalhados e dos microdados que estão para ser apontados proximamente pelo IBGE. Assim, poderemos, finalmente, ter um quadro mais preciso da dinâmica religiosa em curso no país. É o que os pesquisadores aguardam com grande expectativa.
Referências
BASTIDE, Roger. O candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
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