Os pontos fracos da frente ampla de Lula

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01 Novembro 2022

“A vitória de Lula é um forte impulso para essa segunda maré rosa latino-americana. Mas as pressões de seus aliados moderados, as dificuldades fiscais, bem como a forte presença da direita no Congresso, dificultarão um plano de transformação econômica e social como o que Lula e sua sucessora Dilma Rousseff tentaram implementar, a partir do segundo governo do ex-presidente”, analisa Andy Robinson, jornalista, em artigo publicado por Ctxt, 31-10-2022. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Ao centro, Lula” escreve o jornal Folha de São Paulo, após a vitória apertada de Luiz Inácio Lula da Silva, no domingo, 30 de outubro. O jornal do establishment paulista – metendo pressão após quatro anos de apoio à esquerda contra Bolsonaro – aconselha a moderação fiscal e um uso restrito do Estado para não provocar confrontos com quase metade do país que votou em Bolsonaro.

É a estranha lógica da frente ampla, pois quem deu a vitória a Lula são os eleitores mais pobres, sobretudo do nordeste, em um país onde mais de 30 milhões de pessoas passam fome. Quase um em cada três eleitores que ganham menos de dois salários mínimos mensais votou em Lula. Eles não querem moderação fiscal, nem políticas que agradem a Wall Street e os investidores em mercados emergentes.

Há razões para pensar que parte da classe trabalhadora informal, que já passa por uma grave crise humanitária, votaria em Bolsonaro por uma falsa percepção de que ele é um homem do povo. O subsídio de 600 reais, implementado por Bolsonaro em plena campanha, tem um apoio muito grande nas classes populares. Mas o establishment que se aliou nessas eleições a Lula, após perceber que em 2018 havia apoiado um psicopata que nem sequer era um bom aliado dos mercados, pedem agora uma política de centro. “Precisa dar mostras imediatas de responsabilidade orçamentária e disposição de rumar ao centro. Deve se cercar de especialistas e quadros qualificados, para além (...) de aliados à esquerda”, diz o editorial do jornal Folha de São Paulo.

Por uma margem de apenas dois milhões de votos e um ponto percentual, Lula alcançou uma vitória histórica, voltando ao poder aos 77 anos, três anos após ficar preso em uma cela de 15 metros quadrados, vítima de lawfare. “Tentaram me enterrar vivo”, disse no domingo, após conhecer os resultados, em um discurso emocionado diante de dezenas de milhares de militantes de esquerda em São Paulo.

Agora, é preciso analisar friamente até que ponto a vitória se deve ao sucesso da ampla coalizão ou ao forte compromisso de Lula em fazer políticas de apoio às camadas sociais mais carentes, que no momento são a maioria. Inclino-me a pensar na última hipótese.

Por meio de um pacto antibolsonarista, Lula conquistou o apoio de centristas como Simone Tebet e Geraldo Alckmin, o candidato conservador à vice-presidência, adversário de Lula nas eleições de 2006. Estes interpretaram a coalizão ampla e moderada como a única maneira de evitar uma vitória de Bolsonaro. Tebet chegou inclusive a pedir que se abstivessem da cor vermelha nos comícios do PT em favor do branco. As alianças com os personagens mais identificados com o velho establishment brasileiro, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foram elogiadas em todos os centros de poder nacionais e internacionais.

Contudo, a estratégia da frente ampla para conter a ultradireita e defender a democracia, que a esquerda adotou em vários países, da França ao Chile, tem pontos fracos que se manifestaram no Brasil.

A busca pelo apoio do establishment “reforçou involuntariamente o discurso populista de Bolsonaro (...), um outsider e um não-político, destacou Pablo Ortellado, no sábado, em sua coluna do jornal O Globo. Na perspectiva do eleitor de Bolsonaro, percebe-se “a convergência de todo o sistema e todo o establishment para derrotar Bolsonaro”.

Lula ganhou o apoio de economistas de centro como Armínio Fraga, democrata, sim, mas gestor de fundos de Wall Street. Mas, até o momento, Lula manteve o compromisso de aumentar o salário mínimo em linha com a inflação, bem como ampliar o plano de subsídios às famílias pobres já anunciado por Bolsonaro. Além disso, é contra o teto de gastos públicos e pretende definir o gasto em educação como investimento público.

A questão de que é necessário rumar ao centro para deter a ultradireita é muito relevante para as estratégias dos Estados Unidos à Espanha. A vitória do presidente brasileiro entre 2003 e 2010, durante a chamada maré rosa do progressismo latino-americano, consolidaria uma nova onda de vitórias: Luis Arce na Bolívia, em 2020, Gabriel Boric, no ano passado, no Chile, e Gustavo Petro, neste ano, na Colômbia. Os dois últimos optaram por uma estratégia de frente ampla, ao passo que Arce forjou sua vitória a partir da mobilização de coletivos camponeses e sociais. No momento, Arce é o presidente mais forte dos três.

De qualquer forma, a vitória de Lula é um forte impulso para essa segunda maré rosa latino-americana. Mas as pressões de seus aliados moderados, as dificuldades fiscais, bem como a forte presença da direita no Congresso, dificultarão um plano de transformação econômica e social como o que Lula e sua sucessora Dilma Rousseff tentaram implementar, a partir do segundo governo do ex-presidente.

Conforme disse Lula ontem, em um discurso emocionado para dezenas de milhares de militantes da esquerda, a única maneira de combater os cantos de sereia dos centristas aliados à oligarquia de São Paulo e aos mercados de Wall Street é a mobilização de suas bases.

O plano econômico do PT é um trabalho em construção, mas em carta aberta ao eleitorado, publicada na semana passada, comprometia-se a aumentar os investimentos em infraestrutura, utilizando os dois grandes pilares econômicos do Estado: o enorme banco público BNDES e a petroleira semiestatal Petrobras.

Da mesma forma, anunciou um plano de choque para as 33 milhões de pessoas que passam fome e para ampliar o subsídio, aprovado por Bolsonaro, para as famílias mais pobres. Aos 600 reais por família seriam acrescidos 150 reais por criança. Lula também pretende renegociar a dívida das famílias pobres.

Os centristas da frente ampla, com o apoio dos mercados financeiros, certamente, vão se opor a essas medidas. “Quer repetir os erros do passado com um papel impulsionador do Estado na economia”, atacou o influente colunista do jornal O Globo, Merval Pereira, que apoiou a ampla coalizão antibolsonarista e que agora também exige um governo que não seja de esquerda, mas da Faria Lima, o poder empresarial de São Paulo. A guerra por fora e por dentro da frente ampla está declarada, antes mesmo de assumir o poder.

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