Paulo VI timoneiro do Vaticano II. Artigo de Vincenzo Bertolone

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26 Novembro 2022

"Ambos reformadores em razão do impulso inicial, o Papa João, e da continuação e conclusão do Vaticano II, o Papa Montini, na prova dos fatos estão mostrando que uma verdadeira reforma da Igreja, que não queira ser uma revolução ou uma cisão, sempre passa pela santidade de vida", escreve Vincenzo Bertolone, arcebispo emérito de Catanzaro-Squillace, na Itália, em artigo publicado por Settimana News, 10-11-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

G. Bernanos escreve em um rascunho inacabado de um livro sobre Lutero: "Quem pretende reformar a Igreja com os mesmos meios que são usados para reformar uma sociedade temporal, não só fracassa em sua empreitada, mas infalivelmente acaba ficando fora da Igreja. Vai acabar fora da Igreja antes mesmo que alguém o venha a excluir; ele se exclui por si mesmo por uma trágica fatalidade”.

Tanto o idealizador do Vaticano II, João XXIII, quanto seu timoneiro, Paulo VI, foram incluídos no calendário católico dos santos justamente por serem os artífices do que em sua época se chamava atualização.

Ambos reformadores em razão do impulso inicial, o Papa João, e da continuação e conclusão do Vaticano II, o Papa Montini, na prova dos fatos estão mostrando que uma verdadeira reforma da Igreja, que não queira ser uma revolução ou uma cisão, sempre passa pela santidade de vida.

Uma época de grandes transformações

Presidindo o rito de canonização de Paulo VI, em 14 de outubro de 2018, o Papa Francisco afirmou sobre ele: “Hoje nos exorta ainda, junto com o Concílio de que foi sábio timoneiro, a viver a nossa vocação comum: a vocação universal à santidade. Não às meias medidas, mas à santidade”.

Montini, bispo catapultado pela Providência à liderança e gestão de um Concílio em um momento de grandes transformações sociais, culturais e eclesiais, encarna muito bem a figura santa de um período efervescente e atormentado de renovação, ainda a ser aprofundado em vários aspectos nas primeiro décadas do terceiro milênio.

Escreveu-se, no plano histórico-social, de um "século breve" e, no eclesial, de uma época que, diante da degeneração do secularismo e da "desertificação" da fé, teve que gerar o lema da "nova evangelização". Um rótulo que se repete desde os anos 1990, ao qual não é estranha a bela e sempre atual exortação apostólica Evangelii nuntiandi, promulgada por Paulo VI em 8 de dezembro de 1975, dez anos após o encerramento do Vaticano II.

Assim como depois do Concílio de Trento falava-se insistentemente de "reforma da Igreja", e como depois do Vaticano I se discutia a renovação da visão do serviço petrino, também durante e depois do Vaticano II, graças a Montini, se falará cada vez mais e melhor de uma nova Europa, de uma nova civilização e, sobretudo, quase de "nova plantação do Evangelho nas terras de antigo cristianismo", ou de "mobilização geral para um novo anúncio do Evangelho" com novo ardor, novas estratégias e novos métodos.

Fino intelectual, amigo dos grandes pensadores personalistas europeus, o Papa Montini havia se nutrido da grande tradição patrística, por exemplo, de Agostinho.

Conforme nos é confidenciado pelo Pe. Cremona, Montini deixou entre seus documentos nada menos que cinco arquivos de cerca de duzentas e vinte páginas, escritas à mão, repletas de citações textuais sobre temas de fé, moral, exegese escriturística, eclesiologia e até de simples costume, retiradas da imensa obra de Agostinho de Hipona, com temas recorrentes peculiares. Eram os vestígios escritos de uma longa e contínua frequentação, por sua vez testemunha da grande estima por parte de Paulo VI, o pontífice que conduziu ao porto o Concílio Ecumênico Vaticano II.

Os quatro grandes objetivos

Nos anos de sua celebração em quatro períodos (1962-1965), o Concílio marca um verdadeiro divisor de águas, recolhendo e relançando vários movimentos anteriores e instâncias de renovação (reforma litúrgica, reforma dos métodos de investigação exegética, perspectiva histórica na interpretação dos dogmas, diálogo entre cristãos e com outras religiões e credos não-cristãos...).

Além disso, juntamente com Atenágoras I, em 1965, é o papa que cancelará as recíprocas excomunhões, que datavam de 1054, quando se consumou o cisma entre as Igrejas orientais e ocidentais.

Paulo VI governa o barco do Concílio com grande perspicácia e braço firme. No discurso de abertura da segunda sessão conciliar, em 29 de setembro de 1963, ele enumera os objetivos do Concílio diante dos Padres: em primeiro lugar, a centralidade da concepção de Igreja: "Não é de admirar se o sentido verdadeiro, profundo e completo da Igreja, tal qual Cristo a fundou e os Apóstolos a começaram a construir, precisa de ser enunciado, ainda, com maior precisão. A Igreja é mistério, quer dizer, realidade embebida da presença divina, e por isso sempre objeto capaz de novas e mais profundas investigações” (n. 2).

Em segundo lugar, a reforma entendida como um retorno às origens: “o Concílio deseja ser um despertar primaveril de imensas energias espirituais e morais, como que latentes no seio da Igreja; manifesta-se como propósito resoluto dum rejuvenescimento, tanto das suas forças interiores como das normas que regulam as suas estruturas canônicas e as suas formas rituais. Isto é, o Concílio tende a dar à Igreja ou a aumentar-lhe aquela beleza de perfeição e santidade, que só a imitação de Cristo, e a união mística com Ele no Espírito Santo, lhe podem conferir” (n. 5).

Em terceiro lugar, a recomposição da unidade dos cristãos.

Finalmente, o diálogo com o mundo contemporâneo: “Podemos acaso fechar os olhos e não cair na conta de que muitos lugares desta assembleia estão vazios? Onde estão os nossos Irmãos de nações em que a Igreja é impugnada, e quais são as condições em que se encontra a religião nesses territórios? Neste particular, o Nosso espírito entristece-se com o que sabemos, e mais ainda com tudo o que não Nos é dado saber, referente tanto à sagrada Hierarquia, a Religiosos e Religiosas, como a tantos filhos Nossos sujeitos a temores, perseguições e privações, e ainda a opressões por causa da fidelidade que mantêm a Cristo e à sua Igreja” (n. 5).

Em suma, um reconhecimento franco e responsável dos problemas em aberto e das questões a serem aprofundadas, com um olhar religioso e reformador. Em suma, um apelo à responsabilidade conjunta.

O Papa Francisco disse, em fevereiro de 2021, perante o corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé: "A conjuntura que estamos atravessando também deve ser um estímulo para perdoar, ou pelo menos reduzir, a dívida que pesa sobre os países mais pobres e que, de fato, impede sua recuperação e pleno desenvolvimento".

Não uma antropologia, nem uma sociologia, mas uma teologia sai do Concílio; uma teologia que mantém presente o rosto de todos os outros, mesmo que não presentes no plenário de São Pedro, todos iluminados pelo rosto de Cristo.

Além disso, Paulo VI observa, no discurso do solene início da segunda sessão do Concílio: “Nenhuma outra luz se veja sobre esta reunião que não seja Cristo, luz do mundo; nenhuma outra verdade interesse as nossas almas, que não sejam as palavras do Senhor, nosso único mestre” (n. 4).

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