06 Março 2026
"O pecado pessoal não é desobedecer às leis, que vêm do ídolo, mas sim sermos insensíveis aos clamores e sofrimentos dos pequenos. Como disse papa Leão XIV, 'Se permanecêssemos, porém, indiferentes a esse clamor, o pobre clamaria ao Senhor contra nós e isso tornar-se-ia para nós um pecado (cf. Dt 15, 9) e, deste modo, afastar-nos-íamos do próprio coração de Deus' (Dilexi Te, n. 8)", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
No último artigo, “A guerra cultural em torno de ‘pobres como pecadores’ e políticas sociais”, eu comentei que a maioria de brasileiros pensam que as políticas públicas na linha de defesa dos direitos sociais dos pobres violam o princípio de que apenas quem merecem devem ser beneficiados. Esse assunto, que com certeza vai estar presente, mesmo que implicitamente, nas campanhas eleitorais deste ano, tem uma relação direta com um dos conceitos teológicos fundamentais da tradição cristã: o pecado. Isto é, precisamos discutir aqui a relação entre (a) políticas e campanhas sociais e eleitorais e (b) a teologia do pecado e do quem é o pecador.
O interessante é que o tema do pecado e do pecador é comum nos setores mais conservadores das igrejas, sejam a católica, protestante ou (neo)pentecostais. Grupos “progressistas” e da libertação não costumam e não sabem bem como lidar com isso. Para eles, falar sobre o pecado parece defender a repressão religiosa, especialmente na área de sexualidade e de gênero. O problema é que não se pode falar sobre e vivenciar uma religião sem lidar com discernimentos morais; o que significa diferenciar o que é pecado e o que é da graça.
Esse é um exemplo de como o cristianismo “imperial”, conservador e/ou da direita conseguiram sequestrar valores e conceitos teológicos fundamentais do cristianismo. (Hugo Assmann mostrou claramente como o capitalismo sequestrou o mandamento do amor ao próximo e o transformou em uma ideologia do mercado livre.) Antes da tradição bíblica, as sociedades e suas religiões acreditavam que a “história” era governada pelo destino dirigido pelos deuses. Isto é, não tinham o conceito de história humana. Até o grande filósofo Aristóteles acreditava e ensinava que a natureza criou dois tipos de seres humanos, os livres e os escravos. Isto é, a escravidão não seria fruto de conflitos sócio históricos, mas sim expressão da natureza. Seja pelas religiões ou pelas filosofias, a escravidão e opressão eram interpretadas como destino, vontade dos deuses ou da natureza. E, nos dias de hoje, o neoliberalismo é no fundo uma teologia do destino.
Frente ao domínio de Deus, do destino ou da natureza, os oprimidos e dominados não têm alternativa a não ser aceitar os seus sofrimentos. Como disse Max Horkheimer, é a tradição bíblica com a ideia de pecado que rompe com a noção de destino estabelecido pelos deuses. O Caim matar Abel (a primeira vez que aparece a palavra pecado no livro de Gênesis) não é um destino estabelecido por deuses, é pecado! Isto é, com o mito de Adão e Eva, a tradição bíblica introduz a noção da liberdade humana e a livre-arbítrio (dois conceitos distintos) na cosmovisão pré-moderna. É depois que Caim mata, por inveja e não por um destino trágico, que a Bíblia fala do pecado.
Na visão do destino estabelecidos por deuses ou natureza, a rebelião de um escravo ou de uma mulher contra a sua opressão seria interpretada, em linguagem moderna cristã, como pecado de desobediência às leis/destino estabelecidas por deuses. Com a Bíblia, que revela um Deus-Yahweh que ouve o clamor do seu povo escravo e vem à história para libertá-lo, temos uma revolução paradigmática: rebelar-se contra leis opressivas e sem sentido (que não se justifica na dinâmica da vida humana de todos) não é pecado, mas sim uma rebelião que liberta, uma ação profética. No mito do Jardim de Éden, Eva é a que se rebela e se torna uma pessoa livre, e tudo o que a liberdade humana significa na vida, incluindo os problemas de da produção (terra) e reprodução (parto) da vida (Jung Mo Sung, O sagrado X o santo: a rebelião de Eva e o pecado original do capitalismo, cap. 2).
Uma visão idolátrica de Deus coloca a obediência às leis “sagradas” da igreja e do capitalismo como pecado e reduz o debate do pecado ao pecado individual e a lei. Na Bíblia, a lógica é outra: por encontrar o Deus que liberta os oprimidos, o povo de Deus percebe que a situação e a estrutura em que se vive é injusta e contrária ao propósito de Deus na sua criação. Por isso, o papa Leão XIV disse: “A Conferência de Puebla, diante do agravamento da miséria na América Latina, confirmou a decisão de Medellín com uma opção franca e profética a favor dos pobres e qualificou as estruturas de injustiça como ‘pecado social’” (Dilexi Te, n. 90).
Nesse sentido, podemos dizer que no mundo de hoje nós redescobrimos a noção original do pecado a partir do “pecado social” ou do “pecado estrutural”, isto é, a uma estrutura social injusta marcada de pecado. E essa luta contra o pecado da injustiça e da morte “antes do tempo” não elimina a noção de pecado pessoal. O pecado pessoal não é desobedecer às leis, que vêm do ídolo, mas sim sermos insensíveis aos clamores e sofrimentos dos pequenos. Como disse papa Leão XIV, “Se permanecêssemos, porém, indiferentes a esse clamor, o pobre clamaria ao Senhor contra nós e isso tornar-se-ia para nós um pecado (cf. Dt 15, 9) e, deste modo, afastar-nos-íamos do próprio coração de Deus” (Dilexi Te, n. 8).
Leia mais
- A guerra cultural em torno de “pobres como pecadores” e políticas sociais. Artigo de Jung Mo Sung
- Dilexi Te: o pecado social, a estrutura de pecado e a idolatria. Artigo de Jung Mo Sung
- Dilexi Te: do reino do pecado da cultura neoliberal à conversão ao Reino de Deus. Artigo de Jung Mo Sung
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