Papa Francisco, a velha e a nova Ostpolitik

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22 Setembro 2022

 

Na época da Cortina de Ferro, dizia-se que a Ostpolitik projetada por Casaroli limitava a Igreja a um compromisso com seus inimigos históricos. É uma acusação que também foi feita contra a atividade diplomática do Papa Francisco, que em várias ocasiões foi comparada à Ostpolitik.

 

O comentário é de Andrea Gagliarducci, jornalista italiano, publicado por Monday Vatican, 19-09-2022.

 

O Papa Francisco não fez nada para rejeitar essa comparação. De fato, na homilia do Consistório para a criação de novos cardeais em 27 de agosto passado, ele falou muito de Casaroli, apontando-o como exemplo e destacando seu trabalho. Na prática, elogiando Casaroli, o Papa Francisco tentou justificar sua atividade e suas decisões. Este é um mecanismo retórico típico do Papa Francisco.

 

No entanto, o exemplo de Casaroli não é particularmente adequado para a atividade diplomática do Papa Francisco. No entanto, dá a essa atividade dignidade, continuidade histórica e profundidade. Ainda assim, há uma diferença considerável entre a abordagem meticulosa e o diálogo feito por Casaroli com os países além da cortina e o trabalho diplomático do Papa direcionado não apenas aos países do Leste Europeu, mas a todos os possíveis parceiros.

 

A diferença está nisto: o diálogo de Casaroli não foi um diálogo a todo custo. Surgiu quando havia uma abertura, ele fazia concessões ao estabelecer um diálogo e tentava criar pontes de confiança. Mas, no fundo, foi um diálogo destinado a salvar os católicos e servi-los onde quer que estivessem. Um diálogo contestado, mas válido em seus princípios, tanto que João Paulo II, vindo da Polônia e ligado a um dos maiores críticos de Casaroli, o cardeal Wyszynski, queria que ele fosse seu secretário de Estado.

 

Por outro lado, o diálogo do Papa Francisco parece ser um diálogo a todo custo, a ponto de dar um passo atrás na hora de assumir uma posição clara. Também para Francisco, o objetivo é defender os cristãos. Mas falta a Francisco aquele refinamento diplomático que tinha Casaroli, que também era permeado de um forte sentido pastoral.

 

Casaroli ligou-se à tradição e continuidade da história da Igreja. O Papa Francisco não tem esses limites porque sua frase mais frequente é o convite a não cair no “sempre foi feito assim”.

 

A coletiva de imprensa no avião de volta do Cazaquistão de alguma forma confirmou essa tendência do Papa Francisco. Por quatro razões.

 

A primeira razão diz respeito à própria essência da viagem: o Papa foi participar de um encontro inter-religioso, do qual não foi o organizador nem o protagonista, para enaltecer o diálogo. Mas, infelizmente, esse diálogo levou à injustiça de uma declaração final da qual ficou de fora a questão ucraniana, grande tema de debate. O Papa, em vez de participar desses eventos, deveria organizá-los.

 

A segunda razão prende-se com as palavras do Papa sobre a China, sobretudo tendo em conta o julgamento do Cardeal Zen. “Não me apetece qualificar a China de antidemocrática – disse – é um país tão complexo. Há de fato coisas que nos parecem não ser democráticas. O cardeal Zen irá a julgamento hoje em breve, eu acredito. Ele diz o que sente, e você pode ver que há limitações” – nenhuma postura ou defesa do idoso cardeal chinês.

 

Ele não falou sobre isso no Consistório. O cardeal Ludwig Gerhard Mueller reclamou mais tarde, em uma entrevista, sobre a decisão de não abordar a questão do cardeal Zen e disse que a Igreja deveria ter sido mais crítica.

 

Com suas palavras, o Papa abriu caminho para uma reação positiva do lado chinês, com o desejo – reconhecido durante o voo de ida – de ir à China pelo menos uma vez. Mas suas palavras também podem soar como um tapa na cara daqueles que, como o cardeal Zen, sofreram ao se colocar na vanguarda da defesa da liberdade do povo e que são sacrificados, afinal, no altar da diplomacia pontifícia.

 

A terceira razão diz respeito à atitude em relação à Rússia. O Papa Francisco não hesitou em definir a Rússia como um país agressor. Ainda assim, destacou que o diálogo com o agressor pode “cheirar mal”, mas que deve ser feito no final, porque o diálogo sempre abre novos caminhos.

 

A quarta razão diz respeito à situação na Nicarágua. Lá, o núncio foi expulso, um bispo está em prisão domiciliar, vários meios de comunicação católicos foram silenciados e as igrejas estão sob ataque há anos. Mas o Papa diz que sabe tudo sobre a situação e que há um diálogo aberto.

 

As quatro razões são, portanto, quatro cenários diferentes em que o Papa Francisco mostra, no entanto, que não quer declarar uma posição clara em nome dessa necessidade de prosseguir com o diálogo.

 

É uma abordagem que o Papa segue não apenas na diplomacia, mas também em todas as outras áreas. Quando perguntado na viagem de volta do Canadá se era necessário mudar a doutrina sobre contracepção, por exemplo, ele deu uma resposta geral sem responder claramente à pergunta. Ele faz isso sempre que pensa que explicitar uma posição pode impedir o diálogo.

 

A pergunta que fica é: para que serve esse diálogo? O diálogo é o objetivo principal de toda ação do Papa? O perigo é que essa busca de diálogo a todo custo seja contraproducente, colocando em risco ainda maior as pessoas que deveriam ser atendidas. É, afinal, um dos paradoxos deste pontificado.

 

Um paradoxo que pode estar repleto de consequências. Será reconhecida a capacidade profética da Igreja se, em nome da promoção do diálogo, ela não se atrever a falar?

 

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