03 Março 2026
"Se essas palavras forem verdadeiras, então qualquer exposição que não seja acompanhada por uma verdadeira reforma das estruturas eclesiásticas soa como uma incoerência performativa", escreve Gianni Urso, em artigo publicado por Facebook, 28-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Vamos chamar as coisas pelo nome: a exposição dos restos mortais de São Francisco na Basílica Inferior de Assis não é um ato neutro de devoção. É uma escolha teológica e política. E deve ser julgada como tal.
Não basta dizer que "a tradição sempre venerou relíquias". A tradição também é conflito, discernimento, conversão. Aqui não estamos diante de uma simples memória: estamos diante de uma encenação que corre o risco de contradizer frontalmente o que Francisco viveu. Francisco não fundou um sistema de culto em torno de seu próprio corpo. Em seu Testamento, ele escreve: "O Senhor me conduziu aos leprosos". Ele não diz: "Ele me conduziu ao altar". Ele diz: "Aos excluídos". O lugar teológico de Francisco não é o santuário, mas a periferia social. Expor seus ossos enquanto a Igreja luta para se desvencilhar de seus privilégios significa realizar uma operação simbólica que inverte a sua mensagem.
O profeta Amós não deixa escapatória: “Odeio e desprezo as suas festas religiosas... em vez disso, que a retidão corra como um rio” (Amós 5,21-24). Não é um ataque ao culto em si, mas ao culto que encobre a injustiça.
Quando a liturgia falha em produzir conversão estrutural, torna-se anestesia moral. E aqui a questão é estrutural: que conversão eclesial acompanha essa ostentação? Que renúncia concreta ao poder? Que desarmamento econômico?
No capítulo IX da Regra não bulada, Francisco proíbe os frades de receberem dinheiro “de qualquer maneira”. Isso não é romantismo espiritual: é um ato de ruptura com a economia da posse. É um gesto que desestabiliza a ordem social de seu tempo. Hoje, enquanto se organizam fluxos, percursos e comunicação institucional, que relação com o dinheiro está sendo questionada? Ou estamos diante de uma gestão ordenada da memória que não afeta os mecanismos econômicos e eclesiais?
A história é clara. Após a morte de Francisco (1226), sua rápida canonização pelo Papa Gregório IX e a imediata construção da grande basílica marcaram o início de um processo: a integração do carisma dentro da estrutura. Tomás de Celano nos apresenta um homem impetuoso, quase incontrolável. Boaventura de Bagnoregio oferece uma síntese mais harmoniosa, mais compatível com a ordem eclesial. Não é uma falha moral: é a dinâmica com que a instituição domestica o profeta.
Mas, precisamente por essa razão, hoje não podemos fingir inocência. Toda exposição é um ato de poder simbólico. É a Igreja que decide como e quando exibir o corpo do santo. Francisco, porém, despiu-se diante do Bispo Guido para declarar que não chamaria mais ninguém na terra de "pai", exceto Deus. Esse gesto foi um protesto público contra a posse e a filiação proprietária. Expor seus ossos sem expor a própria nudez eclesial é uma contradição.
O Evangelho é ainda mais radical. Em Lucas 10:4, Jesus ordena: "Não levem bolsa, nem alforje, nem sandálias".
É uma ordem missionária que implica precariedade real. Mateus 23,27, denuncia os “sepulcros caiados”. É uma imagem tremenda: estruturas esplêndidas que abrigam a morte. Se a Igreja não se converter, a exposição corre o risco de se assemelhar mais a isso do que ao seguimento. Até mesmo o magistério recente oferece critérios que julgam severamente operações desse tipo. O Papa Francisco, na “Evangelii Gaudium”, escreve: “Não a uma Igreja preocupada em ser o centro” (EG 49). E ainda: “Não a uma economia da exclusão” (EG 53). Na “Fratelli Tutti”, ele denuncia a cultura do descarte. Na “Gaudete et Exsultate”, afirma que a santidade não é uma exposição de museu, mas vida concreta.
Se essas palavras forem verdadeiras, então qualquer exposição que não seja acompanhada por uma verdadeira reforma das estruturas eclesiásticas soa como uma incoerência performativa.
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