Guerra do trigo no Terceiro Mundo relança o grande desafio entre blocos

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01 Junho 2022

 

Um fantasma ronda o (terceiro) mundo: é tão antigo quanto o trigo imobilizado nos silos ucranianos, onde a cada dia que passa ele corre o risco de apodrecer inutilmente; trancado nos porões de navios mercantes que não podem zarpar porque os portos estão em guerra; amadurecido inutilmente nos campos do Donbass, aqueles não devastados pelas bombas e pelos rastros dos tanques, onde talvez não haja ninguém que possa ceifá-lo em paz como todos os anos. Ou então o trigo está em outros lugares, pronto para ser vendido. Mas quem o armazenou, o comercializa e fixa os seus preços todos os anos espera bem longe do rugido da guerra. Espera que a fome faça aumentar ainda mais o seu preço, até transformá-lo em ouro. Os especuladores não têm bandeiras.

 

O comentário é de Domenico Quirico, jornalista italiano, publicado por La Stampa, 31-05-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

É o fantasma da Grande Fome. Na fila diante dos fornos, os pobres do planeta, da África à Ásia meridional, observam, até agora com desesperada resignação, os preços que sobem todos os dias, assim como nós olhamos o preço dos combustíveis na bomba dos postos. Podemos chamar isso de globalização da fome.

 

É o eterno flagelo dos conflitos desde os tempos em que os exércitos invadiam o território inimigo na primavera (março é sempre um mês cruel) e imediatamente cortavam o trigo ainda em broto ou deixavam que os cavalos pastassem livremente nos campos. A fome, infelizmente, sempre foi uma arma muito eficaz. Dura ao longo do tempo, enfraquece a solidariedade, desencadeia revoltas.

 

Dir-se-á: fala-se disso, organizam-se as ajudas, os chefes de governo estudam remédios, prometem “restaurações” universais. Na infinita galeria das hipocrisias do Terceiro Milênio ocidental, o alerta para o Terceiro Mundo faminto terá que ser colocado nos primeiros lugares.

 

É claro, há os louváveis defensores da misericórdia, os voluntários e os profissionais da caridade internacional, eternas cassandras que levantam a voz contra o efeito colateral da guerra europeia sobre os humilhados e ofendidos dos outros continentes. Mas sejamos sinceros: a súbita atenção das chancelarias para o Terceiro Mundo cheira a enxofre e a mentiras. O temor que as move, descartado com negligência, é que as inevitáveis revoltas da fome determinem um novo 2011, com fugas em massa dos países sobrecarregados pela carestia rumo às costas europeias.

 

Depois de 10 anos frutuosamente empregados para esconder os migrantes sob o tapete dos “campos de acolhimento” africanos, eis que reaparece a peste dos barcos sobrecarregados, das invasões, das rotas do desespero a serem bloqueadas e vigiadas.

 

Mas, no Sul do mundo, que em grande parte se recusou a se alinhar com os Estados Unidos, a Europa e os seus aliados mais próximos na condenação e nas sanções à Rússia, a guerra e a possível catástrofe iminente são lidas de forma diferente. A contraposição entre democracias e tiranias, que constitui o pensamento único ocidental para explicar a guerra ucraniana, não seduz nem convence os presidentes-patrões, capitães e coronéis supremos de regimes, quase todos autoritários, desta parte do planeta.

 

Os mais audazes a interpretam como um exemplo de prepotência contra um país vizinho para tomar territórios e mudar as fronteiras à força: um tema que constitui uma regra intocável em uma parte do mundo onde as fronteiras certamente não são históricas ou naturais, mas traçadas a lápis e compasso pelos antigos colonialistas (europeus). Aceitar o princípio da sua modificabilidade significaria o apocalipse.

 

A guerra oferece aos senhores do mundo pobre uma grande oportunidade política, uma milagrosa água da juventude. No confronto entre os blocos, o Ocidente e a Eurásia russo-chinesa, que já se delineia como um cenário do futuro, eles podem mercadejar lucrativamente o seu apoio ora a um, ora a outro dos contendores. Até mesmo os aliados mais servis até agora dos Estados Unidos ou da França poderão aumentar o preço da sua fidelidade ao “mundo livre”, ameaçando passar com desenvoltura para as trevas confortáveis das autocracias às quais, aliás, se assemelham.

 

O Mali dos golpistas que expulsaram os franceses que estavam lá há dois séculos com a sua rotina caseira de neocolonialistas, para abrir espaço, nos negócios e na segurança para os russos, é um pioneiro a ser estudado como um caso de manual. Na nova situação geopolítica, muitos são tentados a imitá-los.

 

O realinhamento dos países do Terceiro Mundo não ocorrerá mais como nos tempos da primeira Guerra Fria. Nos anos 1960 e 1970, os “não alinhados” se ligaram ao campo do socialismo real soviético e chinês em nome de uma nova organização mundial mais equitativa do mundo e da oposição ao Norte imperialista.

 

Desta vez, eles escolherão em nome dos próprios interesses. Na segunda Guerra Fria, roubando as palavras do Lord Gladstone, estadunidenses e europeus não terão mais amigos e sócios permanentes e seguros, mas apenas aliados líquidos, perenemente na corda-bamba, com prazo de validade. O mundo que passou da falecida Nova Ordem estadunidense ao caos regido pelo direito do mais forte oferece ao restante do planeta amplas margens de manobra.

 

Tentemos agora olhar para a fome do ponto de vista das plebes famintas. A revolta do pão é muitas vezes a antessala do mecanismo revolucionário. Saqueia-se o supermercado sobretudo na África e, depois, se passa para o quartel da polícia, para o palácio da Justiça, para o Ministério do Interior.

 

Surgem as barricadas, os gavroches atiram pedras, o velho mundo desmorona. A revolução é sobretudo um acerto de contas. A primeira Guerra Fria também ofereceu boas oportunidades aos revolucionários invocados por Fanon, contribuiu para o colapso definitivo do casebre colonialista.

 

Naquela época, existia uma classe revolucionária, líderes que haviam bebido do pensamento rebelde à la Sorbonne ou à la universidade moscovita Lumumba. Já havia um fedor de quartel e de monopartidarismo no seu pensamento, mas eles eram revolucionários.

 

Hoje, a sociedade civil que se opõe com coragem e tenacidade aos regimes africanos da Argélia ao Sudão, passando pela Nigéria, é ideologicamente fraca, assemelhando-se aos espontaneístas das ingênuas e derrotadas primaveras árabes.

 

As revoltas da fome poderiam beneficiar os revolucionários com a bandeira preta dos califados, os homens da Al-Qaeda e do ISIS que olham com gananciosa satisfação para a guerra em que os “cruzados cristãos”, russos e ocidentais, lutam entre si, abrindo radiantes oportunidades para a jihad universal. Serão eles que vão armar as revoltas do pão, discipliná-las e oferecer palavras de ordem ao desespero.

 

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