“Poderemos evitar os impactos catastróficos das mudanças climáticas colocando a saúde e a equidade no centro das políticas públicas”. Entrevista com Milena Sergeeva

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23 Setembro 2022

 

As consequências que a crise climática pode ter sobre a saúde das populações mais vulneráveis da América Latina e do Caribe requerem ações estratégicas conjuntas e urgentes dos Estados para mitigá-las. Os sistemas de saúde e de pesquisa científica ainda são insuficientes para conter os efeitos de eventos climáticos extremos como furacões, estiagens prolongadas, aumento do nível do mar e grandes incêndios florestais como os já registrados, vários deles no país (Argentina).

 

A entrevista é de Gabriel Tuñez, publicada por elDiarioAR, 17-09-2022. A tradução é do Cepat.

 

“A crise climática representa a maior ameaça à saúde da humanidade”. O alerta foi feito aos chefes de Estado que participaram da última Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), em Glasgow, por 600 organizações que representam a comunidade sanitária mundial. Por meio de uma carta, alertaram que “ninguém está a salvo” dessa situação, embora tenham destacado que quem vive em países e comunidades de baixa renda são os menos responsáveis e os mais expostos a sofrer as consequências das mudanças climáticas em sua saúde.

 

A América Latina e o Caribe são uma das regiões do mundo mais afetadas pela crise climática, destacou um relatório da Organização Meteorológica Mundial – OMM. “Os impactos das mudanças climáticas na saúde dos latino-americanos e caribenhos não são mais coisa do futuro; eles já estão sendo sentidos e vão se intensificar. São diversos, pois esta região do mundo é diversificada em termos de ecossistemas, climas e populações”, disse a elDiarioAR Milena Sergeeva, coordenadora para a América Latina da Aliança Global para o Clima e a Saúde – GCHA, que reúne ONGs e profissionais da área da saúde de todo o mundo. A GCHA trabalha em colaboração com a Organização Pan-Americana da Saúde – OPAS e os Ministérios de Saúde e Meio Ambiente da região para promover uma resposta urgente e eficaz aos desafios da saúde e das mudanças climáticas.

 

Eis a entrevista.

 

Qual será o impacto na saúde de quem vive na América Latina em consequência dos efeitos das mudanças climáticas?

 

Os impactos das mudanças climáticas na saúde dos latino-americanos e caribenhos não são mais coisa do futuro; já estão sendo sentidos e vão se intensificar. Eles são diversos, pois esta região do mundo é diversificada em termos de ecossistemas, climas e populações, e atingem uma região que sofre sérios problemas de desigualdade, degradação ambiental e instabilidade política de longa data.

 

 

A isso se soma uma baixa capacidade de resposta de seus sistemas de saúde. Por conta das mudanças climáticas, a América Latina é e será afetada por mais chuvas intensas e furacões, estiagens prolongadas, inundações, ondas de calor e o aumento do nível do mar, eventos que levam, além de ferimentos e mortes, ao agravamento de doenças infecciosas e não transmissíveis, à desnutrição e a efeitos na saúde mental.

 

Mas as mudanças climáticas também podem levar a deslocamentos forçados, à migração e à mobilidade de populações devido à desertificação ou ao aumento do nível do mar. No Caribe, por exemplo, o custo econômico do furacão Maria em Dominica em 2017 foi de 260% de seu PIB anual. Além disso, foi responsável por um deslocamento de 27,3% de sua população. A falta de água e as inundações, por sua vez, levam ao aumento de doenças diarreicas, à insegurança alimentar e à migração forçada devido à perda de meios de subsistência dos pequenos agricultores.

 

 

Os eventos extremos também deixam efeitos negativos na saúde mental das pessoas, incluindo transtornos de estresse pós-traumático e um novo tipo de saudade, chamado de solastalgia, ou tristeza por um lugar que já não existe mais. Este lugar pode ser uma cordilheira nevada que você conheceu na infância ou sua própria casa, queimada em um incêndio florestal.

 

É possível identificar algumas populações específicas que sofrerão mais com essas mudanças no ambiente?

 

Em geral, os mais vulneráveis são pessoas com recursos limitados, os menores de 10 e os maiores de 65 anos, mulheres, populações indígenas e rurais; aqueles que não têm voz na tomada de decisões, nem capacidades de adaptação. A exposição às ondas de calor aumentou na região e atinge quase 270 milhões de pessoas maiores de 65 anos. Nos últimos 30 anos, as altas temperaturas, devido às mudanças climáticas, foram responsáveis por até 60% de todas as mortes por calor.

 

 

Que políticas públicas os governos podem implementar para combater esta situação?

 

É fundamental que os sistemas de saúde estejam preparados e tenham capacidade para responder aos impactos das mudanças climáticas. Mas os problemas de saúde causados por eventos climáticos não podem ser resolvidos apenas pela medicina. Vemos que vários problemas de saúde e de mudança climática compartilham a mesma causa principal: o uso de combustíveis fósseis. Muitas das soluções críticas para proteger a saúde das populações requerem a ação de outros setores.

 

Na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP26), realizada em Glasgow em 2021, profissionais da área da saúde entregaram a Prescrição para um Clima Saudável, assinada por mais de 600 organizações que representam a grande maioria da força mundial de saúde. A carta pedia uma eliminação rápida e justa dos combustíveis fósseis como um imperativo de saúde pública, juntamente com o financiamento climático para apoiar os países de baixa renda em sua transição climática e investimentos em sistemas de saúde resilientes e de baixo carbono.

 

 

Todos os governos do mundo devem aproveitar os benefícios substanciais para a saúde que resultam de políticas climáticas bem projetadas, como um ar mais limpo, dietas mais saudáveis e atividade física diária em cidades mais transitáveis e habitáveis. Esses benefícios salvarão milhões de vidas e serão substanciais em custos de saúde. Além disso, se as políticas climáticas nas áreas de energia, agricultura, transporte e finanças forem elaboradas tendo em conta a saúde e a equidade serão mais ambiciosas para enfrentar as mudanças climáticas e proporcionarão maiores benefícios à saúde. É lucro para onde quer que se olhe.

 

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) indicou que a América Latina e o Caribe são a região em desenvolvimento mais urbanizada do mundo, com mais de 81% de sua população vivendo em cidades. Como seus habitantes sofrem os efeitos na saúde das mudanças climáticas?

 

As áreas urbanas da América Latina, com poucas áreas verdes urbanas e infraestrutura precária para andar a pé ou de bicicleta, sofrem com as ondas de calor e a poluição do ar. Lima, por exemplo, é uma das seis capitais com menos áreas verdes do mundo. Investir em áreas verdes, por sua capacidade de interromper as ilhas de calor urbanas, é uma grande oportunidade para as cidades da região. Isso beneficiará tanto a mitigação das mudanças climáticas quanto a adaptação ao calor.

 

 

Acha que os países da região devem trabalhar de forma coordenada para combater as mudanças climáticas? Eu a consulto porque se afirma que os efeitos do desmatamento na Amazônia têm impacto no clima e na saúde de outros países da América Latina.

 

A mudança climática é um problema planetário que não conhece fronteiras. Necessitamos dos esforços de todos os países, e eles se comprometeram com isso ao assinarem o Acordo de Paris, que só funciona quando as nações implementam os compromissos em nível nacional. A ação nacional também é global e vice-versa.

 

Por exemplo, as ações do Brasil por si só são cruciais para os resultados climáticos globais, porque abriga um dos maiores sumidouros de carbono do mundo: a floresta amazônica. É devastador que a floresta tropical esteja se tornando uma fonte de emissões de carbono devido ao desmatamento e às mudanças climáticas. Os incêndios florestais causados por mudanças no uso da terra são intensificados por secas e altas temperaturas em várias regiões da Amazônia. Algo semelhante está ocorrendo nas áreas úmidas do Delta do Paraná.

 

Os riscos para a saúde da fumaça desses incêndios variam de patologias cardiovasculares, neurológicas e respiratórias a efeitos no desenvolvimento pré-natal. Isso já está causando uma sobrecarga dos serviços de saúde. Na região, em geral, a ação sobre as principais prioridades de saúde e mudanças climáticas ainda é altamente insuficiente, motivo pelo qual é urgente fortalecer as capacidades das e dos profissionais da área da saúde de hoje e de amanhã, estudar mais os benefícios das medidas de mitigação e adaptação das mudanças climáticas para a saúde e fortalecer a governança para promover uma agenda compartilhada de clima e saúde.

 

A ação implementada pelos países para combater a pandemia da Covid-19 pode ser um exemplo a ser seguido? Existe um aprendizado possível nesse contexto?

 

Continuamos aprendendo com a crise econômica e sanitária mundial provocada pelo Covid-19, que atingiu de maneira especialmente forte a América Latina. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 32% das vítimas globais causadas pelo vírus foram registradas na América Latina e no Caribe, embora a região represente apenas 8,4% da população mundial.

 

 

Uma das coisas que a pandemia nos ensinou é a importância vital de ouvir a ciência, estimular a pesquisa científica e nos afastar da desinformação e da negação. Também a necessidade de fortalecer nossos sistemas de saúde para responder aos impactos e ter uma capacidade de ação e colaboração rápida e eficaz como a demonstrada pela comunidade científica internacional uma vez compreendida a magnitude da ameaça.

 

Mas um dos grandes desafios continua sendo o acesso desigual à saúde que vimos refletido na distribuição desigual de vacinas em todo o mundo. As ameaças climáticas à saúde pública, que agravam as desigualdades existentes, indicam que seria necessário garantir o acesso universal aos cuidados de saúde. Diante da convergência da crise da pandemia de Covid-19 e da emergência climática, todos os países devem agir, independentemente de seu nível de desenvolvimento, para enfrentar os fatores climáticos e ambientais dos impactos na saúde. Ao colocar a saúde e a equidade no centro das políticas, podemos evitar impactos catastróficos.

 

Entre os profissionais da saúde, a conscientização sobre esses efeitos está crescendo, mas ainda faltam capacidades para reconhecer e registrar toda a gama de efeitos sobre a saúde provocados pelas mudanças climáticas. Nesse sentido, à medida que avançamos na educação climática, também aumenta o aquecimento global. Veremos um verdadeiro tsunami de impactos.

 

Como a solicitação feita pela Argentina e a Colômbia na cúpula ambiental da COP26 para implementar uma troca da dívida pública por ação climática poderia beneficiar as políticas de saúde destinadas a conter os efeitos das mudanças climáticas?

 

Não sou especialista em mecanismos de financiamento climático, mas o Acordo de Paris indica que os países economicamente mais desenvolvidos se comprometeram a formar um fundo de 100 bilhões de dólares para apoiar as economias menos desenvolvidas. O financiamento e a assistência técnica aos países da América Latina e do Caribe são necessários para apoiar seus esforços de mitigação e adaptação e para construir resiliência e responder aos impactos das mudanças climáticas que já estão enfrentando. Esse apoio também é necessário para enfrentar os custos da transição para sistemas de baixo carbono de forma justa, sem deixar ninguém para trás.

 

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