O plano Biden é uma obra-prima, também é conveniente para Bibi e o Hamas. Artigo de Domenico Quirico

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04 Junho 2024

"O medíocre truque da grotesca cabotagem de Blinken ao Oriente ou das ameaças de TV de renegar Israel, não enganou ninguém. O Plano [de Biden] oferece-lhe o slogan nos comícios: parei a guerra em Gaza!", escreve Domenico Quirico, jornalista italiano, em artigo publicado por La Stampa, 03-06-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Aprendi muito mais lendo o chamado plano Biden para a interrupção das hostilidades em Gaza do que com seis meses de doutos comentários sobre as perspectivas geopolíticas do Oriente Próximo. O enigma desse texto que acabamos de desvendar, mesmo ainda desconhecido nos detalhes, é suficiente para confirmar o único final possível, e provisório, para a tragédia que começou com a invasão do Hamas em 7 de outubro no Sul de Israel. Mas o que é possível senão o real, deixando o restante entregue à utopia demente ou, pior, à mentira interesseira? Em resumo: o retorno puro e simples a 6 de outubro. Isto é, a guerra permanente, cotidiana, de baixa intensidade, mas infinita entre palestinos e israelenses. Mas reduzindo o volume do escândalo humanamente indecente que revirou as ruas sonolentas do Norte do mundo, causou o risco de um sacrilégio a mais e, portanto, causou incômodos inoportunos às chancelarias ocidentais envolvidas em certames eleitorais decisivos para a sua sobrevivência.

Pontos de resposta: a isso a negociação visa. Afinal, depende do que se deseja. À sua maneira, "o Plano" é uma pequena obra-prima que, como todas as obras-primas, mesmo as diplomáticas, não modificam nada de fundamental, apenas retrata o não-retratável, dá nome ao inominável, obriga a sair do sono dogmático da paz definitiva dos dois povos e dos dois Estados que voltam a ser sombra e fantasma. Devolve os palestinos, mas em parte também os israelenses, ao seu destino de tremenda solidão onde estar vivos é ainda mais difícil do que estar mortos, a arrastar aos frangalhos uma memória do ódio cada vez mais viva.

Mas não só. Certifica sem dizê-lo, por Deus!, a constatação clara desde 6 de outubro que Israel perdeu esta guerra no momento em que o Hamas assassinou clamorosamente o bastião vital da sua intangibilidade. Depois de ter tentado durante meses, com a monstruosidade da reação, a façanha impossível de reconstruí-la, aniquilando o grupo jihadista até ao último extremista, até mesmo Netanyahu deve resignar-se tentando, como político astuto e com a ajuda de Biden, não o admitir.

O exército israelense, verdade que aliás conhecíamos, é invencível se atacar primeiro, como em 1956 e 1967. Quando é atacado, mais ou menos de surpresa, como em 1973 e em 6 de outubro de 2023, fica se debatendo, bate incessantemente, mas é vulnerável. O que diz exatamente o Plano para ser tão tristemente decisivo, tão resignado e assombroso? Ele diz que finalmente se renuncia à litania de dois povos e de dois Estados. O esforço de pôr fim ao massacre desencadeado pelos jihadistas só podia ser confiado a algo astuto, ambíguo e viscoso, cheio de segundas intenções inconfessáveis, mas que permitem a cada um dos protagonistas, Estados Unidos, Netanyahu, Hamas, ter certezas razoáveis de obter alguma vantagem egoísta. Mas, infelizmente! Na história atual, onde os povos servem de panos de chão e onde não emigram, fogem, quem causa os piores danos são aqueles que se propõem finalidades totais, escatologias absolutas, teológicos e definitivos ajustes de contas com o Mal. Pelo fato da guerra entre palestinos e israelenses ser, como diriam os canonistas medievais, consubstancialmente plantada nas entranhas da realidade histórica da qual surgiu, no choque entre duas razões, se o plano for aplicado pelo menos parcialmente, o número das vítimas cairá de milhares por mês para centenas, talvez para dezenas. Cínico? O único e piedoso resultado possível quando, há meses, são feitos cálculos na ordem de megamortes, como em vão tinham alertado loquazes minorias de pessimistas de plantão. A paz permanece o eterno ausente, o convidado que não convidamos, o vazio que não preenchemos.

Então o primeiro a garantir vantagem é o próprio Biden que desfraldou o anúncio do plano transformando-o em algo seu. Era assediado pela acusação de cumplicidade no massacre de civis, pelos (possíveis) eleitores democratas nas próximas eleições presidenciais. Uma geografia de histeria. O medíocre truque da grotesca cabotagem de Blinken ao Oriente ou das ameaças de TV de renegar Israel, não enganou ninguém. O Plano oferece-lhe o slogan nos comícios: parei a guerra em Gaza!

E Netanyahu, cinzento como o mau humor, já destinado ao tribunal, à prisão? Ele também amealha algumas vantagens significativas. Ele sabe bem que pela versão dada pelo seu governo, estamos vencendo... mais um momento de paciência e aniquilaremos o Hamas e traremos para casa todos os reféns vivos e mortos, não convencia mais os israelenses: os homens no poder tinham perdido o controle da opinião pública, o momento em que quem comanda começa a parecer ilegítimo aos olhos dos súditos. Por algumas semanas se interrompem as mais amplas e mortais operações em termos de vidas humanas, os reféns voltam para casa. E sempre há tempo para retomar o bombardeio contando com um movimento em falso do Hamas; os jihadistas, por natureza, não podem fazer paradas no caminho para o paraíso.

Nesse interim, haverá as eleições que, como dizem as sondagens, espera vencer. Para seus aliados furiosos que exigem o “made in” do reino de Sião pedirá para ter paciência, por outro lado onde vão encontrar outro como ele?

E, além disso, tem o Hamas: em troca de cadáveres de reféns, consegue uma trégua para sair dos seus labirintos e pode legitimamente anunciar que derrotou Israel, forçando-o a negociar. O Hamas é legitimado, fim dos terroristas das fatwas necrófagas. Para fazer uma comparação é como se o Estado tivesse tratado com as Brigadas Vermelhas. Para a escalada messiânica terrorista, talvez seja um triunfo inesperado.

Vocês querem uma imagem simbólica? Netanyahu, um procurado por crimes de guerra, que será convidado a discursar no Congresso dos EUA. Há muito a refletir sobre o valor dos tribunais penais planetários e seu impotente direito internacional.

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