Os resistentes ao Sínodo: entre o silêncio e o fantasma do cisma

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29 Agosto 2023

À medida que se aproxima a data de arranque do Sínodo sobre a Sinodalidade, os setores da Igreja Católica que criticam ou mesmo recusam os rumos seguidos durante o pontificado do Papa Francisco estão a dramatizar, criando a ideia de que se vai abrir uma “caixa de pandora” e se pode estar a avizinhar um cisma.

A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7Margens, 25-08-2023.

As vozes mais recentes são dois prelados dos Estados Unidos da América, que já deram múltiplos sinais de dissentimento e condenação de Francisco na praça pública.

Na última terça-feira, 22 de agosto, o bispo da diocese texana de Tyler, Joseph Strickland, que ainda em maio último disse rejeitar o programa do Papa por “minar o Depósito da Fé”, entendeu dirigir uma carta aos seus diocesanos para os pôr de sobreaviso de que “mensagens malignas e falsas invadiram a Igreja”, exortando-os a desconfiar de quaisquer “tentativas de apresentar uma alternativa ao Evangelho de Jesus Cristo”.

Enquanto “pai espiritual”, o hierarca aponta sete pontos que considera fundamentais da doutrina, relativos à a autoridade da Igreja, aos sacramentos da eucaristia e do matrimónio, à condenação da atividade sexual fora do casamento e outros aspetos contrários à fé cristã. A propósito deles, assevera: “a Igreja existe não para redefinir matérias de fé, mas para salvaguardar o depósito dessa fé” que foi lhe “entregue pelo próprio Jesus, através dos apóstolos, dos santos e dos mártires”.

E explicando a razão destas precauções, acrescenta Strickland: “Nas próximas semanas e meses, muitas destas verdades serão examinadas no Sínodo sobre a Sinodalidade. Temos de nos agarrar a estas verdades e de estar alerta para quaisquer tentativas de apresentar uma alternativa ao evangelho de Jesus Cristo ou de forçar uma fé que fala de diálogo e de fraternidade, mas que procura eliminar a paternidade de Deus”.

Os cismáticos são os outros

Para o bispo, querer inovar neste terreno só pode conduzir a um “terreno traiçoeiro”. O caminho mais seguro é, mesmo, “permanecer firmemente nos perenes ensinamentos da fé”.

Nesta linha, tranquiliza os seus diocesanos, avisando que se alguém se opuser sem rodeios às mudanças que vierem a ser apresentadas, isso não significa que esteja contra a Igreja. Pelo contrário: aqueles que propõem mudanças naquilo que não pode ser mudado procuram apoderar-se da Igreja de Cristo e são, de facto, os verdadeiros cismáticos, escreveu na missiva de três páginas.

Para reforçar estas preocupações, o bispo de Tyler anunciou na ex-rede social Twitter (agora designada X), esta sexta-feira, o início de uma ‘novena’ do terço, com a duração de 54 dias, que terminará na reta final da primeira parte do Sínodo dos Bispos, no Vaticano. A intenção é “rezar para que os corações de todos os delegados sinodais se aproximem do Sagrado Coração de Jesus”.

A outra voz que se levantou contra o Sínodo foi a de um cardeal, também já bem conhecido pela oposição ao Papa: trata-se de Raymond Burke, que exprimiu as suas ideias no prefácio um livro que acaba de sair, denunciando o Sínodo sobre a Sinodalidade como uma “caixa de Pandora” que ameaça desencadear “graves danos no Corpo Místico de Cristo”.

O livro é da autoria de José Antonio Ureta e Julio Loredo de Izcue, tem por título The Synodal process is a Pandora’s box [O processo sinodal é uma caixa de Pandora] e é editado pela The American Society for the Defense of Tradition, Family, and Property (os autores estão igualmente ligados à rede internacional designada por Tradição, Família e Propriedade). O opúsculo organiza-se em perguntas e respostas em torno dos temas, conceitos e organização do presente Sínodo da Igreja Católica.

O que vai sair da “caixa de Pandora”

O prefácio do cardeal Burke começa por felicitar os autores do livro e vai direto ao propósito de derrubar a própria razão de ser do Sínodo, pelo “evidente e grave dano que está a causar ao Corpo Místico de Cristo”:

“Dizem-nos que a Igreja que professamos, em comunhão com os nossos antepassados na fé desde o tempo dos apóstolos, como sendo una, santa, católica e apostólica, deve agora ser definida pela sinodalidade, um termo que não tem história na doutrina da Igreja e para o qual não existe definição razoável”, considera.

O cardeal pretende, depois, insinuar que aquilo que vai agora acontecer em Roma é “uma revolução para mudar radicalmente a Igreja”, algo que, para ele, já foi posto em prática com o Sínodo de Würtzburg, na Alemanha, que decorreu entre 1971 e 1975.

Não se trata de uma questão puramente teórica, acrescenta Burke, pois assenta numa “ideologia contemporânea que nega muito do que a Igreja sempre ensinou e praticou” e que, também ela “já foi posta em prática, há alguns anos, na Igreja da Alemanha, espalhando amplamente a confusão e o erro e o seu fruto, a divisão – e mesmo o cisma –, com grave prejuízo para muitas almas”. Os resultados do Sínodo sobre a sinodalidade, não poderão ser diferentes e, diz, já começaram a surgir na preparação do Sínodo a nível local.

Este livro, que tem uma tradução em italiano, tem sido objeto de significativa atenção, sobretudo por parte de meios que têm, tal como o cardeal Raymond Burke, uma posição crítica e mesmo de combate ao pontificado do Papa Francisco.

Burke e Strickland estão longe de ser os únicos membros da hierarquia que lidaram e lidam mal com o atual processo sinodal, percebendo-o como uma ameaça ao modelo de Igreja do passado a que estão agarrados. Recorde-se que o cardeal Zen, de Hong Kong, que esteve preso devido à lei de segurança que as autoridades chinesas impuseram no território, se manifestou também muito preocupado com o Sínodo porque, tal como Burke, considera que o que se fez na Alemanha (não o de anos recentes, mas o dos anos 70) levou, segundo disse, à deserção de muitos católicos.

Por sua vez, o falecido cardeal George Pell terá afirmado que o Sínodo seria um “pesadelo tóxico”, ao passo que o cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, lhe chamou uma “tomada de controlo hostil”. Este último terá oportunidade, no entanto, de partilhar os seus pontos de vista e escutar as dos outros na própria aula sinodal, já que o Papa o incluiu na lista dos seus convidados.

Em todo o caso, mais do que estas vozes barulhentas, hoje bastante desacreditadas, é sobretudo de ter em conta a ‘multidão’ dos bispos que executam as ordens que vêm de Roma, mas continuam a assumir o processo sinodal como uma “mania do Papa” ou uma moda que mais tarde ou mais cedo passará.

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